terça-feira, janeiro 13, 2009

Memória Barreirense (XLII)



Amigo Mike

Proveniente do Saginaw Vallery State College, Mike Plowden foi um dos atletas norte-americanos mais marcantes da história do Barreirense Basket. O mais popular entre todos, e ainda hoje residente no Barreiro. Brilhante na luta das tabelas, com ‘apenas’ 1.99m, foi o melhor ressaltador na sua primeira temporada em Portugal (1980/1981), tendo obtido o recorde fantástico de 25 ressaltos num só jogo. Contribuiu nessa época com 49% dos ressaltos e 20% dos pontos da equipa. Permaneceu no FCB até 1985, transferindo-se então para Lisboa, onde foi um dos pilares dos títulos nacionais obtidos pelo Benfica e da brilhante participação na Taça dos Campeões Europeus. Assisti no Pavilhão do Benfica a algumas extraordinárias prestações de Mike Plowden, Carlos Lisboa, Jean Jacques, Steven Rocha, Guimarães, perante grandes colossos do basquetebol europeu.
Na época de 1997/1998, e já em final de carreira, Mike Plowden regressou ao FCB. E com Damian Cephas, Carlos Freire, Nuno Silva, Alexandre Almeida, Jorge Ramos e outros, contribuiu decisivamente para o 2º lugar no Campeonato Nacional da I Divisão (segunda competição nacional). O FCB não exerceu então o direito desportivo de participação na Liga Profissional. Mike Plowden desempenhou mais tarde o cargo de treinador de Minibasket no FCB, onde pelo seu enorme carisma e simpatia despertou para a modalidade dezenas e dezenas de jovens, entre os quais o meu filho.
Em Janeiro de 2006, em tarde de um clássico FCB-Benfica – com honras de transmissão televisiva –, Mike Plowden foi alvo de uma homenagem. Na qualidade de Director da Secção de Basquetebol, organizei essa cerimónia com outros valiosos contributos, de que destaco Manuel Fernandes, seu treinador no FCB e grande responsável pela evolução técnico-táctica nos primeiros anos de permanência em Portugal. A esse propósito escrevi alguns dias depois no Jornal do Barreiro:

No passado dia 29 de Janeiro de 2006, por iniciativa da Secção de Basquetebol do FC Barreirense, o ex-atleta internacional Mike Plowden foi alvo de uma simples mas justíssima homenagem.
No intervalo do espectacular Barreirense-Benfica, brilhantemente vencido pela nossa equipa por 99-82, Mike ouviu palavras elogiosas da sua prestação desportiva, recebeu diversas ofertas do Presidente da Câmara Municipal do Barreiro Carlos Humberto, da Vereadora Regina Janeiro e dos dirigentes do clube Paulo Calhau e António Libório.
O aplauso unânime, vibrante e emocionado dos cerca de quinhentos espectadores que se deslocaram ao Pavilhão Luís de Carvalho, atletas, treinadores e dirigentes das duas equipas que o valoroso atleta tão dignamente representou, traduziram a imagem positiva que ainda perdura entre os amantes da modalidade.
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De terras do Tio Sam

Em 35 anos de presenças regulares de atletas norte-americanos no Barreiro, foram muitos os que me contemplaram com prestações desportivas de elevada categoria, contribuindo decisivamente para os bons resultados que o FCB foi alcançando de forma recorrente.
Um ano antes da chegada de Mike Plowden a Portugal, outro extraordinário norte-americano espalhara invulgar talento, virtuosismo e eficácia pelo Ginásio-Sede e outros palcos do basquetebol nacional. Proveniente da Universidade de Denver, Mat Teahan fora considerado o 11º universitário na temporada de 1978/1979 (659 pontos em 28 jogos), mas uma dupla fractura no pé coarctou-lhe as ambições de chegada à NBA. Foi ainda convalescente que Mat Teahan chegou ao Barreiro. Logo no jogo de apresentação, onde obteve 35 pontos, perspectivei a sua enorme qualidade, comprovada ao longo de toda a época. O adversário dessa noite, o Sport Lisboa e Oriental, foi o mesmo perante o qual presenciei no Pavilhão da Ajuda, na tarde de sábado de 26 de Janeiro de 1980, a uma das exibições mais espantosas de Mat Teahan, que apesar dos 53 pontos obtidos não evitou uma desesperante derrota das nossas cores por 109-100.
De uma entrevista ao Jornal do Barreiro de 23 de Novembro de 1979, extraio as suas curiosas palavras: “Ao princípio custou a habituar-me a Portugal e passei algumas noites sem dormir… A vila é um pouco poluída mas eu gosto das pessoas”. Muitos Barreirenses viveram e sofreram as consequências ecológicas de um Barreiro industrializado e poluído. Lamentavelmente a despoluição da nossa cidade resultou sobretudo do seu processo de desindustrialização e não da reconversão da indústria existente e da criação de novas e não poluentes unidades empresariais.

Da numerosa lista de basquetebolistas norte-americanos que representaram o FCB até hoje, torna-se naturalmente difícil seleccionar aqueles que, embora por razões diversas, me deixaram uma memória e uma recordação mais impressivas.
Para além dos atrás citados Earnest Killum e Matt Teahan (anos 70) e Mike Plowden (1980-1985 e 1997/1998), o meu destaque nas duas décadas que precederam a nossa entrada na Liga Profissional (2000) vai para, Arnette Hallman, Ian Stanback, Mike D´Anthony, Mike Yoest, McCatrion, O´Neil e Otto Jordan. Desde a temporada de 2000/2001, coincidindo com a nossa admissão na Liga Profissional, relembro Cortney Scott, Eric Clark, Ian Stanback, Jakim Donaldson Laverne Evans, Nate Fox, Ronnie McCollum, Steffon Bradford e Tyray Pearson. Bons praticantes norte-americanos que contribuíram decisivamente para muitas das vitórias do Barreirense Basket.
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De África e do Leste

Admar Barros, Ângelo Vitoriano, Gerson Monteiro e Nelson Sardinha foram internacionais angolanos que me deixaram boas recordações. Gerson Monteiro, após os Jogos Olímpicos de Atenas (2004), chegou mesmo a integrar um campo de treino dos San Antonio Spurs, mas não veio a alcançar o sonho de ingresso na NBA.
Um outro atleta de origem africana, Luteka Calombo, teve também uma passagem meritória pelo FCB (1996/1997), quando uma equipa que integrava Carlos Freire e Diogo Carreira alcançou as meias-finais do playoff de atribuição do título de Campeão Nacional da I Divisão (o segundo escalão do basquetebol nacional, desde a constituição da Liga de Clubes em 1995/1996).
De todos os basquetebolistas procedentes do Leste Europeu, recordo a sobriedade e a eficácia dos checos Novak e Kovac, que em 1991/1992 tiveram uma boa prestação numa equipa que incluía ainda Greg Chambers e Alexandre Almeida, Henrique Pina e Nuno Murteira. O 8º lugar na fase regular apurou-nos para o playoff, onde perdemos diante do poderoso Benfica – de Carlos Lisboa, Guimarães, Jean Jacques e Mike Plowden.
Mas o mais talentoso foi o lituano Darius Dimavicius, que apesar da veterania dos seus 34 anos, revelou ainda um conjunto de atributos técnicos e uma exemplar leitura de jogo. Que me fizeram entender a razão da sua condição anterior de internacional por uma das grandes potências do basquetebol mundial. Participou nos Jogos Olímpicos de Barcelona (1992). De Darius Dimavicius, extremo-poste de 2.06m, recordo um fabuloso lançamento a partir da linha de lance-livre do meio-campo defensivo (!), ocorrido no Pavilhão Açoreana Seguros na tarde de 14 de Fevereiro de 2003, em que derrotámos o Benfica (89-83). E não esqueço uma falta técnica que lhe foi averbada por António Coelho, árbitro internacional que recentemente deu por terminada a sua qualificada carreira. Em Queluz, a 18 de Abril desse mesmo ano, a sua decisão pareceu-me brutalmente injusta, ainda para mais infligida a um atleta de invejável carácter e impoluto fair play. Quatro anos mais tarde, no Barreiro, abordei António Coelho acerca desse episódio. Depois de um momento inicial de indecisão, relembrou a ocorrência. A explicação que forneceu esteve longe de me sossegar, embora tenha percebido parcialmente as suas ‘razões’.
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Irmãos Brasileiros

Adilson Nascimento chegou a Portugal no início de 1982, para representar o FCB. Dez anos antes, em 11 de Maio de 1972, integrando a Selecção Pré-Olímpica do Brasil em digressão pela Europa, disputou no Pavilhão do Académico Futebol Clube um jogo com um misto do Porto, treinado por Eduardo Nunes, atleta do FCB na década de 50, e que incluía Dale Dover, actualmente um próspero advogado de Manhattan. Com um palmarés invejável – olímpico em Munique (1972) e em Moscovo (1980), 8 títulos de campeão nacional, 7 vezes campeão sul-americano, outras tantas vezes campeão inter-clubes, campeão pan-americano – Adilson Nascimento mostrou na sua passagem pelo basquetebol português, nas temporadas de 1981-1983, um conjunto de qualidades, técnicas e humanas, que não passaram despercebidas aos adeptos da modalidade. Destaco a sua tranquilidade, a certeza de passe, a leitura do jogo, a capacidade de ressalto. O seu sobrinho Flávio Nascimento veio mais tarde para Portugal, onde chegou ainda muito jovem para o FCB. Em 1985/1986 Flávio Nascimento actuou com outro brasileiro de enorme valia e grande marcador de pontos, Wagner Silva. Transitou depois para o Sporting e outros clubes, numa carreira recheada de títulos, onde se evidenciou como um exímio defensor e temível triplista. Numa interessantíssima entrevista à revista Basket (Nº 12, Abril-Maio de 1983) Adilson Nascimento teceu rasgados elogios à organização do basquetebol jugoslavo:

O país que mais me impressionou foi a Jugoslávia. Um país que tem 300.000 atletas inscritos na Federação e é um país que tem infra-estrutura de trabalho impressionante. (…)
O técnico de selecção escolhe os técnicos dos juniores e os das outras categorias, para terem um trabalho comum, até esses atletas chegarem à selecção sénior. No Brasil é diferente, há uma discórdia entre técnico de juniores e de seniores, não se falam, não se dão, então isso atrapalha o trabalho, um trabalho que tem que ser seguido, contínuo e gradativo. (…)
Seria de grande lição se vocês tivessem um contacto com algum dirigente jugoslavo, para que alguma coisa vos fosse mostrada através de cursos. O que eles conseguem fazer dentro desse país, em termos de campeonato, de administração, de formação de atletas, de formação de estruturas, de adaptação em termos financeiros e especificação de uma equipa!

A qualidade da prestação de Adilson Nascimento na inesquecível Final Four de Alvalade perdura na minha memória. Mereceu então as palavras elogiosas de Manuel Castelbranco na Basket (Nº 9, Abril-Maio de 1982):

O brasileiro Adilson foi a grande figura do campeonato, e emprestou ao Barreirense um outro basquetebol, que nós, portugueses, só episodicamente poderemos ver. Ele foi quase tudo na sua equipa. Vimo-lo jogar a base e a extremo, defender os melhores extremos e postes das outras equipas; vencer ressaltos com grande classe, fazer intercepções de lançamentos que levantaram o Pavilhão de Alvalade.
O público, que nestas coisas é sempre o juiz supremo rendeu-lhe, no último jogo, no final, uma grande homenagem ao levantar-se para lhe tributar a maior salva de palmas que já ouvimos a um jogador de basquetebol a actuar em Portugal.

Na segunda temporada no FCB Adilson Nascimento teve a companhia de outro grande vulto do basquetebol brasileiro: Marcelo Vido. Em representação do Ténis Club do Brasil, Marcelo jogou no final de 1992 no prestigiado Torneio Natal do Real Madrid (1982), tradicionalmente transmitido pela RTP, com os comentários sui generis do saudoso João Coutinho, treinador do FCB no início dos anos 60. Marcelo Vido fora considerado o melhor brasileiro do ano. Francisco José, ainda hoje lembrado como um dos mais dedicados dirigentes do Barreirense Basket, deslocou-se expressamente a Madrid para ultimar a transferência do internacional brasileiro, que veio felizmente a concretizar-se. Excelente lançador, Marcelo Vido participou na segunda fase da época regular e contribuiu de forma inegável para o apuramento para a Final Four do Porto, onde factores externos ao jogo terão impedido a obtenção de mais um título nacional.
Quase vinte anos depois, outro internacional brasileiro representou o FCB. Formado em Marketing e Gestão na Universidade de Wayland Baptiste (EUA), Alexey Carvalho chegou a Portugal na temporada de 2001/2002. Apesar de contar 33 anos Alexey Carvalho não sentia o peso da idade porque “… hoje os jogadores estão mais conscientes do seu corpo, cuidam-se mais, trabalham com nutricionistas. Veja-se o caso de Karl Malone, um dos jogadores da NBA que eu mais admiro. Aos 38 anos continua a jogar ao mais alto nível…” (declarações a António Barros, Record de 27 de Agosto de 2001). Muito interessado pela ciência política e com um curriculum desportivo apreciável, Alexey Carvalho destacou-se pela sua simpatia e jovialidade tipicamente cariocas. Logo no jogo de apresentação, acabado de chegar a Portugal e apesar do natural cansaço da viagem transatlântica, brindou-nos com uma magnífica exibição, bons triplos e… 17 pontos. E disse: “Espero ajudar o Barreirense a consumar o seu grande objectivo para esta época: chegar ao playoff. As primeiras impressões do clube são muito boas. Sei que é uma equipa com muita tradição em Portugal e onde já actuaram, no passado, o Adilson e o Marcelo, dois compatriotas e amigos meus”. A prestação de Alexey Carvalho foi globalmente positiva, com uma média de 17 pontos por jogo. Mas, na última jornada da fase regular, a falta que cometeu a escassos oito segundos do final e que levou o base José Costa para a linha de lance-livre, sentenciou as nossas aspirações de apuramento para o playoff de atribuição do título da Liga Profissional. O nosso sonho ficara uma vez mais adiado…
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[Excerto do Capítulo VII - Lugar no Pódio
Livro PROVA DeVIDA - Estórias e memórias do meu Barreirense]
(continua)
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PS: Mike Plowden aceitara o meu convite para estar presente na apresentação pública de PROVA DeVIDA, no dia 8 de Março de 2008. Poucos dias antes, a morte não permitiu que a sua inesgotável simpatia e cordialidade tivessem perfumado o espaço do BeJazz Cafe. Mas ele estará sempre presente entre os Barreirenses.
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domingo, janeiro 11, 2009

Cascais, 1975



Lembras-te daquela noite inesquecível no Dramático de Cascais?
The Lamb Lies Down On Broadway - em minha opinião um dos melhores discos da história do rock - fora editado nesse ano mágico de 1974.
Em 6 de Março de 1975, na digressão mundial de 1974/5, chegara a vez de Portugal, ainda pouco “habituado” a estas “coisas”. E nós lá estivemos em Cascais, para ver os Genesis, a banda fundada em 1967 por Mike Rutherford, Peter Gabriel e Tony Banks.
Havia bilhetes a 80 e a 120 escudos. Fomos naturalmente para os mais económicos.
Valeu a pena. Se valeu...
Carpet Crawlers foi apenas um dos muitos momentos mágicos desse inesquecível concerto.

Memória Barreirense (XLI)


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(Quase) para a NBA

João Roberto Gomes nasceu na Ilha do Fogo - Cabo Verde, a 5 de Fevereiro de 1985. Chegou ao FCB em Setembro de 2002, depois da participação num torneio com equipas dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) disputado na sua terra natal. A adaptação ao Barreiro e ao FCB fez-se com facilidade. João Betinho Gomes, ou mais simplesmente Betinho, conquistou rapidamente o coração dos Barreirenses, pelo engenho, ambição, simplicidade e disciplina que rapidamente demonstrou. Tornou-se uma referência do FCB, aquém e além-fronteiras. Simpático, meigo e afectuoso, partilhou com todos, em particular com os mais pequenitos, a beleza e a magia da sua presença e dos seus saberes. Fui testemunha disso, em variadíssimas ocasiões.
Foram muitos os que vaticinaram um percurso excepcional para este jogador de eleição. Sem queimar etapas – bem acompanhado por directores, treinadores, clínicos, adeptos e amigos do FCB – João Betinho Gomes prosseguiu de forma sustentada uma carreira de sucesso. Brindou-nos ao longo de cinco anos com momentos inesquecíveis de talento, estética e alegria. Foi destaque do número inaugural da Barreirense Basket, publicada em 2004, decisão que ainda hoje considero justíssima. Internacional português, após legítimo processo de naturalização, João Betinho Gomes mereceu uma atenção especial de técnicos da NBA [National Basketball Association – a melhor liga profissional americana e mundial], que para o efeito se deslocaram ao Barreiro no início de 2007, como desenvolvi em Rostos de 4 de Janeiro:

Foi bonita a Festa, pá!
Ontem, foi Noite de Festa no Barreiro.
No Pavilhão Municipal Luís de Carvalho, pelas 21 horas, uma apreciável moldura humana presenciou o Barreirense-CAB Madeira, em partida referente à 15ª jornada da fase regular da Liga UZO de Basquetebol. Algumas presenças abrilhantaram a vitória do Barreirense:
- António Câmara, Investigador e Empresário, recém vencedor do prestigiado Prémio Pessoa, atribuído pelo semanário Expresso
- Pete Philo, International Scout dos Minnesota Timberwolves (NBA)
- Mark Crow, International Scout dos Atlanta Hawks (NBA)
- Carlos Pires, Vice-Presidente da Federação Portuguesa de Basquetebol
- Paulo Mamede, Presidente da Comissão Executiva da Liga de Clubes de Basquetebol
- Manuel Fernandes, Director-Técnico da Federação Portuguesa de Basquetebol
- Regina Janeiro, Vereadora da Educação, Cultura e Assuntos Sociais
- Rui de Carvalho, Chefe de Divisão do Desporto da Câmara Municipal do Barreiro
- António Sousa Pereira, Director de Rostos.
Manuel Lopes, Presidente do FCB, presença habitual no ‘Luís de Carvalho’, esteve discreto como sempre, longe da ribalta, mas sofrendo pela vitória da sua/nossa equipa.
Uma ausência de peso: José Miguel, speaker de invulgar competência, não pôde, por uma vez, marcar presença e catapultar os nossos atletas e adeptos, da forma vibrante e entusiástica que o caracteriza. Fizeste lá falta, Zé!
Sem jogar bem, a jovem equipa Barreirense venceu a equipa insular, dando um passo de gigante para a obtenção de um dos objectivos competitivos da presente época: a participação no primeiro ponto alto, a Taça da Liga.
Cinco breves comentários:
- António Câmara, admirador do projecto desportivo do Barreirense Basket, empresário de reconhecido mérito e indiscutível sucesso na área das novas tecnologias, poderá vir a ter um papel fundamental na ‘sponsorização’ da modalidade no Barreirense. Que outro clube, para além do Barreirense, representa de forma tão paradigmática, a juventude, criatividade e ambição dos novos projectos de sucesso da sociedade desportiva e empresarial portuguesa?
- As presenças de Pete Philo e Mark Crow são o testemunho, claro e inequívoco, de que o nosso atleta João Betinho Gomes é, neste momento, o mais talentoso e promissor basquetebolista português. As portas da NBA estão abertas, mas não escancaradas, para o valoroso atleta luso-caboverdiano. Com trabalho, ambição e sorte, João Betinho Gomes poderá vir a ser o primeiro português a jogar na NBA, a mais importante Liga Profissional de Basquetebol.
- Os adeptos Barreirenses marcaram presença em número apreciável, numa noite de quarta-feira (felizmente sem futebol televisionado) e foram, na parte final do encontro, decisivos pelo seu apoio e incitamento, para a obtenção de mais uma vitória (a quinta da fase regular) tão difícil quão importante. As vitórias fidelizam os adeptos do Barreirense Basket e conquistam novos adeptos. Na próxima quarta-feira, 10 de Janeiro, será a vez de o Sport Lisboa e Benfica visitar o Barreiro, onde sente tradicionais dificuldades e perde amiúde. Que a história se possa repetir!
- Tenho cada vez mais prazer em presenciar o Barreirense, no Barreiro e nos jogos forasteiros. Tanta Juventude, Dignidade (sobretudo na adversidade), Talento, Colectivismo e Mística. São cinco características exemplares, de uma equipa que honra o Clube, a Cidade, o Basquetebol e o Desporto. Os mais atentos, os mais sensatos e os mais inteligentes, sabem reconhecê-lo. Os mais distraídos, invejosos e incompetentes, pretendem (mas não conseguirão) ignorá-lo.
- No final do jogo, concretizada uma vitória muito sofrida (58-55), um ambiente de enorme felicidade e alívio estava estampado nos adeptos Barreirenses e a equipa (atletas, técnicos, dirigentes e clínico), num momento de grande exaltação agradeceu no centro do rectângulo de jogo, o apoio que algumas centenas de adeptos lhe concederam ao longo da partida.
Foi bonita a Festa, pá!

A boa prestação competitiva de João Betinho Gomes em 2006/2007 reforçou a atenção de ‘olheiros’ de diversas equipas da NBA e também da Europa. E a excepcional participação no XII Vilagarcia Basket Cup 2007, prestigiado torneio realizado anualmente em Espanha, foi devidamente acompanhada e elogiada pela conhecedora e exigente comunicação social especializada do país vizinho. Pouco depois, em Treviso - Itália, João Betinho Gomes confirmou as credenciais deixadas um ano antes no Reebok Eurocamp. E partiu para os Estados Unidos da América, num périplo que o levou sucessivamente a workouts [treinos de demonstração de capacidades] dos Milwaukee Bucks, Minnesotta Timberwolves, Detroit Pistons, Portland Trailblazers e Boston Celtics. O Draft [selecção de novos talentos para a NBA] teve lugar no mítico Madison Square Garden de Nova Iorque, na noite de 28 de Junho de 2007. Pelas sete horas da manhã, ouvi com ansiedade o noticiário do Rádio Clube Português. Que não fez qualquer referência ao evento. Percebi que João Betinho Gomes não fora escolhido. E fiquei triste. Muito triste!
Em Setembro de 2007, desfeito o Sonho Americano e após uma boa prestação no Campeonato da Europa, João Betinho Gomes rumou a Espanha para integrar o Alerta Cantabria, equipa da LEB Oro, segundo escalão do basquetebol espanhol.
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Da NBA

Earnest Killum foi, em minha opinião, o basquetebolista mais categorizado que representou o FCB até ao presente. Chegou ao Barreiro em 1972, com apenas 24 anos. Jogara nos Los Angeles Lakers, ao lado dos famosos Jerry West e Elgin Baylor. Foi o primeiro norte-americano a jogar no nosso clube. A sua presença veio acentuar o interesse da população Barreirense por uma modalidade já tão querida e apreciada. Conquistou uma imensa onda de simpatia. Foi respeitado e admirado por todos os adeptos da modalidade. Os treinos no Ginásio-Sede despertaram um entusiasmo nunca antes visto. A assistência aos jogos no Ginásio-Sede (jornada dupla aos sábados e domingos) obrigava a uma deslocação muito atempada, de pelo menos 2 horas (!), para o recinto.
Assisti a jogos fantásticos de Earnest Killum. Foi o segundo marcador do Campeonato Nacional da I Divisão, com 794 pontos em 22 jogos (média de 36.1 pontos/jogo), apenas suplantado por Hill, do Benfica. Em ano de regresso ao escalão maior, a equipa do FCB, treinada por José Macedo, conseguiu um excelente 5º lugar (13 vitórias e 9 derrotas) no 41º Campeonato Nacional da I Divisão / 11º Campeonato Metropolitano. Dale Dover (FC Porto), Kit Jones (Sporting), Stamford (Académica), e Kevin (Ginásio Figueirense) foram outros norte-americanos que deram grande brilho a esse campeonato.

[Excerto do Capítulo VII - Lugar no Pódio
Livro PROVA DeVIDA - Estórias e memórias do meu Barreirense]
(continua)

sábado, janeiro 10, 2009

Três lances livres


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Apuramento do meu Barreirense para a Final 8 da Taça de Portugal.
Será demasiado aspirar o troféu? Talvez.
Com as previsíveis ausências de António Pires e João Santos tudo se tornará mais difícil.
Cá estaremos no Barreiro - Capital do Basket - para apoiar o Barreirense. E conduzi-lo à vitória.
Para reviver Almeirim 1985.
Que bom seria...
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LeBron James está numa forma fantástica.
Vou acompanhando alguns flashes das suas enormes prestações.
E ao inicio da tarde de hoje vi grande parte do Cleveland Cavaliers x Boston Celtics.
Ressaltos. Assistências. "Afundanços". Cestos - hoje até de meio-campo.
Criatividade, poder atlético, vontade de vencer.
Diz-me o Ricardo que "ainda não tem a elegância e personalidade suficientes" para ser o novo Michael Jordan. Deve ter razão. Mas que já é o melhor da actualidade, já...

Derrota do Galitos (Barreiro) diante do Vitória (Guimarães). Esta tarde, no Pavilhão Municipal Luís de Carvalho.
Arbitragem fraca (ao nível do jogo).
Vitória forasteira.
Quarenta e um espectadores!
Assim vai o Basket em Portugal.
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Mas que coincidência...


Há coisas engraçadas.
Passadas pucas horas do início da leitura do livro de António José Vilela (Casa das Letras, 2005), ouvi, no final da tarde de quarta-feira, uma entrevista de Otelo Saraiva de Carvalho ao RCP.


Em Junho de 1976, nas eleições presidenciais ganhas por António Ramalho Eanes, 792 760 portugueses deram o seu voto a Otelo. Fui um deles.

"O Povo segue em frente. Otelo a Presidente" - ouviu-se nas ruas de Portugal, por essas semanas que antecederam o escrutínio popular.
No seu périplo nacional, Otelo fez uma breve paragem no Barreiro, com uma curtíssima e "politicamente correcta" intervenção no Campo do Luso. Para, disseram alguns, não hostilizar a força dominante local - o PCP.

Já sem ilusões revolucionárias, progressiva e irreversivelmente distante das cartilhas marxistas (leninistas, maoistas, trotskistas ou de qualquer outro matiz), ainda aderi a um voto de protesto.
Julguei então ter reafirmado, na inocência dos meus 19 anos, um ideal de esquerda, de progresso e de liberdade. Como estava ainda enganado...

No rescaldo desse momento histórico, em que não aderira a qualquer partido político, pensei que jamais viria a fazê-lo. O que aconteceu até agora, e assim continuará.

Voto sempre. Tenho convicções. Não sou equidistante nas escolhas que - nacional e localmente - convictamente assumo em cada acto eleitoral.
Mas ter “fígado” para integrar um colectivo partidário e para aceitar as realidades que julgo conhecer na sua essência…

Também Otelo diz ter-se afastado definitivamente da vida partidária. Porque o povo não o compreende(u).
Ainda bem que o fez. E, sobretudo, ainda bem que a sua ideologia (?) não fez vencimento.

Que teria sido de Portugal e dos Portugueses se acaso qualquer utopia marxista tivesse saído vencedora nos duros combates de 1975?
Que teria sido de Portugal e dos Portugueses se a ameaça permanente de qualquer associação político-partidária de vocação militar e totalitária como o Projecto Global / OUT / FP-25 tivessem continuado a espalhar ameaça, terror, sofrimento e morte?

Otelo não se distancia hoje dos erros de ontem.
Está desiludido. Mas não arrependido.
Otelo tem um discurso errático. Contraditório.
Foi uma entrevista lamentável. Deplorável.

Entretanto, a Democracia segue em frente…

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Que bom...



She Fell Into My Arms . Ed Harcourt.
Álbum Here Be Monsters. 2001

sexta-feira, janeiro 09, 2009

Rigor e pluralismo

A SIC está de parabéns.
No seu 8º aniversário.
Qualidade. Rigor.
Seriedade. Pluralismo.
Não é fácil. Mas é possível.

Memória Barreirense (XL)



A culpa é da vontade que eu tenho de te abraçar
António Variações


4 de Fevereiro de 1956

José Macedo foi o primeiro atleta de basquetebol do FCB que representou a selecção nacional, no V Portugal-Espanha, disputado em Lisboa na data supracitada, e que se concluiu com a vitória de nuestros hermanos por 70-55. Foram 11 os basquetebolistas que, até ao presente, representaram a Selecção Nacional sénior enquanto jogadores do FCB. Vários atletas que fizeram a sua formação no clube transitaram para outros emblemas ainda jovens, e apenas então foram seleccionados. Mike Plowden, por exemplo, chegou a Portugal para representar o FCB, e só mais tarde, já atleta do Benfica, foi internacional por Portugal. Bem mais extensa – 48 internacionais – é a lista de portugueses que, enquanto atletas do FCB, vestiram a camisola nacional integrando Selecções de escalões de formação.

Internacionais A, enquanto atletas FCB:
Albino Macedo • Carlos Freire • Eduardo Nunes • João Betinho Gomes • João Moura • Jorge Silva • José Macedo • José Valente • José Vicente • Manuel Ferreira • Virgílio Gameiro

Internacionais A, ex-atletas FCB:
António Minhava • António Tavares • Armando Mota • Diogo Carreira • Eugénio Silva • Miguel Minhava • Mike Plowden

Internacionais escalões de formação:
Alexandre Almeida • Alexandre Coelho • Álvaro Mota • Ângelo Brito • António Carrilho • António Minhava • António Pires • Armando Mota • Augusto Bravo • Carlos Freire • David Gomes • Diogo Carreira • Edgar Mouco • Eugénio Silva • Fernando Carreira • Gonçalo Chucha • Hugo Jesus • João Betinho Gomes • João Freire • João Guerreiro • João Mesquita • João Moura • João Ramos • João Santos • Joaquim Saiote • Joaquim Soares • Jorge Manuel Ramos • Jorge Paulo Lourenço • Jorge Silva • José Cabrita • José Correia • José Fragata • José Júlio Macedo • José Silva • Luís Simão • Manuel Henrique • Manuel Sicó • Marco Mendes • Miguel Graça • Miguel Minhava • Miguel Queirós • Nuno Silva • Pedro Pereira • Pedro Pinto • Ricardo Araújo • Ricardo Gomes • Rui Silva • Virgílio Gameiro
No que se refere ao futebol foram 8 os que, enquanto atletas seniores do FCB, representaram Portugal. Mas muitos mais, previamente nossos atletas, tiveram essa honra e privilégio, quando integraram outros clubes.
Alfobre de bons futebolistas, o FCB foi com alguma regularidade fornecedor de atletas a clubes de maior poder financeiro. E muitos alcançaram aí a internacionalização.

Internacionais Selecção A, enquanto atletas FCB:
José Augusto • Raul Jorge • Raul Pireza • Valter Costa

Internacionais Selecção B, enquanto atletas FCB:
João Pireza • João Silva Faia • José Augusto • Pedro Pireza

Internacionais Selecção Militar, enquanto atletas FCB:
Adolfo • João Silva Faia • José Augusto

Internacionais A, ex-atletas FCB:
Adolfo • Albano • Álvaro Pina • Armando Ferreira • Arnaldo • Arsénio • Artur Quaresma • Bento • Carlos Gomes • Carlos Manuel • Chalana • Francisco Moreira • Frederico • João Azevedo • Jorge Ferreira • Murça • Neno • Pacheco Nobre • Pedro Pireza • Raul Jorge.

Internacionais escalões de formação:
António Prates • Ernesto • Flávio • Hugo Carreira • João Sérgio • José Augusto (Pinto de Almeida) • José Augusto • Júlio Abrantes • Luís Filipe • Marco Véstia • Miguel Ângelo • Pedro Costa • Pombinho • Vasco Firmino

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Trocaram galhardetes

Em 11 de Julho de 1951 o Pavilhão dos Desportos de Lisboa – actual Pavilhão Carlos Lopes – foi palco do FCB-Tennesse. Uma derrota (34-20), por números hoje risíveis, marcou o primeiro jogo de carácter internacional realizado pelo basquetebol Barreirense.
Mas o ponto alto do FCB em jogos internacionais correspondeu à sua dupla participação na Taça dos Campeões Europeus, decorrente da conquista dos campeonatos nacionais de 1956/1957 e 1957/1958. O FCB-Real Madrid (12 de Março de 1958) e o FCB-Étoile de Charleville, França (23 de Dezembro de 1958), marcados por derrotas claras e naturais, foram momentos inesquecíveis que passaram à história do nosso basquetebol.
O final da década de 50 e o início dos anos 60 foram ainda marcados pelas visitas ao Barreiro dos Bittburg Barons - EUA (1956), Selecção dos Ferroviários de França (1957), ABC Nantes - França (1958), Union S. Marrocaine - Marrocos (1959), Selecção da Confederação Brasileira (1960), Antwerpse B.C. - Bélgica (1961) e Ignis Varese - Itália (1961). Uma vitória no Torneio Internacional Samsung (1985) marcou o regresso do FCB aos jogos internacionais, após um longo período de latência de 24 anos. O FCB participou mais tarde (Agosto e Setembro de 1990) em dois Torneios Internacionais, organizados em colaboração, respectivamente com o Belenenses e o Vitória de Setúbal. A partir do ano 2000, coincidente com a admissão na Liga Profissional, o FCB aumentou a sua participação em jogos internacionais. Em Setembro desse ano recebeu no Ginásio-Sede a Universidade Darmouth - EUA. O ano de 2001 ficou assinalado pelas participações no Torneio Internacional Cidade do Barreiro e no Torneio Internacional Cidade de Almada e a recepção à Universidade de Delaware. Em 2002 o FCB participou no III Torneio Internacional de Sintra e no Torneio Internacional Cidade do Barreiro.
A participação no XII Vilagarcia Basket Cup 2007 - Torneio Internacional de Pontevedra confirmou o potencial da formação Barreirense, reiterado na recentíssima vitória no Torneio Internacional de Pedrajas - Valladodid.

A primeira participação do futebol em jogos internacionais ocorreu no ano de 1923. A 1 de Dezembro, recebemos e vencemos o Real Union de Huelva por 2-0. No mesmo ano, o FCB voltou a defrontar a equipa andaluza, e recebeu ainda o Titan F.C. de Huelva e o Lisbon Sports Club, tendo acumulado vitórias em todos os jogos. A deslocação a Sevilha (1928) saldou-se por um empate com o Real Betis (4-4), clube que voltámos a defrontar em Ayamonte três anos depois, com vitória lusa por 2-4. Em 1931 ganhámos no Barreiro ao Meteor de Praga por 4-3. O FCB realizou mais tarde digressões pela Alemanha (1953), Espanha (1957, 1958 e 1962). E no Verão de 1988 disputou alguns jogos com equipas da Second Divison (terceiro escalão inglês).
O momento mais relevante decorreu, como já referi em capítulo anterior, em Setembro de 1970, quando o FCB participou, pela primeira e única vez, numa competição oficial da UEFA, a Taça das Cidades com Feira, designada Taça UEFA a partir da temporada de 1971/1972. A vitória por 2-0 sobre o Dínamo de Zagreb, em 16 de Setembro de 1970, pareceu entreabrir as portas do apuramento para a eliminatória seguinte. Mas uma arbitragem desfavorável e a absoluta inexperiência internacional da nossa equipa, determinaram uma pesada derrota (6-1) no jogo da segunda-mão, e o afastamento precoce do FCB dos relvados europeus.
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[Excerto do Capítulo VII - Lugar no Pódio
Livro PROVA DeVIDA - Estórias e memórias do meu Barreirense]
(continua)

quarta-feira, janeiro 07, 2009

Calexico



A banda de Tucson - Arizona leva já quase vinte anos de percurso.
Apenas recentemente a conheci, pela "mão" de Nuno Galopim, no seu excelente Discos Voadores (Radar FM , 97.8).
Carried to Dust foi, na sua escolha, o 17º melhor Álbum Pop de 2008.
Um disco interessante, polvilhado de múltiplas referências e alguns sons latino-americanos.
Gostei particularmente de Two Silver Trees.

Memória Barreirense (XXXIX)



Chegar, ver e vencer

Os enciclopedistas escreveram que “o Basquetebol – o popular jogo da bola ao cesto – é um jogo de equipa, jogado com uma bola e dois cestos, feitos de rede ligeiramente estrangulados, para impedir a saída súbita da bola”.
De origem inglesa, o primitivo método incluía sete jogadores. Mas foi James Naismith, canadiano, professor de educação física do YMCA Training School de Springfield - Massachusetts - USA, que o regulamentou em 1981 e lhe deu a forma ‘actual’.
O basquetebol foi introduzido em Portugal no ano de 1919 pela Associação Cristã da Mocidade de Coimbra. As delegações de Lisboa e Porto adoptaram-no imediatamente, mas só em 1927, com a fundação da Federação Portuguesa de Basquetebol, com primeira sede no Porto, se generalizou e oficializou a sua prática.

No intuito de iniciar entre nós a propaganda do novo desporto que é o “basket-ball” o Barreirense trouxe até o seu campo atlético duas “equipes”, uma do Triangulo Vermelho de Lisboa e outra do Carcavelinhos F.C., que muito se têm distinguido no campeonato lisbonense daquele jogo.
Fizeram uma animada partida, criando na assistência, que era relativamente numerosa, apreciável interesse pelo “basket”.
Venceu o Triangulo Vermelho por 30 pontos contra 8.
(Éco do Barreiro, 1 de Março de 1928)


A notícia do “quinzenário independente, defensor dos interesses do Concelho do Barreiro”, editado por Manuel A. dos Santos, anunciou os primórdios da modalidade no FCB, primeiro clube de basquetebol a sul do Tejo. Eram então Presidentes dos Órgãos Sociais do FCB: Joaquim Vicente França (Assembleia-Geral), Luís Correia Matias (Direcção) e Manuel Pacheco Nobre (Conselho Fiscal).
Os primeiros treinos decorreram em 1927 e a apresentação pública da equipa ocorreu em Fevereiro do ano seguinte, tendo o FCB efectuado em 3 de Novembro de 1928 a filiação na Associação de Basquetebol de Lisboa. O basquetebol era então um jogo sem tácticas, sem descontos de tempo e sem substituições. Nos primeiros sete anos de competição o FCB conquistou o título de Campeão de Lisboa de Primeiras Categorias por quatro vezes, três das quais consecutivas. Com “numerosos adeptos e entusiastas à sua volta” e no mais “puro e honroso amadorismo”, conquistou rapidamente o estatuto de segunda modalidade do Barreiro. A equipa de 1931/1932, Campeã de Lisboa, era composta por António Martins, Berardo Soeiro, Gil Ferreira, Joaquim Guilherme e Manuel Tavares Rodrigues. Todos naturais do Barreiro.
O FCB foi, com o Luso F.C., Grupo Desportivo “Os Celtas”, Grupo Desportivo dos Ferroviários do Barreiro, Império F.C. Barreirense, Sport Lisboa e Barreiro, um dos fundadores, em 11 de Dezembro de 1937, da Associação de Basquetebol do Barreiro, data em que abandonou a Associação de Lisboa. O FCB conquistou todos os campeonatos organizados pela Associação de Basquetebol do Barreiro (1938/1939 a 1942/1943) que em 12 de Novembro de 1943, com a extinção das Associações Regionais e a constituição das Associações Distritais, deu origem à Associação de Basquetebol de Setúbal, desde sempre sedeada no Barreiro.
O segundo período áureo do basquetebol decorreu entre 1950 e 1964. Correspondeu à conquista de 2 Campeonatos Nacionais da I Divisão, 3 Taças de Portugal (foi ainda finalista vencido por três vezes) e 3 Campeonatos Nacionais de Juniores.
O terceiro período mais destacado decorreu entre 1974 e 1986, com participações permanentes e relevantes no Campeonato Nacional da I Divisão (3 vezes Vice-Campeão) e a obtenção de 3 Taças de Portugal e 4 Campeonatos Nacionais de escalões jovens.
O ano de 2000 representou o início de um novo ciclo de relevo, com a participação na Liga Profissional. Sempre com equipas muito jovens, constituídas por mais de 50% de atletas procedentes da Formação – área bem estruturada e com um percurso extraordinariamente ganhador.

Vencedores

Ao longo da nossa história, a quase totalidade dos Presidentes atrás nomeados ergueu taças e outros troféus, obtidos com brilho e mérito, em número invejável.
O Basquetebol tem sido de forma inequívoca a modalidade mais vitoriosa. Cerca de 140 títulos regionais atestam a superioridade que o FCB vem demonstrando no Distrito de Setúbal. Mas o maior relevo vai, obviamente, para os 37 títulos nacionais alcançados. Ocupamos o 3º lugar do ranking nacional, atrás do Benfica e do FC Porto:

Campeonato Nacional da I Divisão
1956/1957 • 1957/1958

Campeonato Nacional da II Divisão
1974/1975 • 1988/1989

Taça de Portugal
1956/1957 • 1959/1960 • 1962/1963
1981/1982 • 1983/1984 • 1984/1985

Campeonato Nacional sub-20
2001/2002 • 2005/2006 • 2006/2007

Campeonato Nacional sub-18
1953/1954 • 1954/1955 • 1955/1956
1956/1957 • 1965/1966 • 1974/1975
1976/1977 • 2000/2001 • 2002/2003
2003/2004 • 2004/2005 • 2005/2006

Campeonato Nacional sub-16
1970/1971 • 1975/1976 • 1994/1995
1997/1998 • 1998/1999 • 2001/2002
2002/2003 • 2003/2004 • 2004/2005

Campeonato Nacional sub-14
1974/1975 • 2002/2003 • 2005/2006


No Futebol, os destaques vão para:
- 24 participações no Campeonato Nacional da I Divisão
- Taça Ribeiro dos Reis (1967/1968)
- 6 Campeonatos Nacionais da II Divisão: 1942/1943 • 1951/1952 • 1959/1960 • 1961/1962 • 1966/1967 • 1968/1969.
Somos o 23º classificado no ranking nacional, apesar de não disputarmos a competição máxima desde a longínqua temporada de 1978/1979. Completam o nosso valioso palmarés cerca de 75 títulos de âmbito distrital.

O Xadrez, com 20 anos de actividade permanente, tem alcançado bons resultados, individuais (com destaque para Rui Dâmaso, Sérgio Rocha e João Leonardo) e colectivos:

Principais resultados colectivos
Taça de Portugal: 1999/2000
Campeão Nacional de Rápidas: 1991/1992
Vice-Campeão Nacional I Divisão: 1998/1999
Vice-Campeão Nacional de Semi-Rápidas: 2003/2004
Campeão Nacional da II Divisão: 1988/1999 e 1997/1998
Vice-Campeão Nacional da II Divisão: 2006/2007


A Ginástica, modalidade de tão grande tradição no FCB, “orgulha-se de ter contribuído e de continuar a contribuir para o desenvolvimento motor, físico e desportivo como sendo uma parte importantíssima e indissociável da formação integral das crianças e jovens da nossa cidade e do nosso País” (Augusto Jorge, responsável técnico, 2007). Na vertente de competição, com maior diferenciação nas disciplinas gímnicas de Tumbling, Trampolim e Acrobática, a Secção de Ginástica obteve na última década um conjunto importante de de títulos colectivos: nacionais (2001), regionais (1999, 2000, 2001, 2005 e 2006) e distritais (1998, 199, 2000, 2001, 2003, 2005, 2006 e 2007). No âmbito da Ginástica Geral há a registar a presença de dezenas de atletas do FCB integrados na representação de Portugal na Gimnastrada Mundial – a maior concentração de ginastas do mundo – de 1999 em Gotemburgo - Suécia (33 atletas) e de 2007 em Dornbirn - Áustria (43 atletas). Há a registar também, como corolário da qualidade do trabalho desenvolvido ao longo dos anos, a presença dos nossos atletas nas grandes manifestações gímnicas distritais e nacionais: saraus, concentrações e demonstrações. O destaque individual vai para as campeãs nacionais Sofia Gião e Nádia Santos, agraciadas com a Medalha de Mérito Desportivo da Cidade do Barreiro.
O Kickboxing, praticado há cerca de uma década no FCB sob a orientação técnica de José Calado, reconhecido com o grau máximo de treinador pelo Centro de Estudos e Formação Desportiva, alcançou diversos títulos regionais e nacionais, protagonizados por atletas internacionais de reconhecido mérito, como Marisa Pires, Ricardo Calado, Ruben Ferro e Rui Lança.

Ecletismo

Apesar de assinaláveis dificuldades estruturais e financeiras, o FCB tem no presente mais de 500 atletas, e prossegue um esforço de ecletismo, que o situa em posição mediana no panorama desportivo nacional.
As modalidades actualmente existentes no FCB são as seis seguintes: Basquetebol, Futebol, Ginástica, Kickboxing, Natação, e Xadrez.
Algumas outras modalidades foram também praticadas ao longo da história do FCB, em períodos relativamente limitados, por vezes mesmo episódicos: Pólo Aquático, no final dos anos 20; Ciclismo, Columbofilia, Hóquei em Campo e Râguebi (década de 30, sem dúvida a mais eclética do nosso percurso); Atletismo (1942); Voleibol (1953/1954 e 1965); Halterofilismo (1959/1960); Andebol de 7 (1960). O Basquetebol feminino teve existência nos anos 60 e 70, com um percurso oscilante e competitivamente pouco relevante.

Vermelho e branco

Os Estatutos de 28 de Fevereiro de 1992 consagram no seu artigo 7º que “o equipamento do F.C.B., para todas as modalidades desportivas, será constituído por camisola com cinco faixas verticais brancas e vermelhas, alternadas, e calção branco, tendo na camisola, do lado esquerdo, o emblema”.
Na época de 2000/2001, primeira participação na Liga Profissional de Basquetebol, o FCB utilizou em algumas partidas o amarelo – uma das quatro cores que integram o nosso emblema – como cor alternativa ao vermelho e branco. Recordo-me de que a opção então tomada foi alvo de comentário e crítica por parte de alguns associados mais arreigados às cores tradicionais do clube. O calção branco foi desde sempre a regra nos basquetebolistas barreirenses. Mas no que se refere à camisola de jogo, até à utilização regular a partir da temporada de 1929/1930 das listas verticais vermelho e brancas, outras cores e outros grafismos – amarela e verde, castanha, vermelho e branco (bipartida) – foram utilizados nos primeiros dois anos.
Os futebolistas equiparam quase sempre alternativamente com camisola e calção branco, meia branca com canhão vermelho ou, menos frequentemente, com camisola e meia brancas e calção vermelho. Quando da participação na Liga de Honra, época de 2005/2006, o castanho claro foi escolhido como cor do segundo equipamento, opção que veio a recolher muito pouco agrado e simpatia por parte dos nossos associados. Nunca vi qualquer adepto envergando o nosso mais recente equipamento alternativo de futebol, sinal da apreciação negativa com que foi recebido.
Os associados do FCB são muito sensíveis a esta e outras questões, que se prendem com as nossas referências históricas. E os seus dirigentes não se podem alhear dessas preocupações, devendo auscultar as opiniões, gostos e sensibilidades daqueles que os elegeram.
Os principais clubes de futebol têm procurado, sobretudo na última década, algumas receitas suplementares decorrentes da venda de material desportivo, com recurso a um restyling regular. Mas em agremiações de dimensão associativa média, como é o caso do FCB, esta actividade de merchandising tem uma expressão infelizmente pouco relevante.

Falta pouco

Em 11 de Abril de 2011, o FCB completará 100 anos. Será uma data histórica. E um ano mágico…
Vem longe! Dirão alguns…
Não penso assim!
A cerca de três anos de distância, creio que é tempo de começar a pensar, a programar, a agir. Para que a Festa do Centenário tenha a participação, a grandeza e o brilho que se impõem e exigem. Os associados deverão contribuir com o seu fervor clubista, esforço e talento. A autarquia deverá colaborar com empenho e determinação. Os agentes económicos, desportivos e culturais do Concelho deverão participar activamente.
2011 será um ano inolvidável! De celebração das vitórias. De recordação dos heróis. De perspectivação do futuro. De afirmação de uma grande instituição – o FCB. Construído por todos os Barreirenses. Para todos os Barreirenses.
Impõe-se a constituição de uma Grande Comissão Organizadora dos 100 Anos do FCB. Qualificada, democrática e plural. Quanto antes!

[Conclusão do Capítulo VI - Quase Centenário
Livro PROVA DeVIDA - Estórias e memórias do meu Barreirense]
(continua)

terça-feira, janeiro 06, 2009

O verdadeiro amor


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O verdadeiro amor não se desgasta.
Quanto mais se dá, mais se tem.
a
Antoine de Saint-Exupéry
a

Levar a carta a Garcia


… ou o elefante a Viena
a
(…) o respeito pelos sentimentos alheios é a melhor condição para uma próspera e feliz vida de relações e afectos.
em A Viagem do Elefante. José Saramago (2008)
a
É verdade! Em vários momentos emiti comentários muito críticos ao cidadão José Saramago. Ao cidadão político, entendamo-nos.
Mas desta vez, concluída a leitura de A Viagem do Elefante, é tempo do elogio - sincero, verdadeiro, reconhecido.
Um grande livro. Dizem que o melhor, desde que foi laureado com o Nobel, passados que estão pouco mais de dez anos. Não sei. Não os li.
“Às árvores pintadas não caem as folhas”, escreveu Saramago já nas páginas derradeiras. Ali, num registo sério e lúcido, mas numa obra onde o sarcasmo e a ironia, a beleza e o rigor da palavra, a cultura e a inteligência atingem proporções sublimes
.
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segunda-feira, janeiro 05, 2009

Coisas que eu li (II)


a
“O concurso [os maiores russos da história] mostra que a Rússia continua dividida entre o desejo de uma “normalidade” europeia e o Império, a que nunca renunciará ou pode algum dia renunciar. Infelizmente, e apesar das fantasias de há 15 anos, não existe maneira de transformar uma potência asiática num país democrático e ordeiro do Ocidente.”
(VASCO PULIDO VALENTE. “A divisão da Rússia”. PÚBLICO, 2 de Janeiro de 2009)

“Não me interessa muito o chamado jogo político, mas interessa-me bastante a política. E houve poucas semanas com tanta política como esta em que acabou 2008 e começou 2009.”
(HENRIQUE MONTEIRO. “A política para lá do jogo político”. EXPRESSO, 3 de Janeiro de 2009)

“Não sei se um bom pai não deve começar a preparar os filhos para emigrarem, quando chegarem à idade de entrada no mercado de trabalho. Assim, quando vierem de visita à pátria, poderão usufruir dos aeroportos, TGV e auto-estradas, sem terem de se matar a trabalhar para as pagar.”
(MIGUEL SOUSA TAVARES. “2009: O ano de todos os perigos. EXPRESSO, 3 de Janeiro de 2009)

“A forma petulante como os partidos pisam princípios constitucionais básicos diz quase tudo sobre a vulgaridade das pessoas que habitam dentro das carapaças partidárias. E esta gente ainda tem a distinta lata de chamar ´rasca` à minha geração. Vós, ó petulantes senhores do regime, é que sois a verdadeira geração ´rasca`.”
(HENRIQUE RAPOSO. “A geração rasca”. EXPRESSO, 3 de Janeiro de 2009)

“(…) creio que chegou a hora de olhar para a disciplina partidária de forma dessacralizada: reservando-a para as promessas eleitorais, o Orçamento e as moções de censura e de confiança. A questão é que, pelas reacções, algumas direcções partidárias parecem não querer ceder poder algum.”
(ANDRÉ FREIRE. “As virtudes do voto preferencial”. PÚBLICO, 5 de Janeiro de 2009)
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Memória Barreirense (XXXVIII)


a
Cinquenta pioneiros

No final do ano da fundação, os associados do FCB seriam cerca de cinquenta. Esse número veio naturalmente a engrossar ao longo das décadas, acompanhando o crescimento populacional do Concelho, a penetração que o clube foi alcançado no seu tecido social e o prestígio que foi adquirindo.
Em 1921 o FCB tinha 270 associados. E em 1931, nas comemorações do 20º aniversário, o número já ascendia a 1.100. Em 1946, coincidindo com a criação da “Grande Comissão Pró-Ginásio”, a massa associativa teve um novo impulso, cresceu progressivamente, quase quadruplicando à data da inauguração do Ginásio-Sede (Maio de 1956). O valor máximo de associados terá rondado os seis milhares.
Actualmente, o FCB tem 5.000 sócios, valor que considero aceitável, tendo em consideração as dificuldades do movimento associativo, a crise demográfica do Concelho iniciada na década de 80 e a descida do clube ao 4º escalão nacional de futebol. É ainda assim, um número insuficiente. Mas com potencial de crescimento.
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a
Longevidade


O FCB, distinguido pelo Governo como Pessoa Colectiva de Utilidade Pública e agraciado com a Medalha de Bons Serviços Desportivos (Presidência da República), Medalha de Mérito Desportivo (Ministério da Educação e Cultura) e Medalha de Ouro de Bons Serviços (Câmara Municipal do Barreiro), apresta-se para celebrar o seu centenário.
E assume-se como um dos clubes portugueses mais antigos. Dos dezasseis clubes participantes na última Liga Bwin, seis tiveram uma constituição claramente posterior ao FCB: Belenenses (1919), Sporting Clube de Braga (1921), Sport Clube Beira-Mar (1922), Clube Desportivo das Aves (1930), Clube de Futebol Estrela da Amadora (1932) e Futebol Clube Paços de Ferreira (1950). E três dos dez restantes foram fundados apenas alguns meses antes do FCB (Club Sport Marítimo, Clube Desportivo Nacional e Vitória Futebol Clube).
Reportando-me ainda à época de 2006/2007, dos clubes inscritos na Associação de Futebol de Setúbal e participantes nos Campeonatos Nacionais, o FCB apenas é ultrapassado em longevidade pelo Vitória Futebol Clube (1910), colocando-se bem à frente de Amora Futebol Clube (1921), Grupo Desportivo Alcochetense (1937), Clube Desportivo Cova da Piedade (1947), Clube Desportivo Pinhalnovense e Clube Desportivo do Montijo (1948).



Presidentes

De Francisco Augusto Nunes de Vasconcelos (11 de Abril a 31 de Dezembro de 1911 e de 27 de Julho de 1935 a 18 de Agosto de 1936) a Manuel Marques Lopes (em exercício desde Abril de 1996), foram cinquenta e uma as personalidades, aqui apresentadas por ordem alfabética, que até à actualidade presidiram à Direcção do FCB:

Abílio Rodrigues • Alberto Bravo • Albino Macedo • António Balseiro Fragata • António Balseiro Guerra • António Cabrita • António Ferro Gomes • António José Bravo • António Pacheco Nobre • António Manuel Ribeiro • António Parra Duarte • Armando da Silva Pais • Armando de Carvalho Miranda • Carlos Alberto Lourinho • Clarimundo Pereira • Ezequiel da Costa Cavaco • Ezequiel José Patrício • Fernando Cardoso • Fernando Vasconcelos • Francisco Nunes de Vasconcelos • Inácio Monteiro de Azevedo • Jacinto Nicola Covacich • João da Costa Figueira• Joaquim Grave dos Santos • Joaquim Quintela Paixão • José Alves Trindade • José Fernandes Júnior • José Francisco Ferreira • José Francisco dos Santos • José Luís Covacich Costa • José Maria Cardoso, • José Tiago Rodrigues • Júlio Caetano Veríssimo • Júlio de Almeida Júnior (Comissão Administrativa) • Júlio José de Macedo • Luís Correia Matias • Luís Filipe Costa Mano • Luís Raimundo dos Santos • Manuel António dos Santos • Manuel Bravo • Manuel Ferreira • Manuel Guerra Pimenta • Manuel Luís Ferreira • Manuel Marques Lopes • Manuel Monteiro Crespo • Manuel Preto Chagas • Manuel Torres Ferreira (Comissão Administrativa) • Mário Fernando Pereira (Comissão Administrativa) • Renato Matias Freire • Ulisses Ricardo da Silva • Vítor Manuel Duarte.

A tradição do FCB é, por conseguinte, a de cumprimento de mandatos de curta duração (um a dois anos), apenas episodicamente repetidos pela mesma personalidade, de forma contínua ou intermitente.
O Presidente com maior número de mandatos (11) foi Albino António da Silva Macedo, actual Presidente do Conselho Consultivo e Contas, apenas ultrapassado em longevidade presidencial por Manuel Lopes que ocupa a Presidência da Direcção há mais de 11 anos consecutivos.
Nove Comissões Administrativas – constituídas para resolver situações de impasse directivo, a primeira das quais em 1918 – não totalizaram mais de quarenta e cinco meses de gestão, exemplo de que ao longo da sua história o FCB foi, quase sempre, capaz de ser dirigido pela forma estatutária mais exemplar – a eleição de uma lista por sufrágio directo e universal.



Chutos e pontapés

Os primórdios do futebol português
Não há duas opiniões em contrário. O futebol que se joga e sempre se jogou em Portugal veio de Inglaterra, pela mão de alguns jovens lusitanos educados nos melhores colégios daquele país e, também, por cidadãos britânicos a trabalhar entre nós.
Há, porém, duas versões sobre a chegada da primeira bola a Portugal. Uma aponta para o Funchal e é atribuída a um inglês de nome Harry Hilton, que ali residia – facto assinalado, durante muitos anos, num pequeno muro do parque infantil do jardim da Camacha, inserindo, em letras metálicas, a legenda “Aqui se praticou futebol pela primeira vez em Portugal em 1875”. Outra diz terem sido os irmãos Eduardo e Frederico Pinto Basto, em 1886, os portadores de uma bola com o forte desejo de continuarem, na sua pátria, um desporto, o futebol, que muito os apaixonara.
A ideia foi acolhida com o maior interesse e entusiasmo pelo irmão maioritário dos jovens estudantes, Guilherme Pinto Basto, que, porém, não se limitou a afagar a bola, como um simples brinquedo para se divertir e pontapear num jogo. Não. Foi bem mais longe. Reuniu amigos, alguns deles ingleses, levou-os até Cascais e, nos terrenos da Parada, um pouco adiante da cidadela, onde hoje existe um jardim público, ali promoveu, numa tarde domingueira de Outubro de 1888, a primeira exibição de futebol em Portugal. Não um jogo, apenas um ensaio, como ele próprio o rotulou, para mostrar aos companheiros e ao público, que prontamente ali acorreu, como se jogava futebol.
Nesse ensaio que hoje podemos entender como exibição ou treino, intervieram, para além de quatro Pinto Basto, outros jogadores que ficaram para a história como os primeiros futebolistas portugueses… [juntamente com outros jogadores] … que, três meses depois, nos terrenos do Campo Pequeno, precisamente no sítio onde hoje se encontra a Praça de Touros, em frente ao Palácio de Galveias, participaram no primeiro jogo de futebol, já com as regras, então adoptadas, em Inglaterra.
Estes actos, em si, e outras iniciativas de Guilherme Pinto Basto, na propaganda e expansão do futebol, levaram ao justo e unânime reconhecimento do seu nome como o do verdadeiro introdutor do mais popular desporto em Portugal. E, implicitamente, o ano de 1888 ficou, assim, praticamente oficializado, como o do nascimento do futebol no nosso país.
(Henrique Parreirão, 1914 – Os anos de diamante – 1989 / No primeiro Centenário do Futebol Português, edição da Federação Portuguesa de Futebol)


Com a criação do Clube Internacional de Futebol (CIF) cresceu a prática de jogos de futebol com atletas portugueses. A zona ocidental de Lisboa foi mais permeável à novidade e os jovens casapianos facilmente contagiados.
Terá sido António Maria de Oliveira, ex-aluno da Casa Pia de Lisboa, o introdutor, em 1901, do futebol no Barreiro. E que, com a colaboração de Joaquim Rosário Costa e José de Araújo, fundou o Sport Clube Barreirense. Poucos anos depois, um grupo de aprendizes das oficinas dos Caminhos-de-Ferro do Sul e Sueste fundaram uma agremiação a que deram o nome de Sport Recreativo Operário Barreirense, que veio a ser a precursora do FCB.
O primeiro jogo de maior cartel disputado no Campo do Rossio, disputou-se em 23 de Julho de 1916, quando o segundo team do Sport Lisboa e Benfica se deslocou à Vila do Barreiro para um “sensacional desafio” com a primeira equipa do FCB. “O Povo Barreirense ficará electrisado ante a demonstração soberba do futebol que os players do glorioso Sport Lisboa e Benfica farão n´este desafio” – assim anunciava um cartaz, densamente impresso, de promoção do desafio.
Em 1 de Dezembro de 1923 o Campo do Rossio, entretanto alvo de melhoramentos, foi palco do primeiro jogo internacional, com vitória ‘alvi-rubra’ por 2-0 sobre o Real Union de Huelva.
O FCB iniciou a sua participação no Campeonato de Portugal em 1927, com uma vitória retumbante sobre o Olhanense (9-4), tendo perdido com o Vitória de Setúbal (1-0) nos quartos-de-final. Na época de 1929/1930 perdeu a final com o Benfica (3-1, com 1-1 no tempo regulamentar). Em 1931/1932 foi semi-finalista derrotado pelo Belenenses. E na época de 1933/1934 voltou a ser finalista do Campeonato de Portugal (derrotado pelo Sporting 4-3, após prolongamento).
Mas, como já foi antes referido, a década de 50 foi a mais consistente, com oito participações consecutivas na I Divisão e três presenças nas meias-finais da Taça de Portugal. A época de 1978/1979, última presença na I Divisão, marcou o início de um declínio persistente e demasiado duradouro.


[Excerto do Capítulo VI - Quase Centenário
Livro PROVA DeVIDA - Estórias e memórias do meu Barreirense]
(continua)a

domingo, janeiro 04, 2009

No ano da Apollo 11



David Bowie. Space Oddity (1969)

Os vinte mais de 2008

Discos Voadores

Nuno Galopim

Sábados 18.00 - 20.00
Repete Domingos 22.00

RADAR (FM 97.8)

20 - THE LAST SHADOW PUPPETS - The Age Of Understatement
19 - RUI REININHO - Companhia Das Índias
18 - DEERHUNTER - Microcastle
17 - CALEXICO - Carried To Dust
16 - FLEET FOXES - Fleet Foxes
15 - ANTÓNIO PINHO VARGAS - Solo
14 - BOMB THE BASS - Future Chaos
13 - ATLAS SOUND - Let The Blind Lead ...
12 - MGMT - Oracular Spectacular
11 - LATE OF THE PIER - Fantasy Black Channel
10 - SPIRITUALIZED - Songs In A & E
9 - DAVID BYRNE + BRIAN ENO - Everything That Happens Will Happen Today
8 - DEPARTMENT OF EAGLES - In Ear Park
7 - THE RUBY SUNS - Sea Lion
6 - KELLEY POLAR - I Need You To Hold On While The Sky Is Falling
5 - SIMON BOOKISH - Everything/Everything
4 - THE NOTWIST - The Devil, You + Me
3 - SHEARWATER - Rook
2 - VAMPIRE WEEKEND - Vampire Weekend
1 - PORTISHEAD - Third

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sábado, janeiro 03, 2009

Good bye, forever



"East Germany, the year 1989: A young man protests against the regime. His mother watches the police arresting him and suffers a heart attack and falls into a coma. Some months later, the GDR does not exist anymore and the mother awakes. Since she has to avoid every excitement, the son tries to set up the GDR again for her in their flat. But the world has changed a lot... "
(sinopse de Good Bye Lenin).

Devem ter passado uns cinco anos desde que vi o excelente filme de Wolfgang Becker.
Voltei a lembrar-me dele esta semana, ao ver - pela terceira vez - A Insustentável Leveza do Ser, de Philip Kaufman, baseado na obra homónima de Milan Kundera.

Curiosamente, na semana que agora finda, tive mais dois "contactos de primeiro grau" - esclarecedores e aterradores, com quase sempre acontece - com o universo comunista.
Aconteceu com a leitura de Caminhos da Revolução - excelente reportagem de Cristina Margato (texto) e João Pina (fotografia) no Expresso de 27 de Dezembro.
E foi a leitura de Trotskismos - de Daniel Bensaid, professor de filosofia na Universidade de Paris VIII Saint-Denis e membro da direcção da LCR, velha organização trotskista francesa.

No primeiro de Janeiro deste novo ano, no discurso comemorativo do cinquentenário da Revolução Cubana, Raul Castro garantiu que o regime socialista não foi um fracasso.
Faz lembrar aqueles treinadores de futebol na corda-bamba, a quem os presidentes vêem dar um "voto de confiança", premonitório da (quase sempre) inevitável "chicotada".
Com uma pequena-grande diferença...
É que no caso de Cuba (e das remanescentes ditaduras comunistas) será o Povo a libertar-se das amarras dos velhos totalitarismos, que a História condenou e continuará a condenar. Mesmo apesar do esforço, da ilusão e do embuste dos seus devotados herdeiros.
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Da Austrália a Tóquio



Um magnífico filme - Australia - lembrou-me Judy Garland e “Somewhere over the rainbow” aqui excelentemente reinventado por Keith Jarrett (Tokyo 84)

sexta-feira, janeiro 02, 2009

Memória Barreirense (XXXVII)


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Não apaguem a memória
Fernando Dacosta

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11 de Abril de 1911

Estudante liceal, Francisco Augusto Nunes de Vasconcelos foi um dos fundadores do FCB e, com apenas 15 anos (!), o seu primeiro Presidente, integrando uma Direcção constituída ainda por José Joaquim Lopes (1º Secretário), José Fernandes Júnior (2º Secretário), António de Oliveira (Tesoureiro), António Lopes Quintino e José Duarte Silveira (Vogais).
Foi a 11 de Abril de 1911 que nasceu o Foot-Ball Club Barreirense. Num dia muito chuvoso, como destacou O Século, na edição do dia seguinte:

O Tejo, engrossado também com as chuvas que teem caído nas terras ribeirinhas, esteve egualmente muito carrancudo, levando uma grande corrente e pondo em risco as embarcações, cujos arraes, menos previdentes, as não puzeram em logar seguro, fazendo, como tantos outros, que, ou reforçaram as amarras, ou as metteram nas docas do abrigo.

O Concelho do Barreiro tinha nesse ano uma população de 12.203 habitantes, dos quais 8.355 residentes na Vila do Barreiro (Fonte: 5º Recenseamento da População de Portugal).
Algumas actividades económicas, como a piscatória e a agrária, entravam em decadência, por efeito do desenvolvimento de dois sectores catalisadores do Barreiro Moderno – o Barreiro Industrial. Refiro-me aos Caminhos-de-Ferro de Sul e Sueste, criados por Carta de Lei de 26 de Agosto de 1854, da responsabilidade do Conselheiro Joaquim António de Aguiar e, sobretudo, à expansão da CUF, dirigida desde
1898 por Alfredo da Silva, empresário dinâmico e visionário. A indústria corticeira, em que os principais empresários eram estrangeiros (Braancamp e Herold) continuava a ser um importante factor de desenvolvimento local.
O Barreiro não tinha qualquer sistema de saneamento básico. Havia iluminação pública a petróleo e poços de água, destacando-se pela quantidade e qualidade o “Poço dos Dezasseis”, cuja denominação decorreu da quantia de dezasseis vinténs com que a população contribuiu para a sua construção. As doenças infecciosas, com destaque para a tuberculose, dizimavam a população. A mortalidade infantil era implacável, com 17 óbitos no primeiro ano de vida ao longo de 1910, ainda assim bem menos que as 41 mortes registadas dez anos antes. Existia uma cabine pública de telefone, posto de venda de gás na Rua Aguiar (família Costa Mano) e aluguer de motocicletas a cargo de Albino José de Macedo. E, no centro da vila, emergia a Igreja de Santa Cruz (século XIX) e a Igreja da Misericórdia (último quartel do século XV), com pórtico do século XVII, púlpito de mármore da Arrábida e silha de azulejos.
O ensino particular existia no Barreiro desde 1855 (Asilo D. Pedro V) e o oficial desde 1870, por acção de Joaquim Ferreira dos Santos, o Conde de Ferreira. Mas o seu crescimento, lento e quase restrito ao sexo masculino, não impediu uma elevadíssima taxa de analfabetismo. Que a acção das Colectividades e Sociedades Recreativas e dos Centros Políticos Republicanos e Socialistas, não foi capaz de diminuir significativamente, nessa primeira década do século XX.
Situado na Outra Banda “O Barreiro beneficia da proximidade de Lisboa. As inovações, quer a nível tecnológico, quer a nível económico, cultural ou outro, surgidas na capital, quase em simultâneo, eram implementadas e desenvolvidas na vila, afora a criatividade dos próprios habitantes.” (O Barreiro na transição do século XIX para o século XX, Ana Reis Barata e Rosa Gautier, edição da Câmara Municipal do Barreiro, 2005).

Outra Banda: Tal é o nome genérico que se dá aos arredores de Lisboa na margem esquerda do Tejo, que compreendem os Concelhos de Almada, Seixal, Barreiro, Moita, Aldeia Galega e Alcochete – terrenos em geral de baixa altitude, alagados pelos esteiros do rio, cobertos de charnecas, alastrados de gândaras, alfombrados de manchas espessas de pinheiral e aqui e ali com nesgas abençoadas de terreno produtivo.
(…) ainda do lado sul, Barreiro, Coina e de aí em diante novos esteiros se insinuam pelas terras, depositando o nateiro que as fertiliza e fazendo resplender ao sol os cristais alvinitentes das marinhas: tais são os esteiros do Lavradio, Alhos Vedros e Moita.
(…) desde o Seixal a Alcochete, ao longo da margem do Tejo – escreve o agrónomo Filipe de Figueiredo – o solo é quase um jardim continuado pela abundância e variedade das produções. A vinha, a batata, o arroz, o repolho, o tomate têm larga e intensa cultura.
A Outra Banda, para o turista, se não lhe oferece monumentos nem curiosidades artísticas a admirar, proporciona-lhe em compensação uma série inolvidável de maravilhosos panoramas de Lisboa, que, no fundo dos esteiros, aparece esfumada pela distância, vaga, vaporosa, envolvida como que de um halo de sonho e de mistério. Esses panoramas admiráveis e o simples prazer da excursão, atravessando em toda a sua a largura o rio majestoso e calmo, em demanda dos pontos mais recuados da margem, recomendam por si sós uma ida a estas paragens edénicas, onde Lisboa, no afastamento e na miragem, se poetiza em sfumato e nimba de ternura.
(Guia de Portugal, Fundação Calouste Gulbenkian, 1ª edição publicada pela Biblioteca Nacional de Lisboa em 1924)


A rede de transportes era precária. Diligências que trabalhavam todos os dias de manhã e à tarde, (excepto aos domingos, em que operavam apenas de manhã), faziam o percurso de Barreiro a Azeitão pelas estradas 89C e 89 em cerca de duas horas e meia (!). Mais rápida, aproximadamente cinquenta minutos, era a deslocação a Lisboa (Terreiro do Paço) em vapores dos Caminhos-de-Ferro do Estado, num percurso deliciosamente descrito por Fialho de Almeida:

Enquanto o vapor não chega, detenho-me a abranger amorosamente, dos terraços da estação do Barreiro, a marinha flácida que a meus olhos se desenrola, um quase nada perdida nas muselinas ondeantes da manhã. (…)
Daquela altura da riba, a expansão que faz o Tejo dá-me uma sensação de taça cheia, tão fechado o circuito das suas margens. (…)
No primeiro plano, à direita, uma língua de areia contém moinhos e casarelhos brancos, muros de quinta, oliveiras e eucaliptos tristes que se curvam a saudar a lufada húmida da aurora, vinda da barra. Pela esquerda é uma barreira brusca de terra vermelha, alteada, chanfrada, comida dos assaltos das cheias, rachada da água, com cabelugens de mato e pinheiros anões dum verde bronze. As casas parecem sucessivamente mais humildes, à medida que se distanciam dos planos além da perspectiva – são quadradinhos de caliça, com pontos negros de portas e janelas, telhados negros, paliçadas de quintais e de arribanas.

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Portugal Republicano

A linguagem radical utilizada pelos republicanos atraíra com relativa facilidade “os desiludidos com uma Monarquia prisioneira do rotativismo político, repetidamente acusada de ser incapaz de advogar os interesses nacionais e de se manter no poder à custa da cedência aos agentes económicos que lhe servem de suporte. O discurso republicano apela ao nacionalismo, apregoa um regime defensor das classes operárias e denuncia a corrupção política e económica (Socialistas na oposição ao Estado Novo, Susana Martins, edição Casa das Letras, 2005).
Saído da Revolução de 5 de Outubro de 1910 “em menos de um ano, o Governo Provisório conseguiu cumprir alguns dos pontos principais do programa republicano, bem como consolidar o novo regime, assegurar a ordem pública interna e alcançar o reconhecimento por parte das potências estrangeiras” (Breve História de Portugal, Oliveira Marques, Editorial Presença, 1995).
Em Março de 1911 foram criadas as Universidades do Porto e de Lisboa e em Abril foi aprovada a Lei da Separação da Igreja e do Estado. A 11 de Abril o Diário de Notícias divulga, na primeira das suas 6 páginas, a abertura do processo eleitoral do Partido Republicano em Lisboa:

As eleições
Candidatos por Lisboa
Para dar cumprimento ao n.º 10 do art. 30.º da lei organica do partido republicano e á actual lei eleitoral, convido os membros em effectividade da commissão municipal de Lisboa para:
conjunctamente com os membros em effectividade das commissões parochiaes do circulo oriental (1.º e 2.º bairros) no dia 17 do corrente; e conjunctamente com os membros em effectividade das commissões parochiaes do circulo ocidental (3.º e 4.º bairros) no dia 21 do corrente, escolherem os candidatos ás constituintes pelos respectivos círculos.
Estas eleições começam ás 9 horas da noite e são feitas por escrutínio secreto, devendo os membros das commissões virem munidos dos seus cartões de identidade.
O presidente da commissão municipal. – Afonso de Lemos.


Os candidatos às eleições legislativas de Maio pertenciam na sua maioria ao Partido Republicano de Afonso Costa, António José de Almeida, Bernardino Machado, Brito Camacho e Teófilo Braga.
A Assembleia Nacional Constituinte saída dessas eleições aprovou a Constituição em Agosto e, pouco depois, Manuel de Arriaga venceu Bernardino Machado na eleição para Presidente da República.
Também no Barreiro a causa republicana encontrou simpatia e aceitação. O Século, na sua edição de 11 de Abril de 1911, divulgou mais uma actividade pública patrocinada pelo movimento republicano local: “O Centro Republicano Dr. Estêvão de Vasconcellos juntamente com a Sociedade Democrática União Barreirense, promove para o dia 1.º de Maio uma recita ao theatro Independente desta villa, que será desempenhada por uma das melhores companhias dos theatros de Lisboa”.
Mas, apesar das palavras optimistas e laudatórias do historiador – não comungadas por outros investigadores como José Hermano Saraiva (História Concisa de Portugal, Publicações Europa-América, 18ª edição, 1996) –, Portugal era um país dilacerado pela crise económica e atravessado por uma permanente e perigosa instabilidade política. Depois dos momentos iniciais de arrebatamento e euforia, a situação política e o entusiasmo inicial degradaram-se progressivamente, mergulhando Portugal na retórica e na demagogia:

A República parecia, de facto, perdida e à deriva. O poder autocrático e distante dos últimos tempos da Monarquia fora substituído por um poder dissoluto, deliquescente, que parecia sem rumo. A aristocracia caduca e inculta dera lugar a uma pequena-burguesia ávida de acreditação social e de importância pública. Aos marqueses de berço e aos condes de ocasião dos saldos finais da Monarquia, tinham-se sucedido os maçons, os comerciantes lisboetas, os banqueiros em ascensão, os funcionários da província, os jornalistas panfletários, os intelectuais auto-designados. (...)
Fora alguns restritos círculos político-intelectuais da capital ou do Porto, ignotas tertúlias de cidades do interior e alguma oficialidade dos destacamentos militares aí sediados, nenhuns outros portugueses seguiam com atenção ou sequer entendiam os floreados absurdos dos discursos dos deputados que supostamente os representavam no Parlamento de Lisboa ou a grandiosidade oca dos debates que aí ocorriam.
(Miguel Sousa Tavares, Rio das Flores, Oficina do Livro, 2007)
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[Excerto do Capítulo VI - Quase Centenário
Livro PROVA DeVIDA - Estórias e memórias do meu Barreirense]
(continua)

quinta-feira, janeiro 01, 2009