segunda-feira, janeiro 05, 2009

Coisas que eu li (II)


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“O concurso [os maiores russos da história] mostra que a Rússia continua dividida entre o desejo de uma “normalidade” europeia e o Império, a que nunca renunciará ou pode algum dia renunciar. Infelizmente, e apesar das fantasias de há 15 anos, não existe maneira de transformar uma potência asiática num país democrático e ordeiro do Ocidente.”
(VASCO PULIDO VALENTE. “A divisão da Rússia”. PÚBLICO, 2 de Janeiro de 2009)

“Não me interessa muito o chamado jogo político, mas interessa-me bastante a política. E houve poucas semanas com tanta política como esta em que acabou 2008 e começou 2009.”
(HENRIQUE MONTEIRO. “A política para lá do jogo político”. EXPRESSO, 3 de Janeiro de 2009)

“Não sei se um bom pai não deve começar a preparar os filhos para emigrarem, quando chegarem à idade de entrada no mercado de trabalho. Assim, quando vierem de visita à pátria, poderão usufruir dos aeroportos, TGV e auto-estradas, sem terem de se matar a trabalhar para as pagar.”
(MIGUEL SOUSA TAVARES. “2009: O ano de todos os perigos. EXPRESSO, 3 de Janeiro de 2009)

“A forma petulante como os partidos pisam princípios constitucionais básicos diz quase tudo sobre a vulgaridade das pessoas que habitam dentro das carapaças partidárias. E esta gente ainda tem a distinta lata de chamar ´rasca` à minha geração. Vós, ó petulantes senhores do regime, é que sois a verdadeira geração ´rasca`.”
(HENRIQUE RAPOSO. “A geração rasca”. EXPRESSO, 3 de Janeiro de 2009)

“(…) creio que chegou a hora de olhar para a disciplina partidária de forma dessacralizada: reservando-a para as promessas eleitorais, o Orçamento e as moções de censura e de confiança. A questão é que, pelas reacções, algumas direcções partidárias parecem não querer ceder poder algum.”
(ANDRÉ FREIRE. “As virtudes do voto preferencial”. PÚBLICO, 5 de Janeiro de 2009)
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Memória Barreirense (XXXVIII)


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Cinquenta pioneiros

No final do ano da fundação, os associados do FCB seriam cerca de cinquenta. Esse número veio naturalmente a engrossar ao longo das décadas, acompanhando o crescimento populacional do Concelho, a penetração que o clube foi alcançado no seu tecido social e o prestígio que foi adquirindo.
Em 1921 o FCB tinha 270 associados. E em 1931, nas comemorações do 20º aniversário, o número já ascendia a 1.100. Em 1946, coincidindo com a criação da “Grande Comissão Pró-Ginásio”, a massa associativa teve um novo impulso, cresceu progressivamente, quase quadruplicando à data da inauguração do Ginásio-Sede (Maio de 1956). O valor máximo de associados terá rondado os seis milhares.
Actualmente, o FCB tem 5.000 sócios, valor que considero aceitável, tendo em consideração as dificuldades do movimento associativo, a crise demográfica do Concelho iniciada na década de 80 e a descida do clube ao 4º escalão nacional de futebol. É ainda assim, um número insuficiente. Mas com potencial de crescimento.
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Longevidade


O FCB, distinguido pelo Governo como Pessoa Colectiva de Utilidade Pública e agraciado com a Medalha de Bons Serviços Desportivos (Presidência da República), Medalha de Mérito Desportivo (Ministério da Educação e Cultura) e Medalha de Ouro de Bons Serviços (Câmara Municipal do Barreiro), apresta-se para celebrar o seu centenário.
E assume-se como um dos clubes portugueses mais antigos. Dos dezasseis clubes participantes na última Liga Bwin, seis tiveram uma constituição claramente posterior ao FCB: Belenenses (1919), Sporting Clube de Braga (1921), Sport Clube Beira-Mar (1922), Clube Desportivo das Aves (1930), Clube de Futebol Estrela da Amadora (1932) e Futebol Clube Paços de Ferreira (1950). E três dos dez restantes foram fundados apenas alguns meses antes do FCB (Club Sport Marítimo, Clube Desportivo Nacional e Vitória Futebol Clube).
Reportando-me ainda à época de 2006/2007, dos clubes inscritos na Associação de Futebol de Setúbal e participantes nos Campeonatos Nacionais, o FCB apenas é ultrapassado em longevidade pelo Vitória Futebol Clube (1910), colocando-se bem à frente de Amora Futebol Clube (1921), Grupo Desportivo Alcochetense (1937), Clube Desportivo Cova da Piedade (1947), Clube Desportivo Pinhalnovense e Clube Desportivo do Montijo (1948).



Presidentes

De Francisco Augusto Nunes de Vasconcelos (11 de Abril a 31 de Dezembro de 1911 e de 27 de Julho de 1935 a 18 de Agosto de 1936) a Manuel Marques Lopes (em exercício desde Abril de 1996), foram cinquenta e uma as personalidades, aqui apresentadas por ordem alfabética, que até à actualidade presidiram à Direcção do FCB:

Abílio Rodrigues • Alberto Bravo • Albino Macedo • António Balseiro Fragata • António Balseiro Guerra • António Cabrita • António Ferro Gomes • António José Bravo • António Pacheco Nobre • António Manuel Ribeiro • António Parra Duarte • Armando da Silva Pais • Armando de Carvalho Miranda • Carlos Alberto Lourinho • Clarimundo Pereira • Ezequiel da Costa Cavaco • Ezequiel José Patrício • Fernando Cardoso • Fernando Vasconcelos • Francisco Nunes de Vasconcelos • Inácio Monteiro de Azevedo • Jacinto Nicola Covacich • João da Costa Figueira• Joaquim Grave dos Santos • Joaquim Quintela Paixão • José Alves Trindade • José Fernandes Júnior • José Francisco Ferreira • José Francisco dos Santos • José Luís Covacich Costa • José Maria Cardoso, • José Tiago Rodrigues • Júlio Caetano Veríssimo • Júlio de Almeida Júnior (Comissão Administrativa) • Júlio José de Macedo • Luís Correia Matias • Luís Filipe Costa Mano • Luís Raimundo dos Santos • Manuel António dos Santos • Manuel Bravo • Manuel Ferreira • Manuel Guerra Pimenta • Manuel Luís Ferreira • Manuel Marques Lopes • Manuel Monteiro Crespo • Manuel Preto Chagas • Manuel Torres Ferreira (Comissão Administrativa) • Mário Fernando Pereira (Comissão Administrativa) • Renato Matias Freire • Ulisses Ricardo da Silva • Vítor Manuel Duarte.

A tradição do FCB é, por conseguinte, a de cumprimento de mandatos de curta duração (um a dois anos), apenas episodicamente repetidos pela mesma personalidade, de forma contínua ou intermitente.
O Presidente com maior número de mandatos (11) foi Albino António da Silva Macedo, actual Presidente do Conselho Consultivo e Contas, apenas ultrapassado em longevidade presidencial por Manuel Lopes que ocupa a Presidência da Direcção há mais de 11 anos consecutivos.
Nove Comissões Administrativas – constituídas para resolver situações de impasse directivo, a primeira das quais em 1918 – não totalizaram mais de quarenta e cinco meses de gestão, exemplo de que ao longo da sua história o FCB foi, quase sempre, capaz de ser dirigido pela forma estatutária mais exemplar – a eleição de uma lista por sufrágio directo e universal.



Chutos e pontapés

Os primórdios do futebol português
Não há duas opiniões em contrário. O futebol que se joga e sempre se jogou em Portugal veio de Inglaterra, pela mão de alguns jovens lusitanos educados nos melhores colégios daquele país e, também, por cidadãos britânicos a trabalhar entre nós.
Há, porém, duas versões sobre a chegada da primeira bola a Portugal. Uma aponta para o Funchal e é atribuída a um inglês de nome Harry Hilton, que ali residia – facto assinalado, durante muitos anos, num pequeno muro do parque infantil do jardim da Camacha, inserindo, em letras metálicas, a legenda “Aqui se praticou futebol pela primeira vez em Portugal em 1875”. Outra diz terem sido os irmãos Eduardo e Frederico Pinto Basto, em 1886, os portadores de uma bola com o forte desejo de continuarem, na sua pátria, um desporto, o futebol, que muito os apaixonara.
A ideia foi acolhida com o maior interesse e entusiasmo pelo irmão maioritário dos jovens estudantes, Guilherme Pinto Basto, que, porém, não se limitou a afagar a bola, como um simples brinquedo para se divertir e pontapear num jogo. Não. Foi bem mais longe. Reuniu amigos, alguns deles ingleses, levou-os até Cascais e, nos terrenos da Parada, um pouco adiante da cidadela, onde hoje existe um jardim público, ali promoveu, numa tarde domingueira de Outubro de 1888, a primeira exibição de futebol em Portugal. Não um jogo, apenas um ensaio, como ele próprio o rotulou, para mostrar aos companheiros e ao público, que prontamente ali acorreu, como se jogava futebol.
Nesse ensaio que hoje podemos entender como exibição ou treino, intervieram, para além de quatro Pinto Basto, outros jogadores que ficaram para a história como os primeiros futebolistas portugueses… [juntamente com outros jogadores] … que, três meses depois, nos terrenos do Campo Pequeno, precisamente no sítio onde hoje se encontra a Praça de Touros, em frente ao Palácio de Galveias, participaram no primeiro jogo de futebol, já com as regras, então adoptadas, em Inglaterra.
Estes actos, em si, e outras iniciativas de Guilherme Pinto Basto, na propaganda e expansão do futebol, levaram ao justo e unânime reconhecimento do seu nome como o do verdadeiro introdutor do mais popular desporto em Portugal. E, implicitamente, o ano de 1888 ficou, assim, praticamente oficializado, como o do nascimento do futebol no nosso país.
(Henrique Parreirão, 1914 – Os anos de diamante – 1989 / No primeiro Centenário do Futebol Português, edição da Federação Portuguesa de Futebol)


Com a criação do Clube Internacional de Futebol (CIF) cresceu a prática de jogos de futebol com atletas portugueses. A zona ocidental de Lisboa foi mais permeável à novidade e os jovens casapianos facilmente contagiados.
Terá sido António Maria de Oliveira, ex-aluno da Casa Pia de Lisboa, o introdutor, em 1901, do futebol no Barreiro. E que, com a colaboração de Joaquim Rosário Costa e José de Araújo, fundou o Sport Clube Barreirense. Poucos anos depois, um grupo de aprendizes das oficinas dos Caminhos-de-Ferro do Sul e Sueste fundaram uma agremiação a que deram o nome de Sport Recreativo Operário Barreirense, que veio a ser a precursora do FCB.
O primeiro jogo de maior cartel disputado no Campo do Rossio, disputou-se em 23 de Julho de 1916, quando o segundo team do Sport Lisboa e Benfica se deslocou à Vila do Barreiro para um “sensacional desafio” com a primeira equipa do FCB. “O Povo Barreirense ficará electrisado ante a demonstração soberba do futebol que os players do glorioso Sport Lisboa e Benfica farão n´este desafio” – assim anunciava um cartaz, densamente impresso, de promoção do desafio.
Em 1 de Dezembro de 1923 o Campo do Rossio, entretanto alvo de melhoramentos, foi palco do primeiro jogo internacional, com vitória ‘alvi-rubra’ por 2-0 sobre o Real Union de Huelva.
O FCB iniciou a sua participação no Campeonato de Portugal em 1927, com uma vitória retumbante sobre o Olhanense (9-4), tendo perdido com o Vitória de Setúbal (1-0) nos quartos-de-final. Na época de 1929/1930 perdeu a final com o Benfica (3-1, com 1-1 no tempo regulamentar). Em 1931/1932 foi semi-finalista derrotado pelo Belenenses. E na época de 1933/1934 voltou a ser finalista do Campeonato de Portugal (derrotado pelo Sporting 4-3, após prolongamento).
Mas, como já foi antes referido, a década de 50 foi a mais consistente, com oito participações consecutivas na I Divisão e três presenças nas meias-finais da Taça de Portugal. A época de 1978/1979, última presença na I Divisão, marcou o início de um declínio persistente e demasiado duradouro.


[Excerto do Capítulo VI - Quase Centenário
Livro PROVA DeVIDA - Estórias e memórias do meu Barreirense]
(continua)a

domingo, janeiro 04, 2009

No ano da Apollo 11



David Bowie. Space Oddity (1969)

Os vinte mais de 2008

Discos Voadores

Nuno Galopim

Sábados 18.00 - 20.00
Repete Domingos 22.00

RADAR (FM 97.8)

20 - THE LAST SHADOW PUPPETS - The Age Of Understatement
19 - RUI REININHO - Companhia Das Índias
18 - DEERHUNTER - Microcastle
17 - CALEXICO - Carried To Dust
16 - FLEET FOXES - Fleet Foxes
15 - ANTÓNIO PINHO VARGAS - Solo
14 - BOMB THE BASS - Future Chaos
13 - ATLAS SOUND - Let The Blind Lead ...
12 - MGMT - Oracular Spectacular
11 - LATE OF THE PIER - Fantasy Black Channel
10 - SPIRITUALIZED - Songs In A & E
9 - DAVID BYRNE + BRIAN ENO - Everything That Happens Will Happen Today
8 - DEPARTMENT OF EAGLES - In Ear Park
7 - THE RUBY SUNS - Sea Lion
6 - KELLEY POLAR - I Need You To Hold On While The Sky Is Falling
5 - SIMON BOOKISH - Everything/Everything
4 - THE NOTWIST - The Devil, You + Me
3 - SHEARWATER - Rook
2 - VAMPIRE WEEKEND - Vampire Weekend
1 - PORTISHEAD - Third

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sábado, janeiro 03, 2009

Good bye, forever



"East Germany, the year 1989: A young man protests against the regime. His mother watches the police arresting him and suffers a heart attack and falls into a coma. Some months later, the GDR does not exist anymore and the mother awakes. Since she has to avoid every excitement, the son tries to set up the GDR again for her in their flat. But the world has changed a lot... "
(sinopse de Good Bye Lenin).

Devem ter passado uns cinco anos desde que vi o excelente filme de Wolfgang Becker.
Voltei a lembrar-me dele esta semana, ao ver - pela terceira vez - A Insustentável Leveza do Ser, de Philip Kaufman, baseado na obra homónima de Milan Kundera.

Curiosamente, na semana que agora finda, tive mais dois "contactos de primeiro grau" - esclarecedores e aterradores, com quase sempre acontece - com o universo comunista.
Aconteceu com a leitura de Caminhos da Revolução - excelente reportagem de Cristina Margato (texto) e João Pina (fotografia) no Expresso de 27 de Dezembro.
E foi a leitura de Trotskismos - de Daniel Bensaid, professor de filosofia na Universidade de Paris VIII Saint-Denis e membro da direcção da LCR, velha organização trotskista francesa.

No primeiro de Janeiro deste novo ano, no discurso comemorativo do cinquentenário da Revolução Cubana, Raul Castro garantiu que o regime socialista não foi um fracasso.
Faz lembrar aqueles treinadores de futebol na corda-bamba, a quem os presidentes vêem dar um "voto de confiança", premonitório da (quase sempre) inevitável "chicotada".
Com uma pequena-grande diferença...
É que no caso de Cuba (e das remanescentes ditaduras comunistas) será o Povo a libertar-se das amarras dos velhos totalitarismos, que a História condenou e continuará a condenar. Mesmo apesar do esforço, da ilusão e do embuste dos seus devotados herdeiros.
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Da Austrália a Tóquio



Um magnífico filme - Australia - lembrou-me Judy Garland e “Somewhere over the rainbow” aqui excelentemente reinventado por Keith Jarrett (Tokyo 84)

sexta-feira, janeiro 02, 2009

Memória Barreirense (XXXVII)


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Não apaguem a memória
Fernando Dacosta

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11 de Abril de 1911

Estudante liceal, Francisco Augusto Nunes de Vasconcelos foi um dos fundadores do FCB e, com apenas 15 anos (!), o seu primeiro Presidente, integrando uma Direcção constituída ainda por José Joaquim Lopes (1º Secretário), José Fernandes Júnior (2º Secretário), António de Oliveira (Tesoureiro), António Lopes Quintino e José Duarte Silveira (Vogais).
Foi a 11 de Abril de 1911 que nasceu o Foot-Ball Club Barreirense. Num dia muito chuvoso, como destacou O Século, na edição do dia seguinte:

O Tejo, engrossado também com as chuvas que teem caído nas terras ribeirinhas, esteve egualmente muito carrancudo, levando uma grande corrente e pondo em risco as embarcações, cujos arraes, menos previdentes, as não puzeram em logar seguro, fazendo, como tantos outros, que, ou reforçaram as amarras, ou as metteram nas docas do abrigo.

O Concelho do Barreiro tinha nesse ano uma população de 12.203 habitantes, dos quais 8.355 residentes na Vila do Barreiro (Fonte: 5º Recenseamento da População de Portugal).
Algumas actividades económicas, como a piscatória e a agrária, entravam em decadência, por efeito do desenvolvimento de dois sectores catalisadores do Barreiro Moderno – o Barreiro Industrial. Refiro-me aos Caminhos-de-Ferro de Sul e Sueste, criados por Carta de Lei de 26 de Agosto de 1854, da responsabilidade do Conselheiro Joaquim António de Aguiar e, sobretudo, à expansão da CUF, dirigida desde
1898 por Alfredo da Silva, empresário dinâmico e visionário. A indústria corticeira, em que os principais empresários eram estrangeiros (Braancamp e Herold) continuava a ser um importante factor de desenvolvimento local.
O Barreiro não tinha qualquer sistema de saneamento básico. Havia iluminação pública a petróleo e poços de água, destacando-se pela quantidade e qualidade o “Poço dos Dezasseis”, cuja denominação decorreu da quantia de dezasseis vinténs com que a população contribuiu para a sua construção. As doenças infecciosas, com destaque para a tuberculose, dizimavam a população. A mortalidade infantil era implacável, com 17 óbitos no primeiro ano de vida ao longo de 1910, ainda assim bem menos que as 41 mortes registadas dez anos antes. Existia uma cabine pública de telefone, posto de venda de gás na Rua Aguiar (família Costa Mano) e aluguer de motocicletas a cargo de Albino José de Macedo. E, no centro da vila, emergia a Igreja de Santa Cruz (século XIX) e a Igreja da Misericórdia (último quartel do século XV), com pórtico do século XVII, púlpito de mármore da Arrábida e silha de azulejos.
O ensino particular existia no Barreiro desde 1855 (Asilo D. Pedro V) e o oficial desde 1870, por acção de Joaquim Ferreira dos Santos, o Conde de Ferreira. Mas o seu crescimento, lento e quase restrito ao sexo masculino, não impediu uma elevadíssima taxa de analfabetismo. Que a acção das Colectividades e Sociedades Recreativas e dos Centros Políticos Republicanos e Socialistas, não foi capaz de diminuir significativamente, nessa primeira década do século XX.
Situado na Outra Banda “O Barreiro beneficia da proximidade de Lisboa. As inovações, quer a nível tecnológico, quer a nível económico, cultural ou outro, surgidas na capital, quase em simultâneo, eram implementadas e desenvolvidas na vila, afora a criatividade dos próprios habitantes.” (O Barreiro na transição do século XIX para o século XX, Ana Reis Barata e Rosa Gautier, edição da Câmara Municipal do Barreiro, 2005).

Outra Banda: Tal é o nome genérico que se dá aos arredores de Lisboa na margem esquerda do Tejo, que compreendem os Concelhos de Almada, Seixal, Barreiro, Moita, Aldeia Galega e Alcochete – terrenos em geral de baixa altitude, alagados pelos esteiros do rio, cobertos de charnecas, alastrados de gândaras, alfombrados de manchas espessas de pinheiral e aqui e ali com nesgas abençoadas de terreno produtivo.
(…) ainda do lado sul, Barreiro, Coina e de aí em diante novos esteiros se insinuam pelas terras, depositando o nateiro que as fertiliza e fazendo resplender ao sol os cristais alvinitentes das marinhas: tais são os esteiros do Lavradio, Alhos Vedros e Moita.
(…) desde o Seixal a Alcochete, ao longo da margem do Tejo – escreve o agrónomo Filipe de Figueiredo – o solo é quase um jardim continuado pela abundância e variedade das produções. A vinha, a batata, o arroz, o repolho, o tomate têm larga e intensa cultura.
A Outra Banda, para o turista, se não lhe oferece monumentos nem curiosidades artísticas a admirar, proporciona-lhe em compensação uma série inolvidável de maravilhosos panoramas de Lisboa, que, no fundo dos esteiros, aparece esfumada pela distância, vaga, vaporosa, envolvida como que de um halo de sonho e de mistério. Esses panoramas admiráveis e o simples prazer da excursão, atravessando em toda a sua a largura o rio majestoso e calmo, em demanda dos pontos mais recuados da margem, recomendam por si sós uma ida a estas paragens edénicas, onde Lisboa, no afastamento e na miragem, se poetiza em sfumato e nimba de ternura.
(Guia de Portugal, Fundação Calouste Gulbenkian, 1ª edição publicada pela Biblioteca Nacional de Lisboa em 1924)


A rede de transportes era precária. Diligências que trabalhavam todos os dias de manhã e à tarde, (excepto aos domingos, em que operavam apenas de manhã), faziam o percurso de Barreiro a Azeitão pelas estradas 89C e 89 em cerca de duas horas e meia (!). Mais rápida, aproximadamente cinquenta minutos, era a deslocação a Lisboa (Terreiro do Paço) em vapores dos Caminhos-de-Ferro do Estado, num percurso deliciosamente descrito por Fialho de Almeida:

Enquanto o vapor não chega, detenho-me a abranger amorosamente, dos terraços da estação do Barreiro, a marinha flácida que a meus olhos se desenrola, um quase nada perdida nas muselinas ondeantes da manhã. (…)
Daquela altura da riba, a expansão que faz o Tejo dá-me uma sensação de taça cheia, tão fechado o circuito das suas margens. (…)
No primeiro plano, à direita, uma língua de areia contém moinhos e casarelhos brancos, muros de quinta, oliveiras e eucaliptos tristes que se curvam a saudar a lufada húmida da aurora, vinda da barra. Pela esquerda é uma barreira brusca de terra vermelha, alteada, chanfrada, comida dos assaltos das cheias, rachada da água, com cabelugens de mato e pinheiros anões dum verde bronze. As casas parecem sucessivamente mais humildes, à medida que se distanciam dos planos além da perspectiva – são quadradinhos de caliça, com pontos negros de portas e janelas, telhados negros, paliçadas de quintais e de arribanas.

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Portugal Republicano

A linguagem radical utilizada pelos republicanos atraíra com relativa facilidade “os desiludidos com uma Monarquia prisioneira do rotativismo político, repetidamente acusada de ser incapaz de advogar os interesses nacionais e de se manter no poder à custa da cedência aos agentes económicos que lhe servem de suporte. O discurso republicano apela ao nacionalismo, apregoa um regime defensor das classes operárias e denuncia a corrupção política e económica (Socialistas na oposição ao Estado Novo, Susana Martins, edição Casa das Letras, 2005).
Saído da Revolução de 5 de Outubro de 1910 “em menos de um ano, o Governo Provisório conseguiu cumprir alguns dos pontos principais do programa republicano, bem como consolidar o novo regime, assegurar a ordem pública interna e alcançar o reconhecimento por parte das potências estrangeiras” (Breve História de Portugal, Oliveira Marques, Editorial Presença, 1995).
Em Março de 1911 foram criadas as Universidades do Porto e de Lisboa e em Abril foi aprovada a Lei da Separação da Igreja e do Estado. A 11 de Abril o Diário de Notícias divulga, na primeira das suas 6 páginas, a abertura do processo eleitoral do Partido Republicano em Lisboa:

As eleições
Candidatos por Lisboa
Para dar cumprimento ao n.º 10 do art. 30.º da lei organica do partido republicano e á actual lei eleitoral, convido os membros em effectividade da commissão municipal de Lisboa para:
conjunctamente com os membros em effectividade das commissões parochiaes do circulo oriental (1.º e 2.º bairros) no dia 17 do corrente; e conjunctamente com os membros em effectividade das commissões parochiaes do circulo ocidental (3.º e 4.º bairros) no dia 21 do corrente, escolherem os candidatos ás constituintes pelos respectivos círculos.
Estas eleições começam ás 9 horas da noite e são feitas por escrutínio secreto, devendo os membros das commissões virem munidos dos seus cartões de identidade.
O presidente da commissão municipal. – Afonso de Lemos.


Os candidatos às eleições legislativas de Maio pertenciam na sua maioria ao Partido Republicano de Afonso Costa, António José de Almeida, Bernardino Machado, Brito Camacho e Teófilo Braga.
A Assembleia Nacional Constituinte saída dessas eleições aprovou a Constituição em Agosto e, pouco depois, Manuel de Arriaga venceu Bernardino Machado na eleição para Presidente da República.
Também no Barreiro a causa republicana encontrou simpatia e aceitação. O Século, na sua edição de 11 de Abril de 1911, divulgou mais uma actividade pública patrocinada pelo movimento republicano local: “O Centro Republicano Dr. Estêvão de Vasconcellos juntamente com a Sociedade Democrática União Barreirense, promove para o dia 1.º de Maio uma recita ao theatro Independente desta villa, que será desempenhada por uma das melhores companhias dos theatros de Lisboa”.
Mas, apesar das palavras optimistas e laudatórias do historiador – não comungadas por outros investigadores como José Hermano Saraiva (História Concisa de Portugal, Publicações Europa-América, 18ª edição, 1996) –, Portugal era um país dilacerado pela crise económica e atravessado por uma permanente e perigosa instabilidade política. Depois dos momentos iniciais de arrebatamento e euforia, a situação política e o entusiasmo inicial degradaram-se progressivamente, mergulhando Portugal na retórica e na demagogia:

A República parecia, de facto, perdida e à deriva. O poder autocrático e distante dos últimos tempos da Monarquia fora substituído por um poder dissoluto, deliquescente, que parecia sem rumo. A aristocracia caduca e inculta dera lugar a uma pequena-burguesia ávida de acreditação social e de importância pública. Aos marqueses de berço e aos condes de ocasião dos saldos finais da Monarquia, tinham-se sucedido os maçons, os comerciantes lisboetas, os banqueiros em ascensão, os funcionários da província, os jornalistas panfletários, os intelectuais auto-designados. (...)
Fora alguns restritos círculos político-intelectuais da capital ou do Porto, ignotas tertúlias de cidades do interior e alguma oficialidade dos destacamentos militares aí sediados, nenhuns outros portugueses seguiam com atenção ou sequer entendiam os floreados absurdos dos discursos dos deputados que supostamente os representavam no Parlamento de Lisboa ou a grandiosidade oca dos debates que aí ocorriam.
(Miguel Sousa Tavares, Rio das Flores, Oficina do Livro, 2007)
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[Excerto do Capítulo VI - Quase Centenário
Livro PROVA DeVIDA - Estórias e memórias do meu Barreirense]
(continua)

quinta-feira, janeiro 01, 2009

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Maravilhoso


Eric Clapton. Wonderful tonight

Memória Barreirense (XXXVI)


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General sem tropas

A Assembleia-Geral de 4 de Abril de 2005 deu início à discussão da “viabilidade de construção para o campo de jogos D. Manuel de Mello e do anteprojecto para as infra-estruturas desportivas a construir no terreno da Verderena” (ponto 2 da Ordem de Trabalhos). Assunto que teve continuidade nas Assembleias de 26 de Abril, 3 e 25 de Maio. Nesta última data, a Ordem de Trabalhos foi a seguinte: “Apreciação de eventuais propostas de compra e autorização para a Direcção efectuar a venda das parcelas de terreno onde está implantado o Campo D. Manuel de Mello; autorização para a Direcção efectuar a compra de um parcela de terreno sita em Palhais para a construção de infra-estruturas desportivas; autorização para celebração de contrato de urbanização com a empresa Teodoro Rúbio e Filho Lda., relativamente aos terrenos da Verderena”.
A sessão não começou bem para Manuel Lopes. A sua proposta de alienação patrimonial encontrou desconfiança entre vários associados que manifestaram as suas críticas e reservas. Foram as intervenções de Carlos Pires, de Manuel Fernandes e de mim próprio que, com argumentos consolidados e de forma serena e tranquila, inverteram o curso dos acontecimentos. E a proposta de Manuel Lopes foi aceite por larga maioria. De forma peculiar, tinham sido três personalidades conotadas com o Basquetebol, sobretudo as duas últimas, a ‘dar a cara’ por Manuel Lopes, que apenas um ano antes ameaçara ferir de morte o basquetebol de alta competição no FCB. Curioso…
Uma equipa de acompanhamento constituída inicialmente por Carlos Pires, José Almeida Fernandes e Mário Pereira, veio a incluir mais tarde João Paulo Prates e João Pimentel. Dificuldades e obstáculos de índole diversa condicionaram o seu papel fiscalizador. Mas, em minha opinião, podia e deveria ter-se feito mais e melhor…
Lamentavelmente, a minha intervenção nessa Assembleia-Geral não ficou registada na respectiva acta. Também a minha abstenção, com dois outros consócios, na votação do relatório e contas de 2002 (Assembleia-Geral de 26 de Maio de 2003), não foi contemplada na acta da reunião. E a minha intervenção em defesa do basquetebol sénior na Assembleia-Geral de 17 de Maio de 2004, que ainda hoje considero ter sido determinante para o processo de reorganização do basquetebol Barreirense, foi omitida.
Na reunião de associados, realizada na noite de 13 de Junho de 2007, preparatória da Assembleia-Geral de 18 desse mês, chamei a atenção dos membros dos Órgãos Sociais presentes para a gravidade e a importância desses lapsos e daquelas omissões. A minha interpelação teve uma resposta imediata e consequente do Presidente da Assembleia-Geral do FCB, António Sardinha. Com efeito, cinco dias depois, todas as intervenções efectuadas foram gravadas para posterior utilização na redacção da respectiva acta.
A leitura de muitas das actas das Reuniões de Direcção e das actas das Assembleias-Gerais, disponíveis em arquivo na sede do FCB, e que contribuíram para a realização deste livro, permitiu-me concluir que, nos últimos anos, a qualidade da redacção, o rigor da execução, a quantidade de informação disponível, têm vindo a baixar de forma assinalável e, em minha opinião, perigosa. Perdeu-se alguma exigência formal, desvalorizou-se a importância dos conteúdos. De que vêm resultando imprecisões desnecessárias e injustas omissões. Este é um aspecto que aqui realço por estar convicto da sua importância para uma instituição respeitada e respeitável, em que a História quase centenária deve ser feita a partir do relato sério e verdadeiro e da interpretação fidedigna e rigorosa dos factos que a fermentam, aprofundam e enriquecem.
Participar
A presença de associados nas Assembleias-Gerais dos clubes é habitualmente diminuta. Excepto em momentos mais problemáticos de crise, de propostas fracturantes, etc.
No FCB, como na generalidade dos outros clubes. É esta a tradição em Portugal. Os portugueses não têm uma cultura de participação cívica muito arreigada. São pouco intervenientes. E pouco exigentes, consigo próprios, sobretudo. Depositam docilmente, com demasiada frequência, nas mãos de salvadores, profetas e mecenas, a solução dos problemas.
Como já deixei subentendido, tenho estado presente desde os 18 anos, na generalidade das Assembleias-Gerais do FCB. E, mais recentemente, tenho apelado de forma pública à participação dos meus consócios, como aconteceu em 7 de Maio de 2006 em Rostos:

O direito e o dever de participar
Realiza-se hoje, pelas 21 horas, uma importante Assembleia-Geral Ordinária do Futebol Clube Barreirense, com a seguinte ordem de trabalhos:
1. Apreciação, discussão e votação do relatório e contas de 2005
2. Eleição de corpos gerentes para o biénio 2006-2008.
O panorama presente do Associativismo, e em particular do Associativismo Desportivo, atravessa momentos de crise, cujas diversas causas não cabem no espaço e objectivo deste texto, mas que configuram e traduzem as profundas alterações económicas, sociais e culturais ocorridas no nosso país nas últimas décadas.
Um número significativo e crescente de famílias portuguesas está progressivamente afectado por um perigoso e insustentável endividamento, a situação económico-financeira do pequeno e médio empresariado comercial e industrial está altamente fragilizada, a capacidade de endividamento ultrapassada em muitos municípios e praticamente esgotada nos restantes. Consequentemente, o apoio e o investimento, individual e colectivo, dos associados, das empresas e dos executivos autárquicos, têm vindo paulatinamente a decrescer, limitando e pondo em causa a capacidade de afirmação e mesmo de sobrevivência, de um número importante das agremiações desportivas portuguesas.
O Futebol Clube Barreirense, ao contrário de outros prestigiados, históricos e respeitados clubes, tem conseguido ao longo dos últimos anos responder, ainda que com extrema dificuldade, a crescentes dificuldades e estrangulamentos financeiros, decorrentes de uma preocupante e duradoira conjuntura económica do país. Há cerca de um ano, a venda de património (Campo D. Manuel de Mello e parcela de terreno do futuro Complexo Desportivo da Verderena) correspondeu, como foi inequivocamente demonstrado em Assembleia-Geral, e aí maioritariamente sufragado pelos nossos consócios, a uma decisão indispensável à sobrevivência do Futebol Clube Barreirense.
Assegurada a sua viabilidade de curto prazo, importa agora que os Barreirenses, todos os Barreirenses, tenham consciência do momento decisivo que o seu Clube atravessa, em que a legítima ambição de um sério e moderno projecto desportivo deve obrigatória e necessariamente adequar-se às exigências e rigores orçamentais, garante da sua sustentabilidade e perenidade. Uma parte significativa da receita decorrente da alienação patrimonial, deverá ser orientada para o desenvolvimento das débeis e obsoletas infra-estruturas desportivas do Futebol Clube Barreirense, condição indispensável para a disponibilização da prática desportiva a um número crescente de cidadãos, a sedução da nossa juventude, o fomento de talentos que possam ser uma base essencial e maioritária na constituição das nossas equipas de alta competição.
No entretanto, e enquanto não se concretizarem os projectos imobiliários que permitam a obtenção, dentro de 4-5 anos, de um suporte financeiro mensal indispensável à cobertura parcial das suas despesas, o nosso Clube permanecerá controladamente deficitário, factor imprescindível para a manutenção das suas modalidades mais representativas, o futebol e o basquetebol, em patamares competitivos dignos e suficientemente atractivos para os nossos adeptos.
A informação, o esclarecimento e a participação dos associados é fundamental neste importante momento de viragem, pelo que a sua presença na Assembleia Eleitoral de hoje assume, mais uma vez, enorme relevância e pertinência. A presença, activa e empenhada, dos meus consócios esta noite, no mítico Ginásio-Sede, que completará 50 gloriosos anos de vida em 20 de Maio próximo, será a demonstração da sua inabalável vontade de construir um Barreirense novo, um Barreirense com futuro, um Barreirense de sucesso.
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Finalmente

Em 11 de Abril de 2007, na cerimónia solene comemorativa do 96º aniversário, António Sardinha, Presidente da Assembleia-Geral, pronunciou um discurso muito importante, em que alertou os presentes para a necessidade de o FCB conter a sua despesa corrente e, saldadas dívidas inadiáveis com parte da verba resultante da venda de património, partir para a construção de infra-estruturas desportivas fundamentais para a sua sustentabilidade desportiva e financeira. Foi uma intervenção notável num tipo de sessões em que, como alertei em texto publicado dias antes em Rostos, o politicamente correcto é a prática dominante. Estava dado o mote, para uma actuação mais empenhada, atenta e exigente do Presidente da Assembleia-Geral. Creio que a Direcção do FCB, ou pelos menos o seu Presidente e Vice-Presidente, se sentiu acossada, controlada, como não experimentara antes.
A Assembleia-Geral Ordinária, tardiamente marcada para 18 de Junho de 2007, reforçou a minha intuição. Aprovado o Relatório e Contas de 2006 e ratificado o mandato do Órgãos Sociais em exercício por mais um ano, António Sardinha tomou a palavra para transmitir aos associados a sua vontade de pedir a demissão da Presidência da Assembleia-Geral. E reafirmou a sua grande preocupação pelo presumível destino das verbas decorrentes da venda do Campo D. Manuel de Mello e de uma fracção de terreno sita na Verderena. A votação ocorrida minutos antes, para ratificação dos Órgãos Sociais, apresentara resultados inesperados para a Direcção reeleita, com uma vantagem de apenas 9 votos (42-33). E Paulo Pardana, Vice-Presidente da Direcção, não se conteve e, de um só fôlego, disparou contra a ‘Assembleia’ – que não expressara o apoio por si esperado – e contra o Presidente da Assembleia-Geral – por suposta quebra de solidariedade institucional. A posição de António Sardinha teve, entre outros, o mérito e o condão de agitar algumas águas, excessiva e artificialmente calmas.
A 19 de Julho decorreu uma Assembleia-Geral Extraordinária convocada para “Apresentação, discussão e votação do Plano de Actividades e Orçamento, época 2007/2008”. Foi apresentado e divulgado um trabalho que reputo de importante, contemplando a previsão de um défice de menor dimensão que o previsto anteriormente mas, ainda assim, distante do desejo de défice zero, exigido na reunião magna anterior por António Sardinha. Efectuei uma intervenção, onde tentei ser conciliador, destacando a redução da dimensão do défice prevista para a temporada 2007/2008 e a transparência e rigor que me pareciam caracterizar o referido documento. Mas na impossibilidade de o ter feito no final da Assembleia-Geral de 18 de Junho, não deixei passar e oportunidade para me solidarizar com a posição então assumida por António Sardinha, que motivara uma reacção a quente mas destemperada e pouco simpática de Paulo Pardana. E salientei a independência, competências e especificidade de funções que devem caracterizar os Órgãos Sociais do FCB. Mantendo algumas reservas, legítimas e partilhadas por muitos outros associados, a propósito das opções de funcionamento do clube, e que expressou com toda a clareza e frontalidade, António Sardinha disponibilizou-se para, sob certas condições, prosseguir como Presidente da Assembleia-Geral. No final da sessão senti-me feliz mas perplexo. Feliz pelo facto de, em finais de Julho, com uma nova época desportiva à porta, a estabilidade directiva do FCB ter sido preservada. Perplexo porque não vi da parte de Manuel Lopes uma abertura claramente assumida para a resolução, de questões aparentemente tão simples como a alteração do modelo de exploração do Café do Ginásio-Sede, quanto mais para o debate e a assumpção de propostas mais profundas da gestão do clube, que considero urgentes e potencialmente conflituais. Transmitindo alguma satisfação, ainda assim contida, pelo desenrolar da Assembleia-Geral, António Sardinha admitiu estarmos a assistir a um momento de transição na vida do FCB. No final, ao descer a escadaria do Ginásio-Sede, interroguei-me:
- Transição para quê?
- Transição para onde?

[Conclusão do Capítulo V - Reuniões Magnas
Livro PROVA DeVIDA - Estórias e memórias do meu Barreirense]
(continua)

segunda-feira, dezembro 29, 2008

Coisas que eu li


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“O reduzido público leitor português (…) não perde pitada dos livros que lhe expliquem brevemente o que é isto, porque é que é isto, e como vai ser isto. Em todo o caso, isto. E se juntar à informação que pretende o quanto-baste de escândalo ou de humor, melhor. Às vezes, o riso, mesmo entre as quatro paredes do quarto em que se lê, é tragicamente a única possível forma de defesa. Ou de tendencial ataque.”
(excerto de texto de PEDRO TAMEN enviado para publicação no EXPRESSO de 29 de Dezembro de 1973, mas que o risco azul censório de um abjecto “exame prévio” censurou, sem dó nem piedade. Rubrica “O que a censura cortou”.
EXPRESSO, 27 de Dezembro de 2008)
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“O olhar sábio e penetrante do falecido escritor Manuel Vásquez Montalbán ajudou a dar peso intelectual ao discurso e uma qualidade mitológica ao Barcelona, definindo-o como «exército desarmado da Catalunha». Cada artigo seu agigantava o poder simbólico do clube.”
(JORGE VALDANO. Crónica “No princípio era a bola”.
A BOLA, 27 de Dezembro de 2008)

“Já não se trata de discutir se a RTP, canal "generalista" idêntico aos piores, presta o célebre "serviço público": trata-se de perceber em que medida prejudica a saúde pública. (...) A RTP é uma fonte deliberada e contínua de tortura mental, ainda por cima cruelmente financiada por muitos dos que a sofrem. O facto de semelhante suplício se processar ao abrigo da lei não atenua, antes reforça a crueldade.”
(ALBERTO GONÇALVES. Crónica “Dias contados”.
DIÁRIO DE NOTÍCIAS, 28 de Dezembro de 2008)

“O que se sabe é que Portugal poderá tirar bom proveito do facto de ter construído estádios novos para o Europeu (…) Não haveria outra maneira, outro investimento e outro sector para colocar Portugal no mapa? A resposta histórica é: não. E, como se sabe, apesar dos lobbies de uma cultura de elites pindéricas, a culpa não é, de todo, do futebol.”
(VÍTOR SERPA. Editorial “A questão do Mundial Ibérico”.
A BOLA, 28 de Dezembro de 2008)

“Gostaria que alguém explicasse ao primeiro-ministro, ou que ele percebesse por si mesmo, que o excesso de propaganda, de demagogia e de publicidade enganosa pode ter efeitos contraproducentes, parecidos com os verificados durante a revolução de 1975, que se traduzem no facto de os governantes acreditarem no que eles próprios mandam dizer. De caminho, poderia também compreender que a crispação autoritária não se pode confundir com determinação. Mudasse ele esses atributos, trouxesse ele à vida pública um novo estilo, mais adequado às dificuldades dos tempos, e até talvez voltasse a ganhar as eleições.”
(ANTÓNIO BARRETO. Crónica “Retrato da semana”.
PÚBLICO, 28 de Dezembro de 2008)
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domingo, dezembro 28, 2008

Quase famosos no RCP


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Redescoberta - ao início desta tarde - de um magnífico programa de Pedro Adão e Silva e Nuno Costa Santos.
Pássa no Rádio Clube Português (104.3 FM).
Aos domingos, entre as 13 e as 15 horas.
É o QUASE FAMOSOS.
São "as músicas que marcam as nossas vidas", como se lê no blogue que editam em
Aí podemos aceder ao alinhamento dos programas.
Uma ajuda preciosa na identificação das nossas referências e em futuras aquisições discográficas.
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Para que conste, a sua lista dos melhores de 2008:
Fleet Foxes - White winter hymnal
Vampire Weekend - M79
Robert Foster - Demon days
Hercules and Love Affair - Blind
Silver Jews - Candy jail
Pete Molinari - Sweet Louise
American Music Club - The dance
Spiritualized - Soul on fire
Okkervil River - Lost costlines
The Mountain Goats - San Bernardino
Bon Iver - For Emma, forever ago
Walkmen - Red moon
The Last Shadow Puppets - My mistakes were made for you
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Sonho renascido


Pat Metheny Group
(Álbum Letter from home. 1989)
Dream of the return
(Texto: Pedro Aznar. Música: Pat Metheny)

E nós, Barreirenses?


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Aprovado o Plano de Pormenor da Cidade Desportiva.
Local: Sines.
Área: 20 hectares.
Orçamento: 18.8 milhões de euros.
Barreiro Cidade Desportiva?
Uma treta!
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sábado, dezembro 27, 2008

Luís Freitas Lobo

Escreve n´A Bola e no Expresso. Comenta na RTP.
É culto.

E inteligente.
É exímio na palavra.

E sucinto na frase.
Adivinham a sua cor clubista?

Eu não.
Pois é…
O meu jornalista de 2008.

Também acho!

"Um partido pode (e deve) ter uma maioria parlamentar. Isso não é uma ameaça à liberdade. É uma necessidade governativa.
A verdadeira ameaça à liberdade reside na ´maioria absoluta` institucional, a filha bastarda da maioria parlamentar".
(Henrique Raposo
Expresso 27/12/2008)

Memória Barreirense (XXXV)


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Gostava de lá ter estado
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Em 29 de Abril de 1991, um mega-almoço juntou em Fernão Ferro (Concelho do Seixal) 400 Barreirenses que, com vínculos muito diversos ao basquetebol do FCB, prestaram homenagem a antigos campeões nacionais, e aproveitaram a oportunidade para uma saudável e gratificante confraternização.
Estiveram presentes na Mesa de Honra: Justino Marques (Direcção Geral dos Desportos), Júlio Freire e Luís de Carvalho (Câmara Municipal do Barreiro), Carlos Pires (Federação Portuguesa de Basquetebol), Armindo Pereira (Associação de Basquetebol de Setúbal), Emanuel Góis (Presidente da Assembleia-Geral do FCB), Luís Filipe Costa Mano (Presidente da Direcção do FCB) e Joaquim José Guilherme (jogador da primeira equipa de basquetebol do FCB). Não estive presente. E tive pena! Apesar de acompanhar desde há muito a modalidade, não fora praticante, nunca fora convidado para qualquer contribuição e, naturalmente, não fui convidado para o repasto.

Em Junho dos anos de 2002 e 2003, no final das épocas competitivas, estive presente em jantares realizados, respectivamente, no Ginásio-Sede e no restaurante Acordeon, a convite dos responsáveis da Secção de Basquetebol do FCB.
Foram magníficas concentrações de Directores, Seccionistas, Clínicos, Atletas e Pais, que demonstraram uma grande vitalidade do basquetebol de formação do clube. Senti-me bem, junto de gente boa, que fui conhecendo ao longo de muitos anos, em momentos de triunfo e de alegria, mas também, por vezes, em contextos de derrota e desilusão.
Guardo também uma grata recordação de um jantar realizado em Abril de 2004 no restaurante Fragata e que serviu para confraternização de todo o grupo de trabalho da equipa sénior de basquetebol. Liderado tecnicamente por José Luís Damas – que sucedera no cargo a Francisco Cabrita – o FCB teve nessa época uma prestação meritória, dolorosamente interrompida no quinto jogo da primeira eliminatória dos playoff de atribuição do título de campeão da Liga TMN, por um cesto de Francisco Rodrigues obtido no último segundo da partida. Tal como nas temporadas precedentes de participação na Liga Profissional, acompanhara a equipa em praticamente a totalidade dos jogos caseiros e forasteiros. E tivera ainda outros níveis de contribuição para a Secção. Por essa razão, o Director José Manuel Tenório teve a gentileza de me convidar.
No final do jantar, em tempo de discursos, fui surpreendido com a oferta de uma bola assinada por todo o staff, o que me deixou muito feliz. Emocionado, agradeci tão grande deferência. E proferi uma intervenção, traduzida em inglês por António Carrilho e Ricardo Gomes para três dos atletas estrangeiros que tão competentemente haviam servido as nossas cores: Tiray Pearson e Ronnie McCollum (norte-americanos), Dusan Macura (sérvio). As minhas palavras tiveram dois destinatários principais: Manuel Lopes, que vinha alertando para a sua intenção de diminuir drasticamente o orçamento do basquetebol para a temporada seguinte e Emídio Xavier, Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, a quem agradeci o apoio concedido ao FCB através de um Contrato-Programa e a quem solicitei a manutenção dos apoios da autarquia a uma modalidade de tão grandes tradições no clube e um veículo tão importante de difusão do Barreiro por esse país fora.
Estava então muito longe se supor que, escassas semanas depois, as contingências e as exigências de uma delicada situação da modalidade me tornariam Director do FCB e interlocutor da Secção de Basquetebol junto da Câmara Municipal do Barreiro…
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Saco escondido
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Graves dificuldades económicas assolavam o FCB, uma vez mais. Em Assembleia-Geral realizada a 8 de Novembro de 1991, os associados presentes em número razoável no Ginásio-Sede, viram uma luz ao fundo do túnel. António Parra Duarte, Presidente da Direcção, disponibilizou-se para emprestar uma parte considerável da dívida, para pagamento de compromissos inadiáveis.
O ‘mecenas’ aí estava para – com mais ou menos custos para o FCB, maior ou menor transparência, mais ou menos interesse pessoal e/ou empresarial – assegurar a continuidade do clube, pelo menos no modelo organizacional e competitivo vigente nos últimos tempos. Naturalmente que a sua ‘generosa’ disponibilidade mereceu pronta aceitação e emotivo reconhecimento por parte dos associados que, como eu próprio, votámos favoravelmente, sem grandes hesitações.
De pé, junto à ala esquerda da mesa onde os membros da Mesa da Assembleia-Geral dirigiam os trabalhos, António Parra Duarte, homem de estatura baixa, parecia nervoso e tenso. Curiosamente, os seus movimentos pareciam limitados por algo que se vislumbrava debaixo da sua axila esquerda. A dúvida e a curiosidade ocorreram-me e, a avaliar pela reacção dos que me rodeavam, também invadiu o espírito de muitos dos presentes mais atentos. Que seria aquilo?
Apresentadas as suas promessas e aprovadas as propostas imobiliárias, financeiras e desportivas, António Parra Duarte deslocou-se para a zona mais central da mesa e pousou um volumoso, incómodo e certamente pesado saco de papel. O mistério estava desfeito! Do saco escondido brotaram notas e notas de conto. Afinal… os 11.400 contos [cerca de 57.000 euros] que o Presidente prometera, para ‘salvação’ do FCB.
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Tributo a Albino Macedo

A Assembleia-Geral Extraordinária de 4 de Abril de 2005, presenciada por 116 associados, foi convocada para “deliberação da atribuição de emblema de diamante e louvor ao associado Albino António da Silva Macedo pelos altos serviços prestados ao FCB”.
Efectuei uma breve intervenção em defesa daquela proposta. Alves Pereira, ilustre jurista e Presidente da Assembleia-Geral em vários mandatos, efectuou uma brilhante intervenção, de grande conteúdo e com a qualidade oratória que o caracteriza. A proposta veio a ser aprovada por unanimidade.
Uma semana depois, realizou-se a sessão comemorativa do 94º aniversário do FCB. Por solicitação de Manuel Lopes, proferi uma intervenção dedicada a Albino Macedo, que seria depois galardoado com o Emblema de Diamante, por 75 anos de filiação clubista.
Conheci Albino Macedo há mais de quatro décadas. Amigo do meu pai, que integrou elencos directivos por si presididos. Foi com enorme prazer, mas também com algum constrangimento, que aceitei o desafio. Perante uma vasta audiência de Barreirenses e ilustres convidados, onde se destacava Vicente Moura, Presidente do Comité Olímpico Português, li um texto que preparara com todo o cuidado:

Exmo. Presidente da Assembleia-Geral do Futebol Clube Barreirense
Exmo. Presidente da Câmara Municipal do Barreiro
Exmas. Individualidades presentes na Mesa desta Sessão Solene Comemorativa do 94º Aniversário do Futebol Clube Barreirense
Caros Consócios e demais presentes

Como muitos de nós, Albino António da Silva Macedo, é associado do Futebol Clube Barreirense desde o seu dia de nascimento.
Ao longo de 75 anos, Albino Macedo dedicou-se de corpo e alma ao engrandecimento e fortalecimento do nosso histórico clube. Como atleta, destacou-se no basquetebol, tendo apenas representado as nossas cores, ao longo de uma carreira de 17 anos (1946 a 1963). Para a história ficam muitos momentos de glória, daquele que foi capitão do Futebol Clube Barreirense, campeão nacional sénior nas épocas de 1956/1957 e 1957/1958 e capitão da Selecção Nacional sénior de 1957 a 1959. Como dirigente, Albino Macedo foi pela primeira vez Presidente do FCB com apenas trinta e quatro anos de idade, sendo ainda hoje o associado com maior número de anos como Presidente do clube, onze, entre 1964 e 1992. Desempenhou outros cargos directivos e é, como sabem, actualmente Presidente do Conselho Consultivo e Contas. A sua dedicação, a sua honestidade, a sua simplicidade, o seu desprendimento material, elevam-no sem qualquer dúvida, ao patamar mais alto de todos quantos têm servido este clube ao longo de noventa e quatro anos.
Em 1958, apenas dois anos após a inauguração do nosso Ginásio-Sede, sensibilidades diversas no seio do clube, dividiam a sua eficácia, dificultavam o seu crescimento, ameaçavam a sua unidade. No Jornal do Barreiro de 20 de Fevereiro desse ano, o associado Fernando de Alenquer, escrevia em artigo de opinião: “O Futebol Clube Barreirense é uma colectividade especial. Pode ser igual a outras, ter pelo menos afinidades que em certos aspectos tornem comum o seu destino; mas nenhuma lhe é paralela no caminho do esforço criador… Mas a sua massa associativa está dividida. O haver numerosos grupos, cada um constituindo, muito naturalmente, um núcleo de opinião e de crítica, não significa divisão perniciosa; pelo contrário, se cada grupo se orientar no sentido do engrandecimento da colectividade, opinando e criticando construtivamente, a revalorização será inevitável e mais rápida… O Barreirense é um clube especial, cheio de popularidade. Mas precisa de unidade. Precisa de que dentro dele se difundam doutrinas que lhe mostrem a sua obra inacabada; que lhe revelem não estar ainda concluída a estrada do seu destino; que lhe mostrem a necessidade de aproveitar valores e de os conjugar no sentido de nunca se perder esse tino que lançou a primeira pedra do ginásio e depois tornou, pelo esforço criador, a obra una e indivisível. É difícil o desiderato? Não se nega a canseira a que obrigará. Mas as tarefas cívicas que decorram dessa obrigação de indivisibilidade, no sentido construtivo, serão benditas. Elas eliminarão, a pouco e pouco a dificuldade de construir elencos directivos e tornarão o Barreirense mais Barreirense – mais progressivo… O Barreirense precisa de todos: dos que só podem pagar a sua quota e dos que, acima de tudo, lhe podem dar a sua inteligência e a sua dedicação”.
Como parecem sábias e actuais estas palavras. Num momento em que tanto pode mudar tão depressa neste grande clube, importa fortalecer a unidade entre todos os Barreirenses, afirmar a sua matriz identitária, onde se destaca a prática tradicional e gloriosa de duas modalidades muito queridas: o futebol e o basquetebol. Albino Macedo, personifica esta perspectiva, passada, actual e futura, de um clube que se quer plural, realista mas ambicioso.
Albino Macedo acompanha com intensidade e paixão todas as actividades do clube. Aos sábados, vemo-lo no Pavilhão Luís de Carvalho, apoiando a equipa sénior de basquetebol, já não amadora como no seu tempo, mas ainda assim peculiar no panorama da modalidade em Portugal, pela afirmação tão forte da sua escola de formação e que a tornam tão respeitada e tão admirada. Aos domingos, é fácil encontrar o Albino no ‘Manuel de Mello’ ou em qualquer outro campo onde se desloca a nossa mais representativa equipa de futebol.
O Futebol Clube Barreirense sabe honrar e homenagear as suas glórias, os seus mais devotados, competentes, sérios e ilustres associados. Em Novembro de 1959, sendo Presidente Renato Freire, Albino Macedo, ainda praticante de basquetebol, carreira que apenas encerraria cinco anos depois, foi alvo de uma inesquecível festa de homenagem e consagração, promovida no Ginásio-Sede pelo seu clube de sempre. Recebeu com todo o merecimento a Medalha de Mérito e Dedicação do Futebol Clube Barreirense, entregue pelo associado número um, António Maria da Costa. No palco, numa cortina aveludada, podia ler-se: “Obrigado Albino Macedo”.
Essas são, também hoje, as minhas últimas palavras, as nossas últimas palavras: “Obrigado Albino Macedo”.
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[Excerto do Capítulo V - Reuniões Magnas
Livro PROVA DeVIDA - Estórias e memórias do meu Barreirense]
(continua)

quarta-feira, dezembro 24, 2008

Feliz Natal 2008


Na abundância ou à míngua,

Em paz ou em guerra,

Na saúde ou na doença,

Com alegria ou tristeza...

É Natal. BOAS FESTAS

Memória Barreirense (XXXIV)


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Unidade Barreirense
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Na época de 1965/1966, o FCB procedeu ao arrelvamento do Campo D. Manuel de Mello. A equipa não assegurou a manutenção na I Divisão e a descrença instalou-se. Sucederam-se as críticas ao Presidente Albino Macedo.
Luís Raimundo dos Santos, Presidente da recém-eleita Direcção, decidiu promover a 1ª Festa da Unidade Barreirense. Objectivo: “dinamizar novas relações, estreitar velhas amizades, apaziguar longevas desavenças e espraiar a atmosfera densa que se respirava no seio do Futebol Clube Barreirense, fazendo com que todos estendessem as mãos uns aos outros num cordial civismo e amor clubista. Enfim… era necessário fazer ressurgir o ‘velho’ Barreirense para que o futuro fosse encarado, por todos, com maior confiança!” (José Rosa Figueiredo, 70 Anos de Vida do Futebol Clube Barreirense).
Constituiu-se uma Comissão de Associados, com a seguinte composição: Albino da Silva Macedo, Albino da Silva, Armando da Silva Pais, Eduardo Espírito Santo, Fernando Silvério do Nascimento, Francisco Tavares Câmara, Jacinto Nicola Covacich, Jaime Diniz Abreu, Joaquim Pedro Pacheco, Luís Raimundo dos Santos, Manuel Costa Seixo e Victor Rodrigues Adragão. Desenvolveu-se um grande esforço de mobilização. Na edição de 6 de Outubro de 1966, o Jornal do Barreiro publicou a seguinte carta-circular, difundida por sócios e amigos do FCB:

Neste período de bem necessária renovação e maior revigoramento desportivo do Futebol Clube Barreirense, ao reabrir as portas do seu campo atlético após as obras de arrelvamento e outras complementares (embora ainda não concluídas), uma comissão de sócios acaba de tomar a iniciativa de organizar uma grande “Festa de Unidade Barreirense” que demonstre bem significativamente, a maior unidade, a mais íntima união de todos os “Barreirenses” à volta do pavilhão “alvi-rubro” de tão belas tradições na defesa da Causa Desportiva, irmanados todos no mesmo desinteressado objectivo de bem servir, e relegadas, portanto, ao esquecimento as pequenas divergências que algumas vezes cindiram o bloco de dedicações e sacrifícios que alicerçou, lenta mas proficuamente, a grandeza do Futebol Clube Barreirense e o tornou admirado e respeitado, como clube de primeiro plano.

A 22 de Outubro de 1967, o Ginásio-Sede fervilha de alegria e entusiasmo. Os esforços desenvolvidos pela comissão organizadora culminam numa presença impressionante de 1.000 Barreirenses – associados, atletas, treinadores, dirigentes.
Depois da audição do Hino do FCB, coube a Luís Raimundo dos Santos o discurso inaugural, seguido de outras intervenções, da leitura de cartas de Barreirenses ausentes que, como Luís Casimiro Vasques, residente em Paris há alguns meses, não quiseram deixar de marcar a sua presença.
Os testemunhos da grandiosa noite, a que não assisti, são eloquentes dos momentos inolvidáveis que a marcaram, um dos quais foi a reconciliação dos irmãos João e Pedro Pireza, desavindos e de relações cortadas há 18 anos.
Maria Helena Bota Guerreiro, com enorme emoção, recitou o:

Poema de Unidade Clubista

Ninguém faltou à chamada!
Sabemos que estão presentes
Quer em corpo, quer em espírito, que importa?
Pois todos cabem cá dentro
Ao transpor aquela porta!

Vinte anos depois, a 17 de Maio de 1986, assisti no Ginásio-Sede à 2ª Festa da Unidade Barreirense. Impulsionada, tal como a primeira, por esse grande vulto do dirigismo, Luís Raimundo dos Santos.
A 11 de Abril, comemorara-se o 75º aniversário, em cerimónia solene realizada no Ginásio-Sede. O futebol ficara num modesto 12º lugar no Campeonato Nacional da II Divisão. O basquetebol tivera mais uma boa prestação: semi-finalista da Taça de Portugal e 3º lugar no nacional da divisão principal.
Centenas de Barreirenses, oriundos de diversas regiões do país, convergiram mais uma vez para o Ginásio-Sede, numa tarde de grande amor clubista e exemplar fraternidade Barreirense. Um lanche volante favoreceu a circulação dos presentes que comungaram lembranças e reforçaram laços de amizade que a distância física não consegue apagar. Recordo o grande discurso de Alves Pereira, num registo profundo, sentido, enérgico. Jamais me esquecerei daquela tarde. Luís Raimundo dos Santos foi justamente premiado pela sua dedicação. Mas o FCB foi o grande triunfador da jornada que o Jornal do Barreiro de 23 de Maio de 1986 classificou de “grande, humana e bonita a Festa da Unidade”.

Tal como há 40 anos, o FCB voltou a cair para um escalão competitivo no panorama futebolístico nacional nada condizente com a sua tradição. E debate-se com preocupantes dificuldades financeiras e estruturais. Com uma apatia de sectores generalizados da massa associativa e adepta. E divisões internas, nomeadamente entre grupos mais activos afectos às duas modalidades mais representativas – futebol e basquetebol. Divisões que, apesar de antigas e recorrentes, são estéreis e perigosas.
Impõe-se uma outra concepção do clube. E outra praxis.
3ª Festa da Unidade Barreirense?

Sim, pois claro!
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Deixaram cair a prenda

Aníbal Cavaco Silva, actual Presidente da República, foi o Primeiro-Ministro do XI Governo Constitucional (1987-1991). Foi nessa qualidade que visitou o Ginásio-Sede, em Março de 1989. Em tarde primaveril de sábado.
Na mesa da cerimónia estiveram ainda presentes: Alves Pereira (Presidente da Assembleia-Geral do FCB), Hélder Madeira (Presidente da Câmara Municipal do Barreiro), Álvaro Monteiro (Presidente da Assembleia Municipal do Barreiro), Irene Aleixo (Governadora Civil de Setúbal), Carlos Pimenta (Deputado no Parlamento Europeu) e os Ministros do Plano, da Educação e dos Transportes. O Ginásio-Sede esteve lotado de uma assistência politicamente muito heterogénea, mas que soube receber o Primeiro-Ministro com respeito e cordialidade.
Na sua alocução, Aníbal Cavaco Silva manteve a promessa governamental de auxiliar o FCB na edificação do Pavilhão, velha aspiração dos seus adeptos que para o efeito tinham constituído uma “Comissão Pró-Pavilhão”, presidida por João Manuel Prates – antigo atleta e médico do clube, e destacado cidadão Barreirense. Embora sensibilizado para a importância da obra desejada, Aníbal Cavaco Silva exigiu uma adequação do projecto a uma dimensão menos ambiciosa e dispendiosa. E disponibilizou uma verba compreendida entre 100.000 e 150.000 contos [500.000 a 750.000 euros].
Dificuldades, incapacidades e indecisões de diversos matizes impediram até hoje a concretização de tão necessária estrutura desportiva. O tempo foi passando, a verba sucessivamente cativa para a edificação, mas todos os limites se esgotaram. Pelo que os apoios estatais indispensáveis à sua realização terão de ser novamente discutidos e revistos com a tutela. Uma pena…
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Fusão, essa ilusão

A primeira abordagem pública de uma ideia de fusão de alguns dos principais clubes do Barreiro terá sido efectuada pelo conceituado jornalista Domingos Lança Moreira, em data e contexto que não consegui precisar.
Em artigo publicado na edição de 5 de Setembro de 1957 do Jornal do Barreiro, o jornalista Oliveira e Silva defendeu publicamente um processo de fusão que abrangesse, pelo menos, o FCB e o Grupo Desportivo da CUF. Apesar das críticas de imediato desencadeadas pela sua posição, Oliveira e Silva voltou à carga em 3 de Outubro.
Foram muitas as vozes discordantes dessa pretensa solução para os problemas estruturais, financeiros e desportivos dos, à época, principais clubes do Barreiro: FCB, Grupo Desportivo da CUF, Luso Futebol Clube e Clube Naval Barreirense.
O Jornal do Barreiro, onde parecia dominante uma perspectiva favorável à fusão, voltou a levantar a questão em 23 de Fevereiro de 1958, informando que Jorge de Mello, líder do grupo CUF, estava a estudar essa possibilidade com alguns clubes. A demissão de Armando da Silva Pais, Director de O Barreirense, jornal do FCB, foi reveladora da delicadeza e conflitualidade da questão e pelo clima gerado no interior do FCB. E o assunto pareceu morrer, ou pelo menos adormecer…

Em Junho de 1990, por influência de Pedro Canário, Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, realizou-se no Auditório da Biblioteca Municipal do Barreiro, uma reunião patrocinada pelo autarca, onde estiveram presentes algumas dezenas de associados em representação do FCB e do Grupo Desportivo da Quimigal (que sucedera em 1980 ao Grupo Desportivo da CUF e que em 2000 passou a designar-se Grupo Desportivo Fabril).
Albino Macedo, Presidente da Direcção do FCB, convidara-me uns dias antes para estar presente, o que prontamente aceitei. Na Biblioteca do Ginásio-Sede realizou-se uma reunião preparatória, onde a Direcção expôs a sua visão do problema. O Grupo Desportivo da Quimigal debatia-se então com graves problemas organizativos, desportivos e financeiros. E, admitia-se em alguns círculos supostamente bem informados, que a administração do Grupo Mello estava disposta a vender as instalações do Complexo Alfredo da Silva. O FCB perfilava-se aos olhos de alguns dos seus dirigentes como potencial comprador. Confesso que apesar de ter crescido num ambiente de muita crispação e algum ódio em relação ao Grupo Desportivo da CUF, não considerei aquela hipótese particularmente digna e interessante.
O desenrolar da reunião, presidida por Pedro Canário, veio a revelar uma clara ausência de estratégia por parte dos dirigentes do meu clube. E a determinada altura, resolvi pedir a palavra. De improviso, até porque não perspectivara qualquer intervenção, critiquei qualquer eventual proposta de fusão dos dois clubes e mostrei concordância e sintonia com a posição formulada por Álvaro Monteiro, em rota de colisão com o Partido Comunista Português, no sentido de ponderar devidamente os benefícios da municipalização do ‘Alfredo da Silva’. Pareceu-me que Albino Macedo e os seus colaboradores não apreciaram o meu arrojo e independência, mas, passados dezassete anos, creio ter assumido uma posição genericamente justa e correcta, importante para a sustentabilidade e autonomia de ambos os clubes, e adequada à vida desportiva do Barreiro.
O tema não mereceu atenção do Jornal do Barreiro, que não lhe dedicou qualquer espaço noticioso. Desta vez, não houve debate público, nem polémica…
O debate acerca da municipalização do Complexo Desportivo do Grupo Desportivo Fabril – opção de que sou assumido e público defensor – voltou a ser desencadeado recentemente, na sequência da venda do ‘Manuel de Mello’.

a
[Excerto do Capítulo V - Reuniões Magnas
Liv
ro PROVA DeVIDA - Estórias e memórias do meu Barreirense]
(continua)

terça-feira, dezembro 23, 2008

Eu sei!


Gal e Tom. Concert for Planet Earth. Rio de Janeiro, 07 de Junho de 1992