sábado, novembro 08, 2008
Memória Barreirense (XIX)

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Tragédia
Na tarde de 8 de Abril de 1972, assisti com o meu pai e um grupo de amigos, à transmissão televisiva do União de Tomar-FCB, a contar para o Campeonato Nacional da I Divisão. Exibição descolorida do FCB e arbitragem tendenciosa. Derrota do FCB por 4-1.
Apesar do desalento, à saída da casa de Diamantino Carvalho (ex-futebolista do FCB e à data Secretário-Geral da Associação de Futebol de Setúbal e correspondente de A Bola no Barreiro) alguns dos presentes combinaram um lanche em Palmela. Por três vezes entrei pela porta traseira do lado direito na viatura de Diamantino Carvalho. Outras tantas meu pai me retirou, apesar da insistência em sentido contrário dos amigos. Um gravíssimo acidente de viação provocou a morte imediata de José Luís Duarte Pinto, que viera a ocupar o meu lugar. Diamantino Carvalho não resistiu aos ferimentos, e morreu dias depois. Edgar da Costa Nunes, João Luís dos Santos Costa e António Balseiro Fragata sobreviveram.
No ano anterior estivera em casa de José Luís Duarte Pinto, que convidara um grupo de amigos para comemorar o regresso de África do filho Luís Pinto, basquetebolista do FCB e pai de Pedro Pinto, grande promessa do basquetebol Barreirense.
Nessa noite vi fotos horríveis da Guerra. Corpos despedaçados. Porta-chaves, com orelhas do inimigo abatido. Cabeças penduradas em estacas de madeira. Cenas atrozes. Destinos que os militares portugueses (e populações civis) também sofreram às mãos dos Movimentos Africanos de Libertação Nacional.
Tinha 14 anos. Mas lembro-me muito bem da repercussão que essas imagens tiveram na minha apreciação da Guerra Colonial e que me ajudaram a formular e a amadurecer, um pouco mais tarde, a ideia de, quando chegado o momento, poder decidir em consciência e não vir a integrar as forças armadas portuguesas em guerra tão injusta e perniciosa.
O notável trabalho A Guerra do jornalista Joaquim Furtado, recentemente transmitido pela RTP, fez-me reviver aquelas imagens infernais, que tanto me impressionaram à época, e que não podem ser ignoradas nem deturpadas, no processo lento e por vezes doloroso de construção da História da Guerra Colonial.
Capa e batina
A deslocação da Associação Académica de Coimbra ao Barreiro, como aliás à generalidade dos estádios, acompanhava-se sempre de um ambiente especial, independentemente do desejo de vitória dos contendores em disputa. Era, ainda, a ‘equipa dos estudantes’. Um clube com uma mística muito peculiar. O segundo clube de muitos portugueses. Que soubera, corajosamente, afrontar Salazar na final da Taça de Portugal, disputada no Estádio do Jamor em 1969.
Em 24 de Maio de 1972 vivi algo de diferente. Ainda na primeira volta do Campeonato Nacional da I Divisão, a Académica protestara o jogo disputado no ‘Manuel de Mello’. Um acórdão tardio e absurdo do Conselho Superior de Justiça da Federação Portuguesa de Futebol, resultou na repetição do jogo que, disputado numa tarde de quarta-feira, não teve uma moldura humana condizente. Um golo de Câmpora determinou a derrota da Académica de Gervásio e dos irmãos Campos, e a sua decida ao escalão inferior. Lenços brancos brindaram os Conimbricenses no regresso aos balneários. A Académica impusera de forma inaceitável, como aliás a comunicação social desportiva então assinalara, a sua força nos órgãos decisores da Justiça e isso provocara natural desconforto e revolta nos Barreirenses. Sem lenço, mas com um gostinho muito especial de vingança, estive, como sempre, com os meus…
Curiosamente, quatro dias depois, o FCB foi a Coimbra disputar o último jogo do campeonato. Ambiente muito hostil. Saímos derrotados por 2-0. Sem consequências para nós…
Dois anos antes, no Barreiro e perante o mesmo adversário, assisti a um dos golos mais insólitos da minha vida.
Um golo prematuro da Académica logo no primeiro minuto da partida não esmoreceu o FCB, que igualou até ao intervalo e, na segunda parte, destronou os ‘estudantes’ com três bolas sem resposta.
Com um golo de… Bento. O guarda-redes que, vindo da Golegã, rapidamente se impôs no futebol nacional e internacional. E que na tarde de 4 de Janeiro de 1970, saído do quartel onde prestava o serviço militar obrigatório, colocou a bola dentro da baliza norte do Campo D. Manuel de Mello para gáudio dos adeptos Barreirenses e desespero de um atónito Viegas.
Cruz dos Santos (A Bola de 5 de Janeiro) relatou assim a proeza do nosso guardião:
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Golo de guarda-redes gerou abismo
Foi um golo invulgaríssimo. Depois de ter encaixado a bola, Bento bateu-a no solo e, perto do limite frontal da sua grande área, pontapeou-a com muita força na direcção do meio campo do antagonista.
O esférico foi cair na linha média da Académica e com tal força que nenhum jogador tentou disputá-lo.
Parecia que ele iria ser recolhido pelo guardião Viegas, mas este adiantou-se demais e com o toque no terreno a bola passou-lhe por cima e entrou na baliza da ‘Briosa’.
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Exemplar
Poucos meses depois, o FCB-Belenenses que presenciei em 17 de Dezembro de 1972 poderia ter acabado muito mal…
Os azuis de Belém, de Mourinho, Freitas, Quinito e Gonzalez, entraram a ‘todo o gás’ e chegaram ao intervalo com três golos averbados na baliza de Abrantes. A nossa defesa, liderada por Luís Mira, não conseguiu deter o poder ofensivo do adversário e os nossos médios e avançados, entre os quais Valter Costa, actual treinador do FCB, mostraram-se inoperantes.
O segundo golo foi muito contestado pelos jogadores e adeptos locais, por supostamente ter sido obtido na sequência de uma falta de Laurindo a Luís Mira, que o árbitro César Correia entendeu sancionar em sentido contrário. A partir desse momento, a reacção dos associados Barreirenses foi muito enérgica e, ao intervalo, no regresso aos balneários, proliferaram os insultos e foram arremessados muitos objectos. A Direcção do FCB decidiu, em reunião de emergência, não iniciar a segunda parte “decisão que é ditada pelas circunstâncias e para salvaguardar os interesses do clube”, conforme foi dito através da instalação sonora. Uma boa parte do público abandonou o Campo D. Manuel de Mello.
Em declarações a Santos Neves, de A Bola, o Presidente do FCB, Ezequiel Patrício declarou: “o jogo não prosseguirá, pois achamos que a integridade física do árbitro se encontra seriamente ameaçada, devido à sua má actuação. (…) a nossa massa associativa está praticamente fora de si e a invasão do campo poder-se-á dar, em qualquer momento. Não queremos, no D. Manuel de Mello, as cenas tristes e lamentáveis a que se tem assistido noutros campos do país, nem acarretar com as sanções que daí advenham”.
Mas ao cabo de trinta e cinco minutos de intervalo, as três equipas regressaram ao relvado e o jogo foi reatado. Foi um FCB digno e disciplinado que disputou a segunda parte. Para a história ficou um pesado resultado final (1-5). Mas para mim, e para muitos outros, foi um exemplo de desportivismo e fair play do meu clube, em condições e circunstâncias particularmente adversas.
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Carnaval em Torres
A cidade de Torres Vedras preparava já afincadamente o seu tradicional e afamado Carnaval, quando o FCB aí se deslocou para defrontar o Sport Club União Torreense.
Sob a orientação técnica de Luís Mira, almejávamos o regresso à I Divisão, objectivo que veio a ser alcançado pelo Estoril, treinado pelo polémico e carismático António Medeiros.
Abrantes, guardião titular da nossa baliza, era mais que um simples futebolista. Dirigente do Sindicato de Jogadores de Futebol, era à data um cidadão com um conjunto de preocupações em relação à sua classe, que o distinguiam pela positiva de grande parte dos seus pares. A maioria dos atletas da equipa profissional do FCB tinha uma escolaridade que não ultrapassava o 4º ano [antiga 4ª classe]. Com a colaboração de José Barbado, ilustre Barreirense e co-proprietário com Hélder Fráguas do Colégio Moderno do Barreiro, Abrantes estimulou, ajudou a conceber e a concretizar uma experiência inédita. Com efeito, mobilizou-se um conjunto de boas vontades e, o Colégio Moderno foi palco da frequência do primeiro ciclo por cerca de quinze futebolistas.
Concluído o curso liceal em 1974, inscrevera-me na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, para cumprir um sonho e desejo de criança: ser médico. Mas, na sequência da Revolução dos Cravos, a minha frequência universitária foi protelada, para cumprimento de um ano do chamado Serviço Cívico, imposto pelas autoridades educaticas governamentais. Os portugueses, depois de 48 anos de ditadura, estavam sedentos de participação cívica, mergulhados numa multiplicidade de organismos populares recém-criados, e (ainda) muito iludidos pela perspectiva de construção de uma pátria mais justa e mais próspera. Também eu aderi a causas belas e generosas.
Convidado por José Barbado – amigo de longa data de meu pai, e progenitor da Manuela Barbado, uma das maiores amigas da minha irmã – aceitei prontamente o desafio, e leccionei a disciplina de Ciências Naturais. E integrei o corpo docente, com José Barbado e os meus ex-companheiros de liceu, e ainda hoje grandes amigos, Eduardo Silva, João Mário Viana, José Manuel Sousa e Manuel Pedro.
A disponibilidade inicial da maior parte dos quinze atletas rapidamente se desvaneceu, mas três deles – José João, Serra e Carlos Mira – vieram a concluir nesse ano lectivo o primeiro ciclo liceal.
Foi, para todos nós, uma experiência inolvidável.
Para além da actividade docente acompanhámos a equipa em alguns jogos forasteiros. E fomos particularmente estimados por todo o grupo. Nesse domingo de 2 de Fevereiro de 1975, deslocámo-nos então a Torres Vedras, onde uma exibição portentosa do avançado Charouco abriu as portas a uma vitória do FCB (4-2). No final do jogo, numa manifestação sublime de fair play, os dirigentes do Torreense brindaram a comitiva Barreirense com uma magnífico churrasco, para o qual nós, os professores, fomos gentilmente convidados. Grande dia! Grande vitória! Grande lição de vida!
Em 2007, passados vinte e dois anos, voltei a Torres Vedras, ao Campo Manuel Marques. Para ver o FCB empatar e comprometer a permanência na II Divisão (terceiro escalão nacional). Destino que veio infelizmente a confirmar-se, poucas semanas depois.
[Excerto do Capítulo III - Viagens na minha terra
Livro PROVA DeVIDA - Estórias e memórias do meu Barreirense]
(continua)
sexta-feira, novembro 07, 2008
MECinho
É claro que não já não é o MEC de outros tempos. Como nenhum de nós o é. Não pelos cabelos brancos que entretanto proliferaram. Mas pelas transformações que se adivinham da leitura das duas magníficas entrevistas que recentemente protagonizou.Miguel Esteves Cardoso abriu-se neste início de Novembro à Sabado e à Ler. E em ambas, mas em contextos diferentes e com objectivos distintos, expõe-se o personagem solitário e obsessivo do passado, mas também o escritor e intelectual amadurecido e mais tolerante do presente. E, nas palavras de Carlos Vaz Marques - entrevistador de serviço na revista dirigida por Francisco José Viegas - "mais cauteloso e menos cruel".
As drogas são agora supérfluas. O álcool mais acessório.
Continua a devorar livros, jornais e revistas. Mas com enorme selectividade. A seu gosto. Como deve ser...
Permanece compulsivo na escrita. "Posso escrever durante muito, muito tempo. Durante 30 ou 40 horas"...
Respeita Saramago e Lobo Antunes. Mas apenas ama Agustina - "um génio"...
Eu, que nunca senti grande atracção pelo MEC, gostei agora de o reencontrar. Porque será?
quinta-feira, novembro 06, 2008
Memória Barreirense (XVIII)

Um castelo a olhar para nós
14 de Maio de 1967. Completara na véspera o meu 10º aniversário. E o FCB ofereceu-me um presente bonito.
Leiria, palco habitual da final do Campeonato Nacional da II Divisão, foi mais uma vez a cidade anfitriã. Libânio, Faneca, Bandeira, Lança, Patrício, Aurelino, Nogueira, Garrido, Azumir (capitão), Ludovico e Luís Mira, foram os onze atletas que, dirigidos pelo húngaro Janos Zorgo, trouxeram para o Barreiro, o título de Campeão Nacional da II Divisão.
Recordo-me vagamente dos momentos de alegria e exaltação clubista que se seguiram à conclusão da partida e à entrega da taça ao nosso capitão, o brasileiro Azumir. Mas lembro-me, bem melhor, da chegada da comitiva a Coina. Muitos Barreirenses aguardaram aí a nossa chegada e, em automóveis e outros veículos motorizados, constituiu-se um enorme desfile, transbordante de emoção e alegria, que fez guarda de honra até ao Ginásio-Sede. A multidão festejou tão brilhante conquista com muitas lágrimas e ‘vivas’ ao Barreirense. O Presidente Luís Raimundo dos Santos e uma equipa directiva de leais colaboradores viam mais uma vez recompensado o enorme esforço e competência dedicados à causa Barreirense. “Barreirense campeão com mérito indiscutível” – assim titulou A Bola de 15 de Maio de 1967, em crónica assinada por Cruz dos Santos.
Depois dos títulos alcançados nas épocas de 1942/1943, 1950/1951, 1959/1960, 1961/1962, o FCB acabara de obter o seu 5º título de Campeão Nacional da II Divisão, proeza que viria ainda a repetir na temporada de 1968/1969. cc
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Vencemos os ‘bebés’
Corria o ano de 1968. Era Verão. As Apostas Mútuas (Totobola) organizavam há alguns anos a Taça Ribeiro dos Reis. O FCB, sob o comando técnico de Vieirinha descera mais uma vez à II Divisão. Mas, num assomo de brio e profissionalismo, os seus atletas empenharam-se na disputa da Taça cuja designação pretendeu imortalizar a memória do proeminente jornalista, fundador de A Bola. Vencedor da Zona D, o FCB derrotou o Beira-Mar na meia-final disputada em Leiria. E apurou-se para a final. Adversário: o Leixões. A equipa Leixonense era então composta por alguns jovens talentos, como o guardião Fonseca e o avançado Praia (que veio alguns anos mais tarde a envergar a nossa camisola). Conhecida como a equipa dos ‘bebés’, a valorosa equipa de Matosinhos era considerada favorita.
Na tarde de 21 de Julho de 1968, o Estádio do Restelo apresentou uma boa moldura humana para presenciar a final. Sob um calor tórrido, presenciei um dos grandes momentos do futebol Barreirense. A inclemência atmosférica foi desta forma descrita por Alfredo Farinha, jornalista de A Bola: “O futebol teve ontem uma jornada… dolorosa! Não foram os golos que se negaram, o público que se excedeu, a bola que rebentou ou o atleta irremediavelmente lesionado. Não. O drama caía do céu, em sol que abrasava como um cáustico, e que deu aos campos toda a fisionomia dramática do sacrifício”.
Com golos de Eusébio e Luís Mira, repartidos pelas duas metades do jogo, o FCB, equipado de branco, levou de vencida a equipa Leixonense. Manuel de Oliveira, que abandonara o Belenenses, disponibilizara-se para treinar graciosamente o FCB após a saída de Vieirinha e, curiosamente, ganhou em… Belém.
Como sempre, o Ginásio-Sede foi local de concentração derradeira dos adeptos Barreirenses que, recordo bem, deram largas à sua alegria e fervor clubista.
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Camisola 11
Ao longo de 50 anos de filiação e quase tantos de acompanhamento consciente e regular das actividades do FCB, vivi momentos de tristeza, mas muitos outros de inolvidável alegria.
Em 13 de Abril de 1969, ao vencer o Grupo Desportivo de Sesimbra, ascendemos mais uma vez à I Divisão. Golos madrugadores de Eusébio, José Carlos e Rogério, nos primeiros vinte minutos de jogo, empolgaram a assistência presente no ‘Manuel de Mello’, que em uníssono chegou a gritar “Só mais um, só mais um”. O marcador ficou-se pelos 3-0, mas o FCB tinha assegurado o objectivo da subida de escalão.
Segundo o relato de João Canena em A Bola “… no meio da multidão surgiu, mais uma vez, o já conhecido ‘anão’ do Barreiro, que se tornou o fulcro das atenções e passou a ser levado em ombros pelos espectadores delirantes”.
Manuel de Oliveira, que assumira a direcção técnica da equipa nas últimas seis jornadas, foi naturalmente ovacionado, tal como os jogadores, com quem me cruzei junto do meu pai, no átrio de acesso aos balneários. Nesse momento, Luís Mira, médio-centro de invulgar talento, ofereceu-me a sua camisola de jogo, a camisola 11. Fiquei radiante!
Durante muitos anos, até se degradar pelo peso inexorável do tempo, enverguei vaidosamente aquela camisola em quase todas as actividades desportivas, no Liceu Nacional de Setúbal - Secção do Barreiro e nos jogos que ia fazendo no espaço onde, por estes dias, se constrói o Fórum Barreiro. Tinha uma textura resistente mas muito pesada, bem diferente dos modernos materiais. Como se evoluiu desde então…
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Foguetes e cabeçudos
Barreiro em Festa.
Sol e calor em tarde de quarta-feira, 16 de Setembro de 1970. Apesar do horário laboral, 7.000 espectadores concentraram-se no Campo D. Manuel de Mello para assistir à primeira participação do FCB numa competição oficial da UEFA.
O Dínamo de Zagreb, equipa jugoslava com alguma experiência internacional, deslocou-se ao Barreiro para defrontar o neófito FCB, em jogo relativo à 1ª eliminatória da edição 1970/1971 da Taça das Cidades com Feira – hoje denominada Taça UEFA.
Tambores e foguetes, cabeçudos, banda de música e fanfarra dos bombeiros, forneceram um ambiente peculiar, nunca antes vivido naquele espaço.
Em superação e num jogo de boa qualidade, a nossa equipa, treinada pelo brasileiro Edsel Fernandes, galvanizou-se e venceu com dois golos sem resposta, o primeiro por Serafim ainda na primeira parte, o segundo por Câmpora no penúltimo minuto, com uma execução que jamais esquecerei. Um golaço!
Não foi, em minha opinião, a nossa vitória mais transcendente, mas foi, pelo seu circunstancialismo histórico, uma jornada muito bonita que presenciei no lugar cativo do meu pai que não pôde comparecer por motivos profissionais.
A Bola de 17 de Setembro dedicou largo espaço a este jogo, pela pena de Homero Serpa e de Santos Serpa:
Glorioso caloiro entra pela porta grande (2-0)
Era dia de festa no Barreiro. O Barreirense, menino bonito da laboriosa vila, quis que a sua estreia em competições internacionais ficasse inesquecível do seu público, do seu fiel público que nunca o desamparou mesmo quando na 2ª divisão, se esforçava, se batia para voltar ao convívio daqueles que sempre o tiveram como adversário.
(crónica de Homero Serpa)
Quando a partida terminou, a hora era de euforia. O público debruçava-se no parapeito sobre o túnel que levava às cabines para uma última manifestação de apreço à sua equipa.
(reportagem de Santos Serpa)
Duas semanas depois, o avançado uruguaio Câmpora torna a marcar e o FCB podia ter chegado ao intervalo a vencer por 0-2, não fora a invalidação de um golo regular de Serafim, rápido e acutilante ponta de lança.
Na segunda parte, com a complacência do alemão Helmuth Bader, o Dínamo efectuou um exemplar volte-face perante os seus 15.000 fiéis, com seis golos sem resposta.
A violência dos jugoslavos e a habilidade do árbitro foram denunciadas pelo treinador Barreirense, que à reportagem de Justino Lopes (A Bola) declarou que “trouxemos 11 jogadores em vez de 11 pugilistas” para concluir, amargurado e vencido, “hoje, aqui em Zagreb foi um exército a jogar futebol e outro a fazer guerra”.
Terminara com honra, mas sem brilho, a única participação do FCB nas competições europeias.
[Excerto do Capítulo III - Viagens na minha terra
Livro PROVA DeVIDA - Estórias e memórias do meu Barreirense]
(continua)
quarta-feira, novembro 05, 2008
É bom? É o nosso...

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Em Abril de 1998 quando entrei pela primeira vez na Expo Lisboa percebi rapidamente que era muito diferente do que encontrara em Sevilha seis anos antes. Outra dimensão, outra riqueza de conteúdos, etc. etc.
A noite passada senti algo de semelhante quando acedi ao Fórum Barreiro. Mais pequeno que o homónimo do Montijo, menos rico na diversidade e na qualidade dos produtos e serviços disponíveis.
Creio que se percebem e compreendem com relativa facilidade os porquês desta realidade que percepcionei na “noite de Obama”.
O que interessa é que o Fórum Barreiro faz(ia) falta à Cidade e ao Concelho.
Não é tão bom como gostaríamos que fosse?
Mas é o nosso…
A noite passada senti algo de semelhante quando acedi ao Fórum Barreiro. Mais pequeno que o homónimo do Montijo, menos rico na diversidade e na qualidade dos produtos e serviços disponíveis.
Creio que se percebem e compreendem com relativa facilidade os porquês desta realidade que percepcionei na “noite de Obama”.
O que interessa é que o Fórum Barreiro faz(ia) falta à Cidade e ao Concelho.
Não é tão bom como gostaríamos que fosse?
Mas é o nosso…
Acordar bem

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Pego nas palavras de João Miguel Tavares (Diário de Notícias, 4 de Novembro de 2008, "Onze meses para chegar até aqui"):
"Eu sei que no mundo em que vivemos, e nos jornais em que escrevemos, estas palavras parecem ingénuas. Sei também que dificilmente Obama estará à altura das expectativas que criou para si próprio. Não importa. Não o vejo - nem nunca o vi - como um Messias que revolucionará a forma de fazer política. Isso não existe. Mas é de facto um enorme prazer, ao fim de 35 anos de vida, pela primeira vez olhar para um político e poder dizer: "Eu realmente acredito neste homem." Não por ser imune ao erro, ou sequer concordar com 100% do que ele diz, mas por ter todas as condições de carácter para, em cada momento, poder decidir da melhor maneira. Que ele seja negro e se chame Barack Hussein Obama apenas demonstra que o sonho americano continua vivo. E só quem tiver perdido toda a esperança pode não encontrar aí algum conforto".
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Feliz mas ensonado nesta hora matinal, preguiço na redacção deste post e assumo como minhas as ideias tão bem expressas ontem pelo jornalista.
Tenho alguns anos a mais.
A ingenuidade já não abunda.
Mas é o que penso.
E, sobretudo, aquilo que sinto.
terça-feira, novembro 04, 2008
Memória Barreirense (XVII)

O caminho faz-se caminhando
(Amato Lusitano)
3 de Novembro de 1963
Sempre gostei de acompanhar o FCB, nos jogos ‘intra-muros’ e, sobretudo, nas deslocações por esse país fora. É uma sensação especial, que não consigo explicar na sua plenitude. Mas que me perpassa sempre que assisto às prestações das nossas equipas na condição de visitante.
A época de futebol começara há pouco mais de dois meses. Tinha apenas 6 anos. Mas lembro-me do episódio. Como se lembrarão muitos dos largos milhares de adeptos que encheram o ‘Manuel de Mello’. Entre os quais uma grande falange de Setubalenses que tradicionalmente acompanhava a equipa vitoriana, que nesse ano tinha, mais uma vez, atletas valiosos da estirpe de Mourinho, Jaime Graça e José Maria.
Dizem as crónicas ao jogo, que o Vitória de Setúbal [designação oficial: Vitória Futebol Clube] entrou muito forte e avassalador. Três golos na primeira parte sentenciaram qualquer veleidade do FCB.
O poste esquerdo da baliza norte mostrara já alguma instabilidade e, ao intervalo, algumas mentes mais engenhosas tentaram remediar o mal. No regresso do descanso, o defesa-central Lança, talvez pensando que daí poderia resultar uma repetição integral do jogo, deu uma ‘mãozinha’ e, diz-se que intencionalmente, derrubou o poste. Aníbal de Oliveira, árbitro da partida, não esteve pelos ajustes. Deu o jogo por concluído. Consumada a derrota por 0-3, o FCB protestou. Indeferido!
No dia seguinte, A Bola dá destaque de primeira página ao acontecimento e titula: “No Barreiro, um caso intrincado. A história invulgar de um poste partido”.
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De barco… para Lisboa
Tinha 8 anos quando, a 2 de Novembro de 1965, visitei pela primeira vez o Estádio do Sport Lisboa e Benfica, vulgarmente conhecido por Estádio da Luz. Na companhia de meu pai e de alguns seus amigos, atravessámos o Tejo, numa bonita tarde de domingo. Recordo-me do deslumbramento à chegada ao estádio, belo e majestoso. Mesmo com o terceiro anel ainda incompleto – obra que veio a ser concretizada na presidência de Fernando Martins – era já o maior estádio português.
Cerca de 30.000 espectadores presenciaram um jogo muito assimétrico em todas as suas vertentes: técnica, táctica e física. Não se verificava nesse tempo, o equilíbrio que hoje existe em termos de condições de trabalho, metodologia de treino, cuidados médicos. Os resultados desnivelados eram frequentes. E a nossa derrota (8-2) nessa jornada foi disso um (mau) exemplo.
Com Coluna, Simões e José Augusto, mas sem Eusébio, o Benfica de Bela Guttmann desbaratou a nossa linha defensiva onde na esquerda despontava Adolfo, futura aquisição das ‘águias’.
Na baliza do FCB, Bráulio cumpria a nona e última época ao seu serviço. E em 1 de Novembro de 1966, foi merecedor de uma justíssima homenagem, que decorreu no Campo D. Manuel de Mello. Amora, Oriental, CUF e FCB, quatro dos seis clubes que representou na sua carreira, associaram-se à festa, simples mas de enorme significado. Recordo-me que, alguns dias antes, na sala da Direcção, alguns Directores do FCB, entre os quais o meu pai, interrogavam-se acerca da prenda a oferecer a Bráulio. No cofre, enorme, escassos contos de réis como que se perdiam na sua imensidão. A conta bancária também era exígua. Estávamos, como quase sempre, financeiramente muito depauperados. A dificuldade resolveu-se com a oferta de um emblema de ouro do clube e eu, menino de 9 anos, tive a incumbência de entregar ao valoroso guardião uma caixa com três garrafas. Perdão: duas garrafas; já que uma das delas se partira até chegar ao relvado, onde decorreu a entrega de lembranças. Durante algum tempo, muito os amigos de meu pai se ‘meteram’ comigo, perguntando pela garrafa desaparecida… Quarenta anos depois, em Rostos de 26 de Novembro de 2006, publiquei um texto dedicado a Bráulio, meu bom e velho amigo.
De Londres ao Barreiro
Acabo de ler em A Bola que o Charlton Athletic homenageou na tarde de ontem no lendário estádio The Valley, o contributo de Jorge Costa, ex-capitão do FC Porto, que envergou a camisa vermelha do popular clube londrino durante seis meses. Mais do que o valioso relógio de prata oferecido ao actual treinador-adjunto do Braga, merece particular realce o facto de cerca de trinta mil adeptos terem homenageado de forma tão calorosa, um atleta que esteve em terras de sua Majestade por um período de tempo tão escasso.
Estamos perante um feliz episódio, exemplo da cultura desportiva que na actualidade se ‘respira’ em Inglaterra, onde os tempos sombrios do ‘hooliganismo’ e do jogo violento parecem cada vez mais distantes. Sérias, rigorosas e consequentes medidas de controlo da delinquência (dentro e fora dos estádios), foram sendo concretizadas, sobretudo depois dos trágicos acontecimentos de 29 de Maio no Heysel Stadium de Bruxelas, quando Liverpool e Juventus se preparavam para disputar a final da Taça dos Campeões Europeus, corria o ano de 1985. E o Futebol britânico recuperou o seu esplendor, com adeptos fervorosos mas disciplinados, jogadores de grande qualidade e rija têmpera, treinadores de reconhecido mérito e carácter, árbitros qualificados e incorruptos, dirigentes competentes e responsáveis. Todos são parte integrante do fenómeno Futebolístico, mas os jogadores são, e muito justamente, os seus protagonistas.
Como é diferente, neste particular, a realidade portuguesa, onde muitos dirigentes e árbitros, diletantes, mesquinhos e hipócritas (e sei lá que mais…), disputam quase todos os dias, e pelas piores razões, as primeiras páginas da comunicação social.
Mas lá com cá, longe vão os tempos em que muitos atletas faziam as suas carreiras quase exclusivamente vinculados a um só emblema e a uma só paixão clubista. Recordo, da minha infância e adolescência, os exemplos dos Barreirenses Faneca, Lança, Bráulio, Serra e Luís Mira. Em décadas pretéritas muitos outros tiveram semelhante percurso. O caso porventura mais recente, se a memória me não atraiçoa foi o de Álvaro, ex-defesa esquerdo e capitão, actual treinador-adjunto do Barreirense.
As festas de homenagem, simples na sua organização, invariavelmente frustrantes no retorno financeiro, mas profundamente genuínas no seu significado, surgiam no ocaso de uma vida desportiva feita quase sempre de muita dedicação e parca compensação monetária. Pequenito mas já iniciado nas andanças da bola, lá fui entregar ao dedicado e competente Bráulio uma das singelas prendas que um pobre mas digno Barreirense lhe pôde então oferecer, como tributo a uma carreira digna e esforçada que o longilíneo guarda-redes percorrera na vila operária.
Hoje, os plantéis mudam a velocidade estonteante, a identificação dos atletas com os adeptos é efémera e anódina, a ingratidão e o esquecimento são recorrentes. Também por isso, o exemplo de Charlton me parece interessante e paradigmático, muito belo e singular.
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Para o Barreiro de… traineira
Um ano antes da retirada de Bráulio, Paulino tinha-lhe disputado e conquistado a titularidade, e foi com a contribuição deste igualmente valoroso guarda-redes que, em 2 de Maio de 1965, assisti a uma das páginas mais belas e notáveis da nossa longa história.
Sem conhecer o sabor da derrota há doze jogos, o FCB recebia o Olhanense, no culminar do Campeonato Nacional da II Divisão - Zona Sul, temporada de 1964/1965. Com menos dois pontos que o adversário e derrotado na primeira volta no Campo Padinha por 2-1, o FCB tinha de vencer por dois golos para se sagrar campeão de zona e ascender automaticamente à I Divisão.
Na véspera da partida, A Bola dedicou-lhe uma grande reportagem nas páginas 1, 3 e 6, reveladora da expectativa que o desafio despertara no futebol português. Albino Macedo, Presidente do FCB, e o treinador espanhol Oñoro manifestaram então grande optimismo. E com toda a razão!
Apesar de muito apoiada por uma multidão de Olhanenses, que se deslocaram ao Barreiro por comboio, autocarros, carros particulares e até de traineira (!), a equipa algarvia – considerada favorita por muitos observadores – foi impotente para travar um FCB demolidor. Garrido, Vicente e Ludovico decidiram a partida com três golos sem resposta, que asseguraram a nossa subida à divisão maior.
Viveram-se momentos que jamais esquecerei. Quando do terceiro golo, Leonel Gomes, possuído por uma emoção arrebatadora, saltou para o degrau inferior da bancada central e… aterrou nos meus ombros!
No final, uma imensa multidão de Barreirenses, maioritária nos 15.000 espectadores presentes, comemorou a vitória com muito fervor. Os catorze jogadores, além do júbilo da subida de divisão, levaram para casa um prémio de 1.500 escudos [75 euros], a que tiveram igualmente direito o treinador e o massagista.
No dia seguinte, Carlos Pinhão titulava em A Bola: “Golpe de teatro na zona sul. O Barreirense ganhou a I divisão… ao sprint”.
O FCB iria marcar presença, pela 17ª vez, no Campeonato Nacional da I Divisão.
[Excerto do Capítulo III - Viagens na minha terra
Livro PROVA DeVIDA - Estórias e memórias do meu Barreirense]
(continua)
Old man (for a new country?)
Em dia de eleições nos EUA é tempo de escolher Neil Young.
"Old Man"
Old man look at my life
I'm a lot like you were.
Old man look at my life
I'm a lot like you were.
Old man look at my life
Twenty four
and there's so much more
Live alone in a paradise
That makes me think of two.
Love lost, such a cost
Give me things
that don't get lost.
Like a coin that won't get tossed
Rolling home to you.
Old man take a look at my life
I'm a lot like you
I need someone to love me
the whole day through
Ah, one look in my eyes
and you can tell that's true.
Lullabies, look in your eyes
Run around the same old town.
Doesn't mean that much to me
To mean that much to you.
I've been first and last
Look at how the time goes past.
But I'm all alone at last.
Rolling home to you.
Old man take a look at my life
I'm a lot like you
I need someone to love me
the whole day through
Ah, one look in my eyes
and you can tell that's true.
Old man look at my life
I'm a lot like you were.
Old man look at my life
I'm a lot like you were.
A audácia da esperança
segunda-feira, novembro 03, 2008
Bom prenúncio?

c
Crunch time in America
(Nov 2nd 2000 From The Economist print edition)
It seems to have been going on forever. And indeed it has, for Al Gore and George W. Bush have been their respective parties’ presumed nominees for the presidency for much of the past four years. For sure, the race has had its emotions: dismay at the prospect of Bore v Gush; relief at the emergence of viable candidates in the primaries to rival both the front-runners; surprise at Mr Bush’s vast lead in the early summer; surprise again at the way “the kiss” seemed to send Mr Gore way into the lead after the party conventions; and then some angry name-calling during the televised debates as the Democrats sought to convert Bush to Shrub and the Republicans to convert Co-President to Co-Liar. That, in short, is the story so far. But the ending—and the best choice—is far from clear.
Há 8 anos foi assim.
Apoio da conservadora e prestigiada The Economist a George W. Bush.
Os tempos mudaram.
As adesões a Barack Obama são cada vez mais amplas e diversificadas.
Mas...
That´s the time?
Momento mágico
Dimitar Berbatov.
Agente secreto a soldo de Putin? Não!
Apenas um futebolista genial.
Um velho jornalista de A Bola considerou o futebol “a inteligência em movimento”.
Parece ter alguma dose de razão.
Ora vejam…
domingo, novembro 02, 2008
Sabes?
Peixe "traiçoeiro"

cc
A Bola publica hoje a listagem dos marcadores de todos os 4999 golos marcados pelo Sport Lisboa e Benfica no campeonato nacional de futebol.
Na foto poderiam estar o José Augusto, o Carlos Manuel, o Chalana, o Adolfo e mais dois ou três.
Todos eles atletas que representaram o Futebol Clube Barreirense antes do "salto" para o clube da águia.
Mas não!
Está o Faneca, defesa que nunca teve engenho nem arte para chegar ao "glorioso".
Mas que marcou um golo pelo Benfica.
Um auto-golo!
Oh Faneca, então isso fez-se?
Fistful of Love
Antony and The Johnsons
Coliseu de Lisboa, 31 de Outubro de 2005.
Foi parecido.
Bom. Muito bom...
Alvorada em Novembro
Memória Barreirense (XVI)

cc
E… não desistir
Por solicitação de António Sousa Pereira, Director de Rostos, publiquei em 11 de Abril de 2007 um texto alusivo às comemorações do 96º aniversário do FCB:
Nuvem passageira
A cada dia, sua pena e sua esperança
(Provérbio português)
Celebra-se esta noite o 96º aniversário do Futebol Clube Barreirense (FCB), em sessão solene que terá lugar no Ginásio-Sede do prestigiado, histórico e popular clube do Barreiro.
É verdade que ainda me emociono com o momento da entrega dos emblemas aos associados com 25 e 50 anos de filiação. É verdade que continuo a aplaudir com redobrada energia os nossos mais recentes campeões nacionais. É verdade que me agrada reencontrar consócios e amigos, que as circunstâncias da vida apenas permitem rever a espaços.
Mas confesso que ano após ano vou ficando algo cansado e um pouco saturado pelo formato e conteúdo, monótono e repetitivo, do nosso ‘11 de Abril’. Apetece-me ser bucólico e nostálgico, rever e agradecer o esforço colectivo de gerações sucessivas de Barreirenses, que deram nobreza, vitalidade e consistência a este grande clube. E, simultaneamente, situar-me na contra-corrente, e afirmar, sem medos e sem ponta de constrangimento, que estou insatisfeito com o presente e preocupado, muito preocupado, com o futuro.
Assistirei esta noite, como é habitual e politicamente correcto neste tipo de cerimónias, a um desfilar de discursos e intervenções de personalidades institucionais e de convidados mais ou menos ilustres e significantes no contexto político e desportivo, glosando o passado riquíssimo do FCB e desejando que o seu futuro seja próspero e fecundo. Não é esse o meu actual estado de alma, nem o propósito destas minhas palavras.
Em 21 de Julho de 2004 assumi funções de responsabilidade no FCB, como Vogal da Direcção, em representação da Secção de Basquetebol, que vivia então (ainda se lembram?) uma realidade particularmente difícil, por uma ameaça tão real quão iníqua de extinção da modalidade no clube, pelo menos na sua componente (semi)profissional. A experiência acumulada em dois anos de mandato, nos quais além de servir o projecto do Barreirense Basket, procurei ter uma actividade de maior abrangência no interior dos seus órgãos sociais, permitiu-me obter um conhecimento mais real do FCB, nas suas vertentes desportiva, administrativa e financeira. E prometer, no momento da saída, continuar a reflectir e a intervir.
Nesse propósito reflexivo e de criticismo construtivo, escrevi recentemente um conjunto de dez textos subordinados ao tema “Barreirense: que futuro?”, publicados no Jornal do Barreiro, entre 1 de Dezembro de 2006 e 2 de Fevereiro de 2007. E que coligi num texto global, disponível para envio pelo meu endereço electrónico, a todos quantos manifestarem interesse na sua leitura. As palavras iniciais do primeiro capítulo deram o mote para a minha preocupação principal: “Será o Barreirense um clube com futuro?”. E continuava: “Num tempo em que Portugal se defronta com graves dificuldades financeiras e a recuperação económica tarda em consolidar-se, a generalidade dos clubes desportivos acusa evidentes sinais de fragilidade e dependência. Alguns pereceram, outros têm a morte anunciada, muitos revelam uma viabilidade manifestamente comprometida”. Para alertar de seguida: “É neste contexto de dificuldades e constrangimentos económico-financeiros e de um novo enquadramento legal, que importa reflectir acerca do futuro do Barreirense”. E propor: “O Barreirense do século XXI deverá ser:
- conceptualmente criativo
- desportivamente ambicioso
- estruturalmente realista
- administrativamente moderno
- política e financeiramente independente.
Alguns conceitos programáticos deverão servir de fundamento para uma acção consequente. Assim, importa em minha opinião:
- analisar e reforçar a matriz e identidade do clube
- promover uma revisão e actualização estatutária
- definir uma nova política desportiva
- modernizar a organização administrativa
- projectar a estrutura e dimensão das instalações desportivas
- fomentar o crescimento da massa adepta e associativa
- renovar as áreas de comunicação, imagem e merchandising
- melhorar os índices de democraticidade e participação
- incrementar a inserção na juventude Barreirense
- reformular e actualizar os contrato-programa com a autarquia
- atrair e conquistar o tecido empresarial local e regional
- aprofundar a ligação aos agentes culturais do Concelho”.
A escassas semanas de completar 50 anos de filiação no FCB estou, como atrás referi, insatisfeito com o presente e preocupado, muito preocupado, com o futuro do meu clube de sempre. Insatisfeito pelo défice de participação dos associados na vida quotidiana do clube que escolheram como seu. Insatisfeito pela forma, por vezes autista e sobranceira, como os líderes do FCB prosseguem a sua actividade directiva. Preocupado com a actual situação patrimonial, decorrente da venda do ‘Manuel de Mello’. Preocupado com a ausência de projecto desportivo, comunicacional e cultural em que (sobre)vive o FCB.
Prestes a mergulhar no 4º escalão do futebol nacional, o FCB corre um risco, sério e real, de ver a sua generosa mas adormecida massa associativa cair numa descrença amarga e perigosa, quiçá suicida. Quando em 1966 o FCB desceu de novo à II Divisão, o grande Presidente Luís Raimundo dos Santos, que tive o privilégio de conhecer e ter por amigo, protagonizou, em colaboração com muitos e bons Barreirenses, a Festa da Unidade Barreirense. O 22 de Outubro desse ano foi, muito para além das expectativas mais optimistas, um momento inesquecível de crença e esperança na vida, agora quase centenária, do FCB. E o FCB foi nessa época, pela quinta vez, campeão nacional, regressando ao escalão maior do nosso futebol.
Será que a Direcção actual, presidida por Manuel Lopes, tem a vontade e o élan, a têmpera e a crença, o saber e o engenho necessários para ultrapassar o momento de grave crise que hoje vivemos?
Gostaria de ver a minha pergunta claramente respondida e assumida pelos dirigentes que ajudei a eleger. Como gostaria de ver os meus consócios acordar da letargia presente e contribuir com outro empenho e capacidade na revitalização (refundação?) do FCB.
Escrevi há algumas semanas: “Será apenas através de um contributo mais activo e alargado dos seus associados, do talento, criatividade, empenhamento e bom senso dos seus dirigentes, e da capacidade de diálogo e colaboração solidária, harmoniosa, transparente e moderna, com a Câmara Municipal do Barreiro e com os agentes económicos da cidade, que o Barreirense poderá ultrapassar as graves dificuldades e constrangimentos actuais. E prosseguir um percurso desportivo de mérito (na formação e na alta competição), um desempenho de relevo na sociedade Barreirense, um estatuto de Utilidade Pública tão legitimamente adquirido. Caso contrário, não estarão criadas, em minha opinião, as condições mínimas para a prossecução de objectivos desportivos competitivos semelhantes aos actuais, e o Barreirense será obrigado a recuar para patamares bem menos ambiciosos, de alcance e consequências ainda muito pouco discutidas e consciencializadas pela imensa maioria dos Barreirenses”.
Ao longo de 96 anos, o Barreirense tem sabido manter um vínculo genuíno, claro e estratégico com o Povo do Barreiro, crescendo gemelarmente com ele, abraçando-o nos momentos de vitória e com ele sofrendo as vicissitudes e as desilusões das derrotas e dos insucessos. Damos voz, alegria e identidade ao Barreiro e aos Barreirenses. Somos parte da sua História. O Barreiro orgulha-se de nós!
Hoje, dia de aniversário, lá estarei…
Conto com a sua presença, amiga e solidária.
Sei que algumas lágrimas espreitarão os meus olhos castanhos. Sou assim!
Afinal… como tantos outros Barreirenses.
Força Barreirense!!!
Parabéns Barreirense!!!
ccc
ccc
Pelo Barreirense… sempre!
Durante o mandato directivo fui adquirindo uma ideia muito precisa de quanto é (será) importante a colaboração dos diversos órgãos de comunicação social local e regional. Todos, sem excepção, mostraram-se sempre disponíveis para divulgar as actividades do FCB.
Após ter cessado funções directivas, entendi oportuno divulgar alguns textos de opinião, nem sempre totalmente coincidentes ou concordantes com a Direcção do clube. Em Rostos e no Jornal do Barreiro, as portas estiveram sempre abertas. Pelo facto, agradeço aos seus Directores, António Sousa Pereira e Miguel de Sousa, respectivamente.
Infelizmente, as contribuições públicas dos associados têm sido muito diminutas, neste esforço de discussão responsável, séria e construtiva, do presente e do futuro do FCB.
Manuela Fonseca, dedicada e atenta associada, foi aqui e acolá esboçando algumas preocupações, nomeadamente num belo texto publicado a 18 de Novembro de 2005, quando a nossa equipa de futebol, a disputar pela segunda vez no seu historial a Divisão de Honra, se encontrava já então perigosamente nos últimos lugares da tabela classificativa.
Em Rostos entendi nesse mesmo dia responder-lhe da forma que se segue:
Lutar pelo Barreirense… sempre!
Chorar por Ele… às vezes
Cara Manuela Fonseca:
A leitura das suas belas e sentidas palavras (“Carta a Rui Bento” em Rostos de 18 de Novembro de 2005) estimulou-me o desejo de lhe endereçar este texto, pelo muito apreço e admiração que sinto por si.
De há muito conhecido, o seu fervor Barreirense traduziu-se desta vez, num apelo muito oportuno e sincero, à confiança dos nossos consócios no devir da equipa sénior de futebol que disputa a Liga de Honra. No momento difícil que vivemos, nas vertentes desportiva e financeira, temos a suprema responsabilidade de, enquanto associados deste histórico, sério e prestigiado clube, reforçar a sua memória colectiva, enaltecer o seu papel sócio-desportivo-cultural, preservar a sua unidade, acreditar no seu inegável potencial de afirmação e crescimento.
O presente do Desporto em Portugal revela-nos uma realidade dolorosa, que parece apenas agora começar a ser devidamente assumida e consciencializada pelos seus protagonistas e responsáveis. A chaga dos salários em atraso no futebol (claramente mais mediatizada) mas também nas outras modalidades de alta competição e a falência recente de Clubes e S.A.D. obrigam a uma reflexão profunda.
A recente venda de algum do património do FC Barreirense, obviamente assumida pelos seus associados em Assembleia-Geral, aliviou, ainda que transitória e temporariamente, a perspectiva eminente de rotura. O encaixe financeiro até agora proporcionado por essa alienação patrimonial assegurou a participação, esta época, nas competições profissionais das duas modalidades mais representativas, o Futebol e o Basquetebol, e a prossecução da nossa vocação de Clube Formador, apesar das escassas e obsoletas infra-estruturas disponíveis.
A concretização dos resultados e objectivos competitivos que ambicionamos e que motivaram a escolha criteriosa de equipas técnicas, atletas, etc., são certamente fundamentais para o sucesso deste projecto desportivo. Mas importa, em minha opinião, ir mais longe. Temos, os Barreirenses, todos os Barreirenses, que repensar o nosso querido FC Barreirense, solidificar a sua matriz identitária, consolidar a sua inserção no tecido empresarial e cultural da Cidade e do Concelho do Barreiro. Será, certamente, um processo árduo e complexo, mas de urgência e alcance indiscutíveis, sem o qual correremos o risco de comprometer e alienar o nosso futuro.
A Manuela Fonseca estará, seguramente, na linha da frente dessa reflexão que aqui e agora proponho. O Desafio está lançado. Mãos à obra.
Cumprimentos,
Paulo Calhau
[Fim do Capítulo II - Servir
Livro PROVA DeVIDA - Estórias e memórias do meu Barreirense]
(continua)
sábado, novembro 01, 2008
Dez anos, cinco meses
She´s dead.1 de Junho 1998.
1 de Novembro 2008.
Partiu.
Mas estará connosco.
Para sempre.
"Em época de finados, período de memória e reserva, de saudade e dor, compreende-se que uma única questão não nos saia da cabeça: porque é que os nossos cemitérios são tão feios?
Chamar-lhes feios é, aliás, um acto de generosidade. Julgo que a palavra é “medonhos”. Talvez seja das semelhanças com o estacionamento de um “shopping”. Ou dos muros estucados que parecem delimitar os estádios típicos da “Liga dos Últimos”. Ou das lápides em mármore preta e brilhante, aparentemente arrancadas de uma latrina “moderna”. Ou do extravagante aspecto das lápides, com aquelas letras em chapa dourada que ficariam melhor a dizer “Vivenda Faty” do que “Recordação da esposa e cunhados”. Ou da quinquilharia depositada sobre as lápides. No fundo, tudo ajuda."
(Alberto Gonçalves, Revista Sábado, 30 de Outubro de 2008)
Muito oportunas e verdadeiras as palavras do sociólogo Alberto Gonçalves.
Os nossos cemitérios são - é claro que com honrosas excepções - lugares de um inaceitável mau gosto.
Deve ser algo de depreciativo assumir esse pelouro nos executivos autárquicos.
Parece até que é, por vezes, destinado à oposição, quando umas migalhas de poder são distribuídas pelos disponíveis.
Os bons exemplos que nos chegam lá de fora - e que alguns já conheceram in loco e outros pela televisão e pelo cinema - são aqui desoladoramente esparsos, em número e na sua dimensão física.
Temos pena!
1973 - 1984 - 2008

Pouco passava das 18 horas quando entrei no “15”, naquela tarde de 11 de Setembro de 1973. A meu lado, no eléctrico que me traria de volta ao Terreiro do Paço, um anódino cidadão empunhava o República. Cabeçalho a preto, como de resto todo o texto da primeira página. Salvador Allende morrera. E, com ele, a Revolução Democrática no Chile.
Nesse ano, em Agosto e Setembro, passados que tinham sido trinta dias de férias em Monte Gordo, tive a minha primeira experiência profissional. Nos escritórios da CUF. Na “24 de Julho”. Foram dois meses muito importantes na minha vida – então adolescente de 16 anos.
O Sr. Cardoso – como respeitosamente o fui tratando – era um escriturário de 2ª categoria. Estava à minha esquerda, com a secretária bem próxima da minha. Não era homem de muitas falas. Mas com ele dialoguei regularmente. E também com ele aprendi. Morava ali perto, em Alcântara. Era adepto do Atlético. Dos nossos dois pequenos - grandes clubes falámos. Muitas vezes.
É curioso como Atlético e Barreirense têm tanto em comum. Futebol e Basquetebol como modalidades históricas. Múltiplas passagens pela divisão máxima do futebol nacional. Presença em divisões menores nos últimos anos.
Quando em Abril último conheci a Ana Sá Lopes – editora de política nacional do Diário de Notícias – a propósito da reportagem que fez no Barreiro, reflectimos acerca de um aspecto que me pareceu curioso e que a interessou. O Atlético sofreu dolorosamente com a construção da Ponte 25 de Abril (então Ponte Salazar). O Barreirense pagou caro – como de resto todo o Barreiro – a desindustrialização verificada nas últimas décadas, nomeadamente a partir da desactivação de diversos equipamentos da CUF.
No ano passado conheci outro adepto do Atlético. Responsável pelo arquivo de A Bola, o Sr. Sisto, que me foi apresentado por Vítor Farinha – filho do grande jornalista Alfredo Farinha –, foi de enorme dedicação e gentileza para comigo, nas pesquisas que efectuei durante a preparação de PROVA DEVIDA. Foi muito interessante a forma como também então um Barreirense e um “Atlético” confraternizaram e se solidarizaram.
Há 24 anos que não entrava no Pavilhão do Atlético Clube de Portugal.
Em 1984, depois de uma primeira volta disputada em Aveiro, o Barreirense tinha ainda legítimas esperanças de alcançar o título nacional de basquetebol. Foi com essa expectativa que de 2 a 4 de Março – cerca de três meses antes da elevação do Barreiro à categoria de Cidade, em 28 de Julho – me desloquei ao Pavilhão da Tapadinha, em Alcântara. Voltámos a vacilar, como na primeira volta, apenas diante do Queluz, justo vencedor de uma Final Four em que fiquei com a sensação de que poderíamos ter ido mais além. E, fomos – pelo terceiro ano consecutivo – vice-campeões nacionais.
Regressei hoje à Tapadinha. Para o Atlético-Barreirense da Liga Portuguesa de Basquetebol. O resultado foi, desta vez, menos importante que as outras recordações. Mas querem saber? O meu Barreirense venceu por 102-57.
Ela
SHE - Charles Aznavour/Herbert Kretzmer
Cover de Elvis Costello, 1999
Ela
Talvez seja o rosto que não consigo esquecer,
Um pouco de prazer ou remorso,
Talvez seja meu tesouro ou o preço que tenho de pagar.
Ela talvez seja o sol que o verão canta,
Talvez seja o arrepio que o outono traz,
Talvez seja uma centena de coisas diferentes
Dentro dos limites de um dia.
Ela
Talvez seja a bela ou a fera,
Talvez seja a fome ou o banquete,
Talvez transforme cada dia num paraíso ou num inferno.
Ela talvez seja o espelho dos meus sonhos,
Um sorriso reflectido num riacho,
Ela talvez não seja o que ela parece ser
Dentro de sua concha.
Ela, que sempre parece tão feliz numa multidão,
Cujos olhos podem ser tão reservados e tão altivos,
A ninguém é permitido vê-los quando eles choram.
Ela talvez seja o amor que não se pode esperar que dure,
Talvez venha para mim das sombras do passado
Que me lembrarei até o dia em que eu morra.
Ela
Talvez seja a razão pela qual sobrevivo,
O "porquê" e o "para quê" pelos quais estou vivo,
Aquela por quem me importarei durante os rudes e breves anos.
Eu, eu tomarei seu sorriso e suas lágrimas
E farei deles todos meus souvenires. *
Pois onde ela for eu tenho de estar,
O propósito de minha vida é
Ela, ela, ela...
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