sexta-feira, dezembro 19, 2008

Memória Barreirense (XXXIII)



A Democracia é a pior forma de governo,
exceptuando-se todas as outras

Winston Churchill


9 de Julho de 1975

Fui o 117º dos 181 associados que, nessa noite, assinaram o livro de presenças. Realizava-se mais uma Assembleia-Geral do FCB.
Como escreveu Daniel Sampaio (A Cinza do Tempo, Editorial Caminho 1997) “Aos 16 anos já se é grande para muita coisa. Se tudo correu bem, já se ‘curtiu’ ou se ‘andou’ mesmo com alguém. A guerra com os pais ainda está forte, mas muitas vezes já não é tão vital. Já se saiu à noite e aquela magia tão ansiosamente aguardada já não é tão brilhante”.
Então com 18 anos, tinha adquirido a maioridade e uma maior consciência dos meus direitos e deveres associativos. Estávamos em pleno Verão Quente [período explosivo da política portuguesa entre 11 de Março e 25 de Novembro de 1975], assim resumido por Henrique Monteiro e José Manuel Fernandes em nota introdutória ao livro Os dias loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira (edição conjunta dos jornais Expresso e Público, 2006):

(…) os “meses da brasa” em que Portugal esteve à beira da guerra civil, entre a liberdade e um novo totalitarismo, foi – visto hoje, e já com a distância de olhar que apenas o passar dos anos confere à História – um dos períodos mais ricos do nosso passado comum. Nele debateram-se sonhos e realidades, boas e más intenções, esperanças e desencantos. O seu desfecho resultou no Portugal que conhecemos, com todos os seus defeitos e virtudes, mas acima de tudo um país livre. País que devemos aos protagonistas da época, às vezes por razões contraditórias, mas quase sempre porque se tratava de um tempo em que todos os riscos se corriam e todas as soluções pareciam possíveis.

A proliferação de uma miríade de conflitos laborais (com a ocupação de fábricas e latifúndios), a polémica acerca da Unicidade Sindical, o boicote a Mário Soares e ao Partido Socialista nas celebrações do 1º Maio, os conflitos da Rádio Renascença e do República, constituíram alguns dos focos de enorme tensão que vieram agudizar perigosamente a situação política e fazer perigar a nossa jovem Democracia.
A esquerdização global da vida portuguesa envolveu os partidos políticos, os militares, os deputados à Assembleia Constituinte e, de uma maneira geral, quase toda a sociedade portuguesa. Os ventos de mudança também se fizeram sentir nos clubes desportivos e muitas das contradições e combates político-ideológicos foram igualmente transpostos para o seu seio. Na Assembleia-Geral de 9 de Julho, para além de uma proposta recusada de aumento de quotas e da eleição de novos Órgãos Sociais, a Ordem de Trabalhos incluía a discussão e votação da extinção dos lugares cativos do Campo D. Manuel de Mello, “considerados elitistas e pouco de acordo com uma sociedade sem classes”.
Dez dias depois, a Fonte Luminosa em Lisboa foi palco de um gigantesco comício do Partido Socialista, apoiado por todas as forças políticas à sua direita. E o prenúncio, confirmado a 25 de Novembro, de que os portugueses que não se reviam em novas utopias totalitárias podiam garantir, em sinergia com importantes sectores democráticos do Movimento das Forças Armadas, a prossecução, em Liberdade, dos três grandes objectivos do Movimento dos Capitães: Descolonizar, Democratizar e Desenvolver.
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Turbulência

António Manuel Ribeiro, Presidente da Assembleia-Geral do FCB (Presidente de Direcção: José Tiago Rodrigues), convocara para 9 de Abril de 1976 uma Assembleia-Geral Ordinária.
Uma semana antes, a 2 de Abril, a Constituição da República Portuguesa fora aprovada apenas com o voto contrário dos deputados do Centro Democrático Social.

A Constituição de 1976 foi profundamente marcada pelas transformações revolucionárias ocorridas desde 1974 em Portugal. A “transição para o socialismo”, as nacionalizações e o seu carácter irreversível definido pelos limites materiais impostos a futuras revisões, as estruturas populares de base, o Serviço Nacional de Saúde, o carácter gratuito do ensino nos seus vários graus e ramos, a reforma agrária eram, a par do sistema semi-presidencialista e da dupla responsabilidade política do Governo (perante os deputados e perante o Presidente da República) e do sistema proporcional para a transformação dos votos em mandatos, os traços mais característicos de uma Constituição saída de um processo muito turbulento e expressão constitucional da complexidade e das contradições do Portugal revolucionário de 1974 e 1975.
(César Oliveira, Os Anos Decisivos, Editorial Presença, 1993)

A Assembleia-Geral destinou-se a “Apreciar, discutir e votar o Relatório e Contas da gerência de 1975 e respectivo parecer do Conselho Consultivo e Contas. Eleição dos Corpos Gerentes para a gerência de 1976”.
Compareceram 182 associados, numa sessão marcada pela intervenção de Carlos Carvalho, militante do PCP e antigo atleta de basquetebol do clube. O orador, à data membro do denominado Núcleo Desportivo e Cultural do FCB, apresentou uma proposta, cujo teor se transcreve:

Proposta
Considerandos:
- considerando que os Estatutos e Regulamento Geral do FCB foram elaborados em pleno período fascista e por servidores desse regime
- considerando que por esse motivo eles estão completamente ultrapassados neste momento nem defendem os interesses dos sócios do clube
- considerando que a estrutura do clube é arcaica e não funciona bem
- considerando que o clube tem de servir a educação e cultura dos seus sócios através da prática desportiva e cultural
- considerando que o clube deve participar, como aliás tem participado desde a existência do Núcleo, nas acções mais importantes que visem a construção de um desporto novo neste País, propomos:
Formação de Comissão (elementos do Núcleo, da direcção e outros), para:
- estudo e elaboração de um projecto de alteração dos Estatutos e Regimento Geral do Clube de acordo com os interesses dos sócios, do Clube, e dentro do espírito do desporto ao serviço de todos os sócios
- elaboração de um programa de actividades do clube por um período de um ou dois anos dentro da óptica do desporto Direito do Povo
- proposta de nova direcção, já regendo-se pelos novos estatutos e Regulamento Geral e pelo programa apresentado.


Apesar de estatutariamente irregular, a proposta foi admitida para discussão e mais tarde sufragada, com 35 votos favoráveis, 14 votos negativos e 14 abstenções. A comissão entretanto constituída teria dois meses para concretizar a proposta. E a Direcção continuaria em funções até então.
A Assembleia-Geral prosseguiu os seus trabalhos em 15 de Junho, desta vez com um acréscimo significativo de associados presentes. Os 496 inscritos revelavam desde logo uma mobilização importante das partes em confronto. Apresentaram-se a sufrágio duas listas para a Direcção. Presentes na mesa de trabalhos o seu Presidente, o 1º e 2º Secretários (Alfredo Augusto Zarcos da Costa e Domingos das Neves Barroso, respectivamente) e também um representante de cada lista (A: Ângelo Francisco Pinheiro Candeias; B: Jesuíno de Sousa Matoso).
Houve um claro esforço de controlo e legalidade, tendo apenas sido admitidos para votação os sócios com apresentação de cartão e quota do mês anterior. A votação ditou a vitória da lista B (251 votos), com mais 25 votos que a lista derrotada, afecta ao Núcleo Desportivo e Cultural. Quase no final, o Presidente da Assembleia-Geral enalteceu a “forma correcta como os trabalhos haviam decorrido, congratulando-se pelo civismo patenteado por todos… e, não obstante terem estado em votação duas listas opostas, não terem havido vencidos nem vencedores, pois só verdadeiramente o Barreirense ganhara, perante tão expressiva manifestação de interesse clubista”.
Álvaro Monteiro, representante da lista A, propôs-se impugnar a Assembleia-Geral, alegando infracção do parágrafo único do artigo 68 dos Estatutos: “Os sócios enquanto empregados do clube não poderão tomar parte nas AG, eleger ou ser eleitos, sendo-lhes rigorosamente proibido discutir ou criticar os actos dos corpos gerentes” [tinham estado presentes dez atletas da equipa sénior de futebol, entre os quais Câmpora, Piloto e Serra]. Invocou ainda que a lista B incluía um elemento inelegível. Passavam dez minutos das três horas da madrugada, quando os trabalhos foram dados por encerrados.
Na sequência do processo eleitoral, a nova Direcção passou a ser presidida por Albino Macedo, sendo Fernando Fagundes o Presidente da Assembleia-Geral (1º Secretário: Álvaro Pinheiro Calhau, meu pai).
Simpatizante de ideias políticas esquerdistas, embora sem qualquer alinhamento partidário formal, não compreendi o que estava verdadeiramente em jogo nesse momento crucial da vida do clube. E distanciei-me das posições em confronto, numa postura neutral, que poderia ter contribuído para uma evolução perigosa do FCB, pretensamente a coberto de ideais respeitáveis mas com um enorme potencial de deriva totalitária. O que pouco depois, felizmente (!), entendi, com clareza e arrependimento.
O Núcleo Desportivo e Cultural prosseguiu entretanto a sua actividade. Em 30 de Agosto de 1976 emitiu um comunicado, sem conhecimento prévio da Direcção do FCB, criticando publicamente a demissão do até então Director Geral dos Desportos, Melo de Carvalho. Albino Macedo não tolerou essa atitude, invocou falta de confiança nos elementos do Núcleo Desportivo e Cultural e, sustentado nos Estatutos, procedeu à sua suspensão, ratificada numa Assembleia-Geral Extraordinária, realizada em 8 de Novembro de 1976, muito participada, com 456 associados inscritos, número particularmente significativo, para um clube que tinha então 4.000 filiados. O Núcleo Desportivo e Cultural dissolveu-se, e veio a constituir-se como Núcleo Desportivo e Cultural do Barreiro, de efémera duração.
Mais liberto de alguma guerrilha político-partidária, o FCB estabilizou e a Assembleia-Geral seguinte (15 de Abril de 1977) foi de novo caracterizada por um número menos relevante de sócios, apenas 42 presenças.
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[Excerto do Capítulo V - Reuniões Magnas
Livro PROVA DeVIDA - Estórias e memórias do meu Barreirense]
(continua)

terça-feira, dezembro 16, 2008

Memória Barreirense (XXXII)



Falsa despedida

Assisti na curva poente do topo norte, ao que julguei ser o último jogo oficial do FCB no Campo D. Manuel de Mello. Na companhia do Zé António e do Francisco Barrenho, dois bons amigos. Barreirenses que, como eu, sempre tiveram uma visão plural e não redutora do clube, sustentada na força das suas duas modalidades mais representativas – o futebol e o basquetebol.
A 29 de Maio de 2007, o milhar de Barreirenses que para aí se deslocou, tinha ainda uma réstia de esperança. Embora dependente de uma obrigatória conjugação favorável de resultados, a manutenção na II Divisão era matematicamente possível. O Louletano, adversário dessa tarde de domingo, em luta pela subida à Liga de Honra, não seria um adversário fácil, muito menos acomodado. Empatámos 1-1, mas a vitória, teria ainda assim significado a nossa descida ao quarto escalão nacional.
Em duas temporadas consecutivas baixámos dois escalões competitivos, desenlace que apenas ocorrera entre 1978 e 1980, quando num ápice transitámos da I para a III Divisão.
Nessa tarde, nublada e triste de Maio, fui dos últimos a abandonar o ‘Manuel de Mello’. Junto à rede da bancada central preferi, mais do que ancorar-me na tristeza e desilusão da descida de divisão e da demolição anunciada do Manuel de Mello, lembrar-me de todos os belos e inesquecíveis momentos que ali vivera, em mais de quarenta anos de visitas regulares e apaixonadas.


Até sempre!

Afinal o derradeiro jogo oficial no ‘Manuel de Mello’ veio a desenrolar-se cerca de quatro meses depois, a 16 de Setembro de 2007. O FCB foi anfitrião do Silves, em partida relativa à 3ª jornada da Série F da III Divisão. Voltei a estar acompanhado pelo Zé António e pelo Francisco Barrenho, mas desta vez também com o meu filho, o Francisco Cabrita e o Frederico Cabrita.
Despedida com honra, mas sem glória. Com duas pequeníssimas consolações: a vitória (2-0) e o facto do último golo ter sido obtido por Pedro Saianda, jovem atleta oriundo dos escalões de formação. E uma esperança, entretanto algo esmorecida: que o FCB seja capaz de construir as estruturas desportivas de que carece para a continuidade do seu caminho.
No final do prélio, não houve emoção nem drama. Sinal dos tempos…


Festa ao Domingo

Recordo com saudade, as muitas tardes de domingo que vivi no Campo D. Manuel de Mello. Como foram belas as grandes romarias populares que vi convergirem para aquele espaço, que embora sem as necessárias condições de conforto e de estruturas de apoio, foi palco de grandes jornadas futebolísticas, sobretudo quando participámos na I Divisão.
A deslocação ao Barreiro do Benfica, Sporting e FC Porto, mas também de outros emblemas históricos como o Belenenses e o Vitória de Setúbal, era sinónimo de Festa. Muitos dos nossos associados concentravam-se logo após o almoço no Ginásio-Sede que, por esses dias, tinha um movimento e ambiente inigualáveis. Um café e o convívio numa roda de amigos, um jogo de bilhar ou de snooker, uma engraxadela dos sapatos, precediam o grande momento, da convergência no ‘Manuel de Mello’, onde a aquisição do célebre bilhete Pró-Autocarro era obrigatória. Os demais Barreirenses e os adeptos da equipa visitante convergiam nas imediações do estádio pelas Avenidas Bento Gonçalves e Alfredo da Silva e pela Rua Miguel Bombarda.
A sobrelotação chegou a provocar a colocação, quase sempre ordeira e civilizada, de adeptos para cá da vedação do peão, baixa e acessível à transgressão.
No pelado, mais tarde relvado, desfilaram as ‘estrelas’, mas também os ‘operários’. Muitos e bons por lá passaram e deslumbraram. Não os esquecerei…
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[Conclusão do Capítulo IV - Locais de Culto
Livro PROVA DeVIDA - Estórias e memórias do meu Barreirense]
(continua)

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Ainda uma criança


Foi em 2004, quando assumi funções directivas no FC Barreirense, nomeadamente na área de comunicação e imagem da sua secção de basquetebol, que incrementei um gosto muito particular pela escrita – tardio, é certo, mas crescente.
Foi então que iniciei uma colaboração regular com o ROSTOS.
Foi aí que, verdadeiramente, conheci o ROSTOS.
Foi também por isso que, felizmente, me deixei seduzir pelo ROSTOS.
Aos 7 anos, ROSTOS é ainda uma criança - curiosa, irreverente, frágil.
Como será o ROSTOS na adolescência?
Arrisco uma resposta: o que todos quisermos que seja.
Um abraço para o António Sousa Pereira e a sua equipa, extensivo a todos os colaboradores e leitores de ROSTOS.
PARABÉNS!

domingo, dezembro 14, 2008

Em Cáceres...


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Últimos dias de Dezembro de 2001. Em visita por Cáceres, presenciei um magnífico jogo de basquetebol entre o Cáceres Club Baloncesto e o Estudiantes de Madrid, referente à Liga ACB (primeiro escalão do melhor campeonato europeu da modalidade).
Noite de sexta-feira. Pavilhão Multiusos. Municipal. Magnífico. Grande assistência (3.000 espectadores de acordo com os números oficiais, algumas centenas dos quais proveniente da capital espanhola). Ambiente extraordinário. Partida vibrante e intensa.
Algum tempo mais tarde, creio que no final da época 2004-2005, o Cáceres Club Baloncesto morreu. Mergulhado numa grave crise financeira, e com uma S.A.D. enredada nas disputas político-partidárias entre o Município e o Governo da Extremadura, o Cáceres Club Baloncesto sucumbiu, para grande tristeza e desânimo dos seus adeptos, como então acompanhei no sítio do clube.
Cáceres é uma pequena cidade espanhola, com 91.606 habitantes (censo de 2007), população apenas cerca de 20% superior à do Barreiro. Será uma das Capitais Europeias da Cultura em 2016.
Os “cacereños” gostam muito de basquetebol – tal como os barreirenses. O basquetebol de Cáceres não tem, todavia, o historial de títulos e protagonismo à escala nacional minimamente equivalente ao que é detido em Portugal pelo FC Barreirense.
A verdade é que, poucos anos passados, o basquetebol renasceu na histórica e monumental cidade da Extremadura, que ostenta o título de Património Mundial da Unesco. E hoje, um novo clube – Cáceres Ciudad de Baloncesto ou Cáceres 2016 Basket – disputa a Liga LEB Oro (2º escalão espanhol). Na lista dos seus principais sponsors figuram apoios públicos (“Cáceres Capital Europea da Cultura 2016” e “Marca Extremadura”) e privados (3 empresas ligadas à construção civil e imobiliário).
Na noite de sexta-feira presenciei, via internet, a parte do jogo entre o Cáceres 2016 Basket e o Ciudad de la Laguna Canárias (onde actuam Jakim Donaldson e Darrell Harris, ex-FC Barreirense). Segundo os números oficiais fornecidos pela FEB (Federación Española de Baloncesto) terão estado presentes 3.100 espectadores. Visionei a mesma animação de há 7 anos atrás, com um “zepellin” publicitário, mascotes com endereços alusivos ao património histórico de Cáceres, imensa publicidade estática.
Apoios públicos – discutíveis e sempre polémicos, bem sei – à prática desportiva de formação e de alta competição. Importância da "sponsorização" privada. Pavilhão multiusos de propriedade municipal, espaçoso, moderno, confortável e funcional. Incentivo regular dos adeptos à equipa da sua cidade.
Em Cáceres, quase tudo é diferente… do Barreiro.
Apenas (quis dizer) isso. Nada mais.


[DESPORTO À PORTUGUESA, www.rostos.pt]
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sábado, dezembro 13, 2008

Memória Barreirense (XXXI)



Do Rosário ao Rossio

Foi nuns terrenos arenosos localizados junto à Igreja de Nossa Senhora do Rosário, designados Campo do Rosário, cuja ocupação terá sido autorizada pelo Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, Joaquim Lobato Quintino, que o FCB iniciou, logo após a sua fundação, a prática regular de futebol.
O clube utilizou ainda episodicamente um espaço da Quinta José Alves, a poente do actual Parque Catarina Eufémia, até que em 1914 se fixou no Campo do Rossio, junto às cordoarias de Alexandre Coelho e Manuel Rebelo, com interregno de 1932 a 1937, em que utilizou o Estádio do Lumiar, em Lisboa. Em 1922, na presidência de Manuel Ferreira, foram construídas as primeiras bancadas de madeira, camarotes, balneários, bar e instalações sanitárias. Nos anos 40 uma Comissão de Obras constituída por Albino Macedo, Eduardo Nunes, Ezequiel Cavaco, José Balseiro Guerra, Luís Raimundo dos Santos e Pereira Mendes, prosseguiu um conjunto de beneficiações na bancada poente, bancada norte (por cedência de um espaço do jardim público) e peão nascente (cedido a título precário pela CUF).
Foi justamente pelo reconhecimento do contributo da CUF, que uma Assembleia-Geral, realizada em 14 de Fevereiro de 1952, aprovou a nova e definitiva designação – Campo D. Manuel de Mello. Pelo caminho, foram ficando sonhos e projectos de uma Cidade Desportiva, infelizmente nunca concretizados. O ano de 1965 foi muito importante para a remodelação do ‘Manuel de Mello’. Pelo impulso de uma nova Comissão de Obras de que fizeram parte Albino Macedo, António Maria da Costa, Eduardo Inácio Nunes, Manuel Raimundo, Raimundo José Maria, Ulisses Ricardo da Silva e Victor Rodrigues Adragão, iniciou-se a construção faseada da bancada de topo norte, bancada central coberta com camarotes, bancadas laterais, bancada de topo sul. O relvado, inaugurado a 26 de Setembro de 1966, foi um melhoramento muito significante. O custo desportivo destas obras foi grande: com a mudança dos nossos jogos caseiros para o Campo de Santa Bárbara, propriedade do Grupo Desportivo da CUF, o clube desceu à II Divisão. Mas foi uma obra inadiável, de enorme alcance para as necessidades estruturais do futebol Barreirense.
Um sistema de iluminação, ainda que elementar, foi inaugurado em 1976, o que veio facilitar o treino de equipas mais jovens em horário nocturno. A aquisição de algumas parcelas de terreno possibilitou a propriedade total para o FCB dos cerca de 9.000m2 da área de implantação do Campo D. Manuel de Mello, facto que facilitou a sua alienação em 2005. As últimas obras de beneficiação foram determinadas pela inscrição do FCB na Liga de Honra (época de 2005/2006) num investimento financeiro obrigatório, controlado mas improfícuo, numa estrutura com prazo de vida muito curto. A nossa participação na Liga de Honra de 2005/2006 foi, de resto, tal como a anterior (1990/1991), desastrosa em termos desportivos e ruinosa nas suas consequências financeiras. Que o exemplo e as opções então concretizadas tenham servido de aprendizagem…



Vender para sobreviver

Em 2005, com elevadas dívidas ao Fisco e à Segurança Social, e um défice de exploração corrente muito acima das receitas ordinárias, o FCB mergulhara numa gravíssima crise financeira. E a inscrição das suas equipas de futebol e de basquetebol nas respectivas Ligas Profissionais, estava condicionada pela regularização daquelas dívidas.
Por decisão dos associados, em Assembleia-Geral expressamente convocada para o efeito, o Campo D. Manuel de Mello foi alienado, assim como uma parcela de terreno da Verderena.
Saldadas as dívidas, parte das verbas recebidas continuaram a ser parcialmente consumidas para cobertura dos crónicos défices anuais, colocando em risco a sustentabilidade estrutural e financeira do FCB.
Este é um momento particularmente importante para o clube. Se uma deriva consumista e irresponsável persistir, as ameaças serão reais. Sem património, sem estruturas adequadas para a prática das suas modalidades, o FCB correrá o risco, grave e sério, de comprometer o seu futuro, e poderá será ultrapassado no contexto desportivo da cidade. A ver vamos...



Verderena adiada?

A doação ao FCB em Janeiro de 1972 por Abílio da Silva Pires, Joaquim Garcia Pires e Maria Manuela Pires de 39.100m2 localizados na Verderena para construção de um complexo desportivo, foi uma lufada de ar fresco. Acreditou-se que o FCB iria, finalmente, construir a sua Cidade Desportiva.
Iniciaram-se projectos de utilização de tão amplo espaço, que viessem a permitir um salto qualitativo e quantitativo das estruturas físicas – factor imprescindível para a consolidação e crescimento desportivo do clube. No ano seguinte, a 23 de Dezembro, foi inaugurado um campo pelado de futebol de 11 para treinos e jogos das equipas de formação. Pensava-se que num prazo não muito distante, se reunissem as condições financeiras necessárias para a continuação das obras. Pura ilusão!

Vinte anos antes, em 1952, um ante-projecto da Câmara Municipal do Barreiro, a cargo do arquitecto Joaquim Cabeça Padrão, previra a construção de um estádio com 20.000 lugares sentados a sul da Avenida da Bélgica (actual Avenida Alfredo da Silva). E em 1956 uma comissão de Barreirenses encabeçada por Arménio Pedrosa, Luís Raimundo dos Santos e Ory de Oliveira, propôs a Alfredo Garcia, Presidente da Edilidade, a alteração do ante-projecto anterior. E sugeriu nova localização, a cerca de cem metros da Escola Alfredo da Silva, onde seriam edificados um estádio de futebol com campo de treinos, pavilhão para basquetebol, complexo de piscinas, pista de atletismo e campos de ténis. O custo dos aterros e das fundações seria elevadíssimo, pelo que o projecto foi considerado inviável. E morreu.
No presente, a redução da área disponível na Verderena, por efeitos de venda de património e reorganização urbana da zona de implantação do complexo, apenas permitirá erguer um pequeno estádio de futebol, com capacidade máxima de 4.000 lugares, e um pavilhão para o basquetebol, com dimensão e polivalência distantes das necessidades do FCB.

[Excerto do Capítulo IV - Locais de Culto
Livro PROVA DeVIDA - Estórias e memórias do meu Barreirense]
(continua)

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Para a História

Conclusão da leitura desta extensa obra de Irene Flunser Pimentel.
Valeu a pena o tempo e a atenção dedicadas.
Pesquisa bibliográfica e testemunhal exaustiva e rigorosa.
Estilo de escrita frio e distanciado.
Um trabalho científico que ficará para todo o sempre.
A não perder.

Serge e Jane


Serge Gainsbourg & Jane Birkin (1969)

Ouvi "isto" clandestinamente (naquele tempo foi assim...) num 1º andar de uma das lojas do Carlos Silva (Prolar).
Terá sido logo em 1969? Ou em 1970? Não importa.

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Vale a pena LER

Número de Dezembro da LER.
Direcção de Francisco José Viegas.
Ilustração na capa. Pela 1ª vez.
Belíssima. De João Fazenda.
Conteúdos interessantíssimos. Acessíveis. Plenos de actualidade.
André Freire seleccionou "as mais relevantes 10 obras de Ciência Política".

A propósito de Os Partidos Políticos. Modelos e Realidades na Europa Ocidental e em Portugal, de Fernando Farelo Lopes, André Freire - politólogo, professor e investigador no ISCTE - escreveu que "muitos classificaram já as democracias e os regimes políticos modernos como democracias de partidos ou Estados de partidos".

Uma realidade que o triste exemplo português vem demonstrando de forma implacável.
O resultado? Menos Democracia. Pior Democracia.

Memória Barreirense (XXX)



Ler para Saber

Por iniciativa de Francisco Luís Maria Faquinhas, António Horta Rodrigues e Alfredo Zarcos, a primeira biblioteca do FCB foi inaugurada na Rua Aguiar, nº 50, a 11 de Abril de 1931, aquando da comemoração do seu 20º aniversário.
Pouco tempo antes, tinham sido constituídas as bibliotecas da Sociedade Instrução e Recreio Barreirense “Os Penicheiros” (6 de Março de 1926) e da Sociedade Democrática União Barreirense “Os Franceses” (7 de Setembro de 1930). Foram iniciativas “não de diplomados, mas de simples empregados e de elementos do operariado local” (Armando Silva Pais, Barreiro Contemporâneo, Volume II, edição da Câmara Municipal do Barreiro, 1966). Todas elas, e algumas outras entretanto criadas, desempenharam relevantes serviços no acesso à cultura e à instrução da população Barreirense.
Em 1969, a biblioteca do FCB beneficiou de um importante impulso, pela acção enérgica e determinada de Francisco Barrenho e de Francisco Joaquim Bandeirinha, convidados por Simões Coimbra. As receitas do aluguer de livros, bem como as provenientes do café, bilhares, adega da cave e organização de espectáculos, constituíam importantes contribuições para a Comissão do Ginásio-Sede. E... muito apetecíveis para a tesouraria do FCB, o que foi, aqui e acolá, factor de divisão e conflitualidade.
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Mui Nobre

Não recordo quando o visitei pela primeira vez. Mas lembro-me que desde logo me fascinou, e continua a impressionar sempre que o percorro. Ali se pode admirar o esplendor da Taça Simpatia, a beleza e harmonia das 6 taças de Campeão Nacional da II Divisão de Futebol, a Taça Ribeiro dos Reis. E as 6 Taças de Portugal e as 2 de Campeão Nacional e os já quase incontáveis troféus nacionais e regionais alcançados pelas equipas de formação de basquetebol. Uma imensidão de outras taças, troféus, medalhas, galhardetes e outros objectos, testemunham de forma clara a riqueza da nossa história, a multiplicidade de títulos alcançados pelas suas modalidades.
O Salão Nobre é hoje um espaço limitado para conter tanto espólio. Aquele que ali se alberga, mas também muito outro que poderia integrar, nomeadamente a nível de equipamentos de jogo e de património audiovisual. A construção de um moderno e interactivo Museu seria uma forma adequada de alargar a divulgação do nosso clube, e de captar novos associados e adeptos.
A cada 11 de Abril, as suas portas são franqueadas a todos quantos, no final da Sessão Solene comemorativa de mais um aniversário do FCB têm gosto em participar num convívio e beberete que o clube faculta a todos os associados e ilustres convidados.



Visita Real

A edição de 20 de Fevereiro de 1958 do Jornal do Barreiro noticiava: “De comum acordo entre o Barreirense, campeão nacional e o Real Madrid, campeão de Espanha, foram já escolhidas as datas dos encontros da eliminatória [da Taça dos Campeões Europeus] a realizar entre os dois campeões da Península”.
Barreiro, noite de quarta-feira, 12 de Março. Foi o maior espectáculo de basquetebol disputado no Barreiro. Protagonistas: os basquetebolistas do FCB e do Real Madrid, gigante europeu e mundial da modalidade. No recinto do Ginásio-Sede improvisaram-se bancadas, aproveitaram-se todos os espaços. Aspecto impressionante. Entre 1.500 e 2.000 espectadores sobrelotaram o anfiteatro. Não coube mais ninguém. Catorze contos [70 euros] de receita!
Presentes muitas entidades e ilustres convidados: Miguel Bastos (Governador Civil de Setúbal), Alfredo Garcia (Presidente da Câmara Municipal do Barreiro), Ayala Boto (Direcção Geral dos Desportos), Comandante Militar Capitão Pimenta de Castro, Conselheiro da Embaixada de Espanha, etc. Raimundo Zaporta, Tesoureiro do Real Madrid e mais tarde seu Presidente, referiu “a satisfação que todos sentiam em estar no Barreiro, terra que sabiam ser de gente operosa e de muito valor desportivo e grande centro industrial” (recepção nos Paços do Concelho). E acrescentou “estar ansioso por ver jogar os basquetebolistas Barreirenses os quais, por ostentarem o título de campeões de Portugal deviam possuir excelente categoria...”
Extraordinária exibição do meu amigo José Macedo – valoroso atleta que ainda tive o prazer de ver actuar na fase final da sua brilhante carreira, depois prosseguida em funções técnicas. Concretizou 21 pontos e foi o melhor marcador da partida. A equipa profissional madrilena venceu por 68-51 um FCB muito abnegado, mas com índices físico-atléticos deficitários, decorrentes de uma envergadura inferior e de um genuíno amadorismo, traduzido na realização de apenas dois treinos semanais.
A RTP transmitiu directamente todas as fases do jogo (o Barreiro foi a primeira localidade depois de Lisboa com direito a um directo televisivo). Foram instalados três aparelhos de TV no Ginásio-Sede para todos os que não conseguiram entrar no recinto de jogo. E também nas montras de alguns estabelecimentos comerciais. A transmissão também despertou muito interesse noutras localidades.
A 20 de Abril, acompanhada por quatro centenas de adeptos que se deslocaram a Madrid em autocarros e carros particulares, a nossa equipa foi muito bem recebida, apesar dos tristes acontecimentos do Espanha-Portugal em futebol, recentemente disputado. No esgotado Fronton Fiesta Alegre, o FCB não resistiu ao poderio espanhol e foi claramente derrotado por 86-40.


Tardes e noites de Glória

Apenas gatinhava quando o Ginásio-Sede foi palco dessa jornada. Ainda pequeno, tornei-me um espectador assíduo dos jogos da equipa sénior de basquetebol que aí decorriam. Mas foi com a vinda de Earnest Killum no final de 1972 que o meu interesse pela modalidade se reforçou. O atleta norte-americano, proveniente dos Los Angeles Lakers, acentuou o grande e tradicional interesse dos Barreirenses pelo basquetebol. Não fui, naturalmente, indiferente a essa onda de entusiasmo e vibração, que fez lotar sistematicamente o acanhado Ginásio-Sede. Onde, em jornada dupla aos fins-de-semana, cheguei a comparecer duas horas antes do início dos prélios, para poder disputar um lugar aceitável, com algumas centenas de outros aficionados.
Vi grandes atletas e grandes jogos no Ginásio-Sede. Vitórias espectaculares e derrotas amargas. A pressão sobre atletas e treinadores adversários, e sobre as equipas de arbitragem era enorme. Algumas vezes exagerada, e noutras, felizmente esporádicas, segundo cânones menos desportivos. No balcão, galeria, palco e atrás da tabela oposta ao balcão, a multidão, apinhada, seguia as incidências dos jogos com um grau de proximidade singular, que os regulamentos vieram mais tarde a condicionar. Foi assim que, no início dos anos 90, o basquetebol sénior passou a efectuar os seus jogos na condição de equipa visitada no Pavilhão do Grupo Desportivo da Quimigal. Nessa década, a presença de público diminuiu, facto que se deveu, para além da mudança de habitat, ao menor valor competitivo das nossas equipas.
Em 2000, reformulado o projecto inicial da Câmara Municipal do Barreiro e acelerada a conclusão das obras, o Pavilhão Municipal da Luís de Carvalho, passou a ser a sede do basquetebol profissional do FCB – e também, do GDESSA e do Galitos FC. Distante do centro urbano do Barreiro e situado em local particularmente problemático, o Pavilhão Luís de Carvalho tem estado, apesar dessas contingências, ao serviço do FCB, neste importante período de reafirmação do seu basquetebol profissional.
Mas os problemas supracitados, acrescidos da limitação de espaço do Ginásio-Sede, e a dispersão dos locais de treino das equipas de formação com constrangimentos geográficos e temporais diversos, tornaram premente a necessidade de um novo espaço – moderno, funcional, com uma adequada e desejável centralidade urbana. Em 7 de Janeiro de 2007, expressei no Fórum BasketPT a necessidade de o FCB construir o seu pavilhão:

Caros ‘foristas’ Barreirenses:
O Barreirense precisa de erguer o seu Pavilhão!
Dirão alguns que esta não é uma questão temporalmente decisiva para o projecto do Barreirense Basket. Mas é, em minha opinião, uma necessidade estratégica.
Limitada ao velho, mítico e glorioso Ginásio-Sede, toda a Formação do Barreirense Basket está hoje manifestamente constrangida por limitações físicas que estrangulam o seu crescimento e prejudicam de forma objectiva a sua vertente qualitativa. O basquetebol sénior, atirado para as margens geográficas do Concelho do Barreiro, tem saído claramente prejudicado, pela dificuldade de atrair os seus adeptos (fundamentais na trajectória vitoriosa de outrora) e gerir de forma autónoma e independente o seu espaço publicitário.
O Barreirense Basket necessita de se recentrar no espaço geográfico da cidade, para consolidar a sua massa adepta e captar novos apoios (humanos, mas não só...). O Pavilhão da Verderena, moderno e funcional, com bancadas (totalmente amovíveis) para cerca de 1.000 espectadores e capacidade de utilização simultânea para três equipas, é um projecto, a meu ver, viável e realista.
Manuel Lopes, actual Presidente de Direcção, aquando das Assembleias-Gerais de que resultou a alienação de património do Barreirense (Campo D. Manuel de Mello e parcela da Verderena), assumiu o projecto de construção de um Pavilhão na Verderena. Acredito na sua palavra, mas também sei, de experiência feita, que prometer não é concretizar e que da ilusão à realidade dista, às vezes, um espaço imenso e quiçá intransponível.
Não podemos deixar cair a ideia e o projecto!
Estou disponível para essa batalha, porque acredito na importância que o Barreirense tem na vida associativa e desportiva do Barreiro, e no papel singular que o Basquetebol assume como factor de formação e educação (cívica e desportiva) de sucessivas gerações de Barreirenses.

Mais preocupados com outras questões, de relevância nem sempre evidente aos meus olhos, poucos foram os que vieram a terreiro, comentar aquele texto. Confesso que estas e outras manifestações de alheamento, ou pelo menos de não comprometimento com causas e lutas que são e serão necessariamente difíceis e custosas, me entristecem e desiludem. Adiante…

[Excerto do Capítulo IV - Locais de Culto
Livro PROVA DeVIDA - Estórias e memórias do meu Barreirense]
(continua)

Parabéns!


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Em 29 de Junho, no ROSTOS, escrevi um breve texto a propósito de Manoel de Oliveira, que hoje completa 100 anos.
Apetece-me agora reproduzir as palavras que então escrevi:
a
Quase cem

Mais de oitenta anos de carreira. Dezenas de filmes realizados. Palma de Ouro de Cannes. E Leões de Ouro de Veneza. Ele que até é portista de nascimento e dragão de simpatia clubista.
Gosta de filmar. Tem projectos – muitos. Incrível…
Gosta de viver – muito. “É uma coisa que recomendo aos meus amigos”. Tem toda a razão…
Não conheço em detalhe a sua obra cinematográfica. Não é o meu realizador de eleição. Mas é, para muitos, o “mais velho dos grandes realizadores do mundo ainda em actividade […] e um dos mais imaginativos e inovadores realizadores do cinema europeu”. (Expresso, 21 de Junho de 2008)
Que o tempo corra célere. Por uma vez. Para que chegue o 11 de Dezembro. E Manoel de Oliveira apague as cem velas. Que bem merece…
..

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Entretanto...


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... a Venezuela de Hugo Chávez "onde uma sopa de legumes custa 12 bolívares, o dobro do que custa encher um depósito de automóvel com 50 litros de gasolina, não é país que se recomende. Apesar do folclore e da demagogia"
(PÚBLICO, 7 de Dezembro de 2008).


Subscrevo.
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Não devia ser assim



O gozo de um curto período de férias permitiu que esta manhã tivesse acedido na minha caixa de correio, a uma hora bem mais precoce do que é usual, a um exemplar do semanário NOTÍCIAS DO BARREIRO.
Chegado à página 6, deparei-me com dois artigos de opinião, que li (e reli) com atenção e interesse.
O Engº Nuno Banza, a propósito de uma experiência pessoal bem recente, abordou aquilo que depreendo ser o caos instalado na Urgência Pediátrica do Hospital de N.ª S.ª do Rosário, realidade que não conheço em pormenor, mas que não deverá ser, nos seus contornos principais, particularmente diferente daquela que conheço profundamente no Hospital Garcia de Orta onde exerço funções desde a abertura do Serviço de Pediatria, completam-se dentro de dias longos e ricos dezassete anos.
A verdade é que os Serviços de Urgência, e os de Pediatria em particular, são efectivamente – e não deveria ser assim! – locais para atendimento permanente de todo o tipo de situações – as emergentes e as urgentes (obviamente!), mas também para toda a plétora de doença aguda e não aguda que não deveria encontrar aí o local (às vezes único) de resolução atempada.
Ninguém beneficia com esta situação. As crianças sofrem. Os pais desesperam. E nós, profissionais de saúde, acreditem, também não nos sentimos nada confortáveis.
Cansado desta situação, exausto de uma pressão inaceitável e injusta, lá acabei por cumprir esta semana uma pausa nesta rotina semanal (às vezes bi-semanal) infernal e insustentável, apenas gratificada nas vidas que se salvam, nos sofrimentos que se aliviam e nos “obrigado” que aqui e acolá vamos recebendo.
Hoje, em Almada (e por esse país fora) sei que a generalidade dos meus colegas está a dar o melhor de si pelas crianças. As situações emergentes e urgentes serão prontamente atendidas. As outras… logo que possível.
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segunda-feira, dezembro 08, 2008

Eternamente belo




Léo Ferré, La Solitude

FCB: que futuro?



Na sua magnífica crónica dominical do PÚBLICO de 7 de Dezembro de 2008, o sociólogo António Barreto referiu-se ao livro “Colapso” de Jared Diamond, recentemente editado em Portugal pela Gradiva.
Segundo o autor americano – e cito António Barreto – “há povos, países ou Estados que “escolhem” acabar, morrer ou desaparecer. Os maias, os povos da ilha de Páscoa ou das ilhas da Gronelândia e populações do Ruanda contemporâneo são alguns dos exemplos. Por várias e complexas razões, tais povos, a partir de um certo momento, desistiram e caminharam direitos para o fim. Uns fizeram tudo o que era necessário para destruir ou esgotar as bases da sua sobrevivência, outros renderam-se aos inimigos humanos ou às ameaças naturais. Podem as escolhas não ser datadas e deliberadas, mas são actos de vontade motivados, talvez não pelo desejo de morrer, mas sim pela ilusão de outra vantagem ou pela complacência com que se vive uma circunstância conhecida.”
Passando para a realidade nacional, António Barreto aflorou a crise/colapso do Parlamento, do PSD e do regime democrático. Não sem antes advertir os seus leitores: “A analogia [com as teses de Jared Diamond] pode parecer forçada. Os processos históricos demoram séculos, aqui estamos a falar de anos. Aqueles dizem respeito a povos inteiros, aqui referem-se instituições ou regimes”.

Que tem este texto introdutório a ver com uma crónica como DESPORTO À PORTUGUESA, que aqui venho regularmente publicando no ROSTOS?
À primeira vista nada. Mas na verdade tem. E muito!
É que ao ler António Barreto – a leitura de Jared Diamond ficará em lista de espera... – pensei de imediato no “meu” Futebol Clube Barreirense. Instituição de Utilidade Pública, quase centenária, assolada por uma grave e profunda crise.

Em Janeiro de 2007, em resposta a um texto poucas semanas antes publicado no JORNAL DO BARREIRO escrevi: “O Barreirense não está num marasmo ou moribundo! O Barreirense está vivo e tem futuro!”.
As minhas palavras pretenderam então reagir a uma opinião – violenta mas respeitável –, abrir (?) uma porta de esperança – emotiva e apaixonada –, testemunhar uma vontade pessoal – sentida e sincera.

Em Janeiro de 2008, na página derradeira do livro PROVA DeVIDA, escrevi: “Será através do contributo mais activo e alargado dos seus Associados, do talento, criatividade, empenhamento e bom senso dos seus Dirigentes, e da capacidade de diálogo e colaboração solidária, harmoniosa, transparente e moderna, com a Câmara Municipal do Barreiro e com os Agentes Económicos da Cidade, que o FCB [Futebol Clube Barreirense] poderá ultrapassar as graves dificuldades e constrangimentos actuais. E prosseguir um percurso desportivo de mérito na formação e na alta competição, um desempenho de relevo na sociedade Barreirense, um estatuto de Utilidade Pública tão legitimamente adquirido. Caso contrário, não estarão criadas, em minha opinião, as condições mínimas para a prossecução de objectivos desportivos competitivos semelhantes aos actuais, e o FCB será obrigado a recuar para patamares bem menos ambiciosos, de alcance e consequências ainda muito pouco discutidas e consciencializadas pela imensa maioria dos Barreirenses”.
Sabia então – como sei hoje – que a crueza dos números e a realidade dos factos são muitas vezes mais fortes que as nossas legítimas intenções e genuínas aspirações.

Quando no biénio 2004-2006 integrei os Órgãos Sociais do Futebol Clube Barreirense, tive uma oportunidade única de mergulhar nas “profundezas” do meu clube de sempre, e de entender – com uma clareza até então limitada e parcelar – a dimensão dos problemas e a dificuldade das soluções.

Ainda em PROVA DeVIDA escrevi: “Concordei com a venda do terreno do Campo D. Manuel de Mello. Tornei pública a minha posição nas Assembleias-Gerais que precederam essa decisão. Persuadi alguns associados a apoiarem o Presidente Manuel Lopes. Defendi a Direcção das suspeições que alguns quiseram atribuir-lhe.
O “Manuel de Mello” foi vendido. O FCB arrecadou uma verba substancial. Saldou as dívidas ao Fisco e à Segurança Social. Regularizou o pagamento de outras dívidas. Safou-se! E, como escreveu Sofia de Mello Breyner: “corpo renascido...”. Mas o desafio apenas começara. Foi uma decisão inadiável, fundamentada, mas afectivamente difícil. Ainda assim, muitos se interrogaram, e alguns disso se fizeram eco: “foram-se os anéis, mas ficarão os dedos?”.
Coube à Direcção, desde então, a responsabilidade de demonstrar que a decisão de 2005 fora correcta. E cumprir a promessa então formulada: o FCB construirá os espaços desportivos necessários e adequados ao seu Projecto Desportivo, assente na formação cívica e desportiva de jovens atletas, mas com ambições competitivas realistas e consistentes”.

Em Março de 2007 escrevi em ROSTOS: “Em vez de circulação de informação, de debate da situação, de esclarecimento das dificuldades, de apelo à mobilização, a que se assiste? Ao triunfo do silêncio, da acomodação, do desânimo e da resignação. Com gravosas consequências. E com terreno fértil para a intriga, o boato, a insinuação. Onde chegámos…”.
Foram palavras críticas para o Presidente Manuel Lopes e a sua direcção. Que caíram – uma vez mais – em “saco roto”.
A verdade é que, decorridos mais de três anos da decisão de alienar património, cresce a desilusão, falta a esperança, sobra a descrença.

Em PROVA DeVIDA escrevi também:
“O FCB do século XXI deverá ser:
- conceptualmente criativo
- desportivamente ambicioso
- estruturalmente realista
- administrativamente moderno
- política e financeiramente independente”.
Para logo de seguida acrescentar:
“Alguns conceitos programáticos deverão servir de fundamento para uma acção consequente. Assim, importa em minha opinião:
- analisar e reforçar a matriz e identidade do clube
- promover uma revisão estatutária
- definir uma nova política desportiva
- modernizar a organização administrativa
- projectar a estrutura e dimensão das instalações desportivas
- fomentar o crescimento da massa adepta e associativa
- renovar as áreas de comunicação, imagem e merchandising
- melhorar os índices de democraticidade e participação
- incrementar a inserção na juventude Barreirense
- reformular o contrato-programa com a autarquia
- atrair e conquistar o tecido empresarial
- aprofundar a ligação aos agentes culturais”.
Mantenho na sua generalidade a essência destas propostas, sendo certo que a ambição desportiva terá de ser adequada à difícil situação do clube, da autarquia e do país.

Os Órgãos Sociais do Futebol Clube Barreirense para o mandato de 2008-2010 deveriam ter sido eleitos no primeiro semestre deste ano. Tal não veio a acontecer.
Na Assembleia-Geral Ordinária de 30 de Setembro nenhuma lista se apresentou a sufrágio.
O que a prolongar-se, pode significar a acentuação de uma crise, num momento crucial para o futuro do clube.
O que a repetir-se, pode resultar num impasse na tomada de decisões fundamentais para o seu futuro – próximo e distante.

Manuel Lopes está de saída – ao que parece. Cansado e desiludido – segundo consta.
Manuel Lopes cultivou, ao longo de sucessivos mandatos, uma forma peculiar de direcção, muito centrada na sua personalidade. Desgastou-se num individualismo esforçado e exigente. Acentuou uma prática pouco mobilizadora dos associados. Não promoveu, como teria sido desejável, a formação e o desenvolvimento de equipas de trabalho. Exagerou na desconfiança com que foi enfrentando e alienando as vozes críticas – em particular as vozes construtivamente críticas.

A confirmar-se o seu afastamento, Manuel Lopes deixará um legado cuja avaliação não pode ser feita de forma superficial e leviana. Será uma herança complexa e contraditória. Com aspectos positivos. E com aspectos negativos.
Como alguém referiu teria sido possível que Manuel Lopes viesse a sair pela “porta grande”, com elogios maioritários e provas abrangentes de reconhecimento e de gratidão.
Mas receio que não venha a ser assim. E tenho pena...
Porque acredito na sua boa vontade.
Porque elogio a sua dedicação plena.
Porque reconheço a sua perseverança.

A concretizar-se o abandono, a sucessão de Manuel Lopes não será fácil.
Não vislumbro uma solução directiva a curto prazo.
Competirá ao Dr. António Sardinha – Presidente da Assembleia-Geral – promover uma alternativa.
Mas não se pense que será uma tarefa linear e de sucesso garantido. E que todos nós, Barreirenses, nos possamos excluir ou distanciar desse esforço.

O Futebol Clube Barreirense é hoje uma instituição desmobilizada e descrente. Rarefeita de boas vontades e de indispensáveis disponibilidades.
Os associados mostram-se maioritariamente distantes e indiferentes. Estão-se simplesmente “nas tintas”.
O dirigismo desportivo não é, nos tempos que vivemos, uma actividade socialmente gratificante e valorizada.
Oxalá não se venha a cair num perigoso vazio directivo, que poderia significar o colapso do clube.

O Futebol Clube Barreirense atravessa um momento particularmente difícil da sua história, mas em que paradoxalmente parece estarem criadas as condições objectivas para que seja reformulada a sua orgânica interna, a sua política desportiva, a sua dimensão estrutural.
O Futebol Clube Barreirense necessita de se reprojectar. E, eventualmente, de se refundar.
Victor Hugo escreveu que “os homens honestos procuram tornar-se úteis, enquanto os intriguistas tentam apenas ser necessários”. O clube precisa de todos os Barreirenses honestos. E dispensa todos os intriguistas, todas as “aves agoirentas” e todos os profetas da desgraça que não desejam o seu bem.

Tenho sido ao longo destes últimos uma voz relativamente isolada, mas persistente, clamando pelo rigor, pela participação e pela transparência no Futebol Clube Barreirense.
Sei que as minhas posições públicas foram aqui e ali entendidas como manifestações de um inconfessado desejo de poder e de protagonismo. Nada mais errado.
Sei que as minhas posições públicas foram por vezes retorquidas com expressões do tipo “vá p´ra lá você!”. Nada mais injusto.
O direito à opinião e à crítica é intrínseco e inalienável da minha condição de associado. É um direito de cidadania. Mas não me impõe qualquer obrigatoriedade de integrar os Órgãos Sociais.
Razões profissionais e pessoais – de dimensão inultrapassável nos próximos anos – inibem-me, ou melhor dito, impedem-me o exercício de funções executivas num futuro elenco directivo. O que não é – nunca será – sinónimo de afastamento, de abandono, de deserção.
Como escreveu António José Seguro no artigo “O valor da opinião” (EXPRESSO de 6 de Dezembro de 2008): “Pela minha parte tenciono continuar por este caminho, reflectindo e dando os meus contributos”. Que outros, dentro das respectivas disponibilidades e competências, possam fazer e dar mais… e melhor.

Quem poderá abraçar o exigente mas estimulante desafio de dirigir o Futebol Clube Barreirense com rigor, competência, modernidade?
Quem poderá assumir-se como líder de um projecto participado e descentralizado?
Quem saberá honrar o património histórico do clube?
Quem poderá dar o impulso decisivo à concretização dos projectos de construções desportivas de que carecemos?
Quem lutará pela salvaguarda do justo equilíbrio entre as duas modalidades mais representativas – o futebol e o basquetebol?
Não sei! Não sei mesmo!

Apesar de tudo, questiono ou imagino uma hipótese.
Mas “esse alguém” não parece disponível – pelo menos para já. O bom desempenho que, estou certo, efectuaria, seria a concretização de um sonho antigo, aqui e acolá já expressado. E poderia catapultá-lo para outros níveis de participação e responsabilidade – cívica e política – na Cidade e no Concelho do Barreiro. Com indiscutível credibilidade. Com acrescida visibilidade.
“Esse alguém” sabe – como eu sei – que há um tempo próprio para as coisas aconteceram. Que há um momento próprio para as grandes decisões. E que os adiamentos e as indecisões têm muitas vezes um elevado preço. Um não retorno.
Esse momento pode estar a passar por ti, caro Amigo. Se agarrares esse momento – com ambas as mãos – terás o meu total apoio. E a minha colaboração – muito limitada mas leal… como bem sabes.

Seria dramático chegar à conclusão que o Barreiro e os Barreirenses não entendem a utilidade do Futebol Clube Barreirense ou que, no limite, admitem que a sua existência é dispensável.
Seria dramático chegar à conclusão que o Barreiro e os Barreirenses não percebem que o fim do Futebol Clube Barreirense pode já ter começado.

[DESPORTO À PORTUGUESA, www.rostos.pt]

domingo, dezembro 07, 2008

Memória Barreirense (XXIX)



Que importa que nos vençam desenganos
Se pudermos contar os nossos anos
Assim como degraus duma subida?
Florbela Espanca

a
20 de Maio de 2006

Em tarde de 50º aniversário da sua inauguração, o Ginásio-Sede teve cerca de centena e meia de presenças, numa cerimónia que decorreu com bom gosto e dignidade mas, em minha opinião, muito aquém do que merecia tão relevante momento da história do FCB.
Logo no início de 2006, em reunião de Direcção, sugeri a necessidade e a premência de constituição de uma comissão organizadora das comemorações. E disponibilizei-me para a integrar. Não vi da parte do Presidente grande entusiasmo pela ideia que formulara. Ainda voltei a levantar a questão por uma segunda vez, mas com igual retorno.
Como em tantos outros aspectos da vida do clube, Manuel Lopes entendeu depositar nas suas mãos a responsabilidade e a quase totalidade das tarefas organizativas da Sessão Solene comemorativa do 50º aniversário do Ginásio-Sede. Carlos Silva Pais, fiel e inteligente depositário de um valioso espólio herdado de seu pai, Armando da Silva Pais – Presidente da Direcção e da Assembleia-Geral do FCB na década de 50 – deu uma preciosa colaboração. Disponibilizando um vasto conjunto de documentos, que serviu para uma exposição que se prolongou por alguns dias no Ginásio-Sede e que foi depois possível apreciar na Galeria Municipal de Arte. Apesar deste meu desalento pelo seu comportamento solitário e auto-suficiente, dei os parabéns a Manuel Lopes pelo trabalho realizado. Podíamos ter sido mais abrangentes e ambiciosos, mas...
Poucos dias antes, escrevera em Rostos um texto de apelo à participação dos meus consócios, e de evocação da grande epopeia que constituiu a edificação do Ginásio-Sede.
a
Sábado, eu vou lá estar
Corria o ano de 1956…
Na Europa, o XX Congresso do PCUS, assistia à corajosa denúncia dos crimes de Staline. Ventos libertadores sopravam na Polónia e na Hungria, mas foram brutalmente reprimidos por tropas do Pacto de Varsóvia. O Portugal de Craveiro Lopes e Salazar seguia triste, atrasado e inculto, ignorado e votado ao ostracismo pelas nações livres do Ocidente democrático. No Barreiro, vila operária de ricas e profundas tradições associativas e de luta pela Liberdade, o seu clube mais pujante, representativo e popular, o Futebol Clube Barreirense, inaugurou a 20 de Maio o seu mítico e grandioso Ginásio-Sede. Quinze anos antes, em 22 de Outubro de 1941, o designado “Movimento Pró-Sede” procedera à aquisição (5$10/m2) de um terreno de 1.512m2, colocado em hasta pública pela Câmara Municipal do Barreiro e arrematado por Albino José de Macedo em nome do Futebol Clube Barreirense, então presidido por Jacinto Nicola Covacich. Em 8 de Maio de 1947 efectuou-se o assentamento da primeira pedra e em 27 de Agosto de 1949 começou a encher-se o primeiro cabouco. Sob a orientação de António Balseiro Fragata (Presidente da Comissão Administrativa do Ginásio-Sede), esta obra, ímpar no panorama desportivo nacional e avaliada em 2400 contos, beneficiou da contribuição de diversos subsídios oficiais, nomeadamente do Ministério das Obras Públicas (550 contos), Ministério da Educação Nacional (80 contos), Câmara Municipal do Barreiro (30 contos) e Governo Civil de Lisboa (15 contos).
Mas a sua enorme riqueza e singularidade resultou, para além do contributo gracioso do autor do projecto (Manuel Nunes Machado) e dos técnicos responsáveis (Luís Raimundo dos Santos, João da Luz, Luís Alberto Figueiredo do Vale, Leonardo de Carvalho, Luís Carvalho da Costa e Jorge Feio), do trabalho voluntário de centenas de Barreirenses que, em horário pós-laboral e aos fins-de-semana, ergueram o edifício com um empenhamento, dedicação, zelo e competência inigualáveis. A cedência de materiais de construção, de invulgar qualidade e bom gosto, viabilizou e deu excelência à primeira obra do género em Portugal. A realização de espectáculos, sorteios (automóvel, vivenda, etc.) e concursos, o recurso a cotizações e donativos de sócios e simpatizantes, constituíram também formas criativas e generosas de um imprescindível suporte financeiro à construção do Ginásio-Sede.
A manhã de 20 de Maio de 1956 nasceu chuvosa, mas a tarde desse inesquecível domingo virou solarenga e primaveril, associando-se alegremente às distintas e nobres cerimónias de inauguração do Ginásio-Sede. Desde Coina, um imenso cortejo percorreu o Concelho, saudou e foi emocionadamente ovacionado pela sua população. Ilustres personalidades nacionais, com realce para o Ministro da Educação Nacional e o Director Geral dos Desportos, associaram-se a diversas entidades concelhias e distritais, nomeadamente o Governador Civil de Setúbal, o Presidente da Câmara Municipal do Barreiro e o Provedor da Santa Casa da Misericórdia. António Balseiro Fragata procedeu à entrega das chaves do edifício ao Presidente do Futebol Clube Barreirense, Armando da Silva Pais, acompanhado de outros dirigentes, entre os quais Jacinto Nicola Covacich (Presidente da Assembleia Geral) e Francisco Pereira Mendes (Presidente do Conselho Consultivo e de Contas). Sobrelotado de adeptos transbordantes de emoção e alegria, o Ginásio-Sede abriu finalmente as suas portas, ao serviço do Desporto e da Cultura Barreirense, prenúncio de uma história de constantes e inolvidáveis momentos de afirmação desportiva e cívica.
O saudoso jornalista Barreirense Alfredo Zarcos foi indiscutivelmente o mais brilhante e consequente divulgador da heróica construção do Ginásio-Sede. Os seus relatos dos inesquecíveis Comboios da Pedra são testemunhos emocionados, arrebatadores e empolgantes da epopeia mais grandiosa da história do Futebol Clube Barreirense. Na edição de 24 de Maio de 1956, com a sua assinatura, podia ler-se no Jornal do Barreiro: “ Ao cabo de quase sete anos da mais canseirosa, da mais esforçada, da mais heróica cruzada, de tantas que o Barreiro é rico de exemplos, inaugurou-se o maravilhoso Ginásio-Sede do Futebol Clube Barreirense, lar imenso do popular e prestigiado clube da nossa terra (...). Agora tudo é já realidade, facto consumado. Certeza também o era há muito, desde o dia em que os primeiros esforços das gentes Barreirenses abriram, largas e profundas, as fundações de onde começaram surgindo para a luz das grandes realizações, as paredes poderosas desse sonhado lar, tão fortes, tão resistentes, como a vontade rubra que dominava os seus obreiros (...). Está em festa o Barreirense! ”
No próximo sábado, no cinquentenário da sua inauguração, eu quero estar presente no Ginásio-Sede do meu querido Futebol Clube Barreirense. Para honrar a obra e a memória de todos quantos souberam concretizar um sonho lindo, erguer uma obra que tanto orgulha o Barreiro e os Barreirenses. Sei que a alegria e a emoção estarão presentes em todos nós, que as lágrimas escorrerão dos meus e de muitos outros olhos. Nós, Barreirenses, somos assim: emotivos, apaixonados, vibrantes. Assim temos feito História. E assim queremos continuar a Ser.
a
Entre os presentes na cerimónia destacou-se, embora já debilitada, a poetisa Maria Helena Bota Guerreiro, que veio a falecer em Fevereiro do ano seguinte. A D. Maria Helena, “emérita trovadora do F. C. Barreirense” (Carlos Silva Pais, Prefácio do livro Giesta em Flor, 2007), brindou-nos com a leitura, sentida e arrebatada, de um magnífico poema alusivo à efeméride.
Foi com ela que aprendi a gostar de poesia, embora não seja, ainda hoje, o meu género literário predilecto. Lembro-me que, quando da publicação em 23 de Outubro de 1967 do livro Brisas e Nortadas, Maria Helena presenteou a minha mãe com um exemplar que li e reli, sempre com muito agrado. Em sua memória, e também de ‘Abril’, permito-me transcrever um poema de sua autoria, que muito recentemente descobri na Biblioteca Municipal do Barreiro, ao folhear o seu segundo livro Poemas do Meu Horizonte, publicado em 1980:
a
1º de Maio de 1974

O dia amanheceu de sol radioso
Nas almas, corações, na natureza.
Tudo foi alegria e tal beleza
Que eu nunca vi um dia tão formoso!

O gesto fraternal e generoso
Surgiu na amplitude da grandeza.
Por toda a parte o riso e a gentileza
Nesse dia de Maio maravilhoso.

Deitámos fora os preconceitos velhos
Sorriso lindo o dos cravos vermelhos!
Que encantadora essa alegria sã!

Bendito o dia do trabalhador!
Lutemos hora a hora com amor
Pla liberdade e paz do Amanhã!
a
a
Epopeia

A construção do Ginásio-Sede foi uma das realizações mais extraordinárias e consequentes do associativismo Barreirense. Em honra de Alfredo Zarcos, ilustre jornalista e meu estimado consócio, que tão valioso contributo deu à História do Barreiro e do FCB, apresento excertos de um dos seus textos mais belos, publicado no Jornal do Barreiro (25 de Janeiro de 1951) quando, passo a passo, mas com uma coragem e dedicação incomensuráveis, os Barreirenses erguiam já a sua futura casa-mãe.
a
II Comboio da Pedra
Seis horas e meia da manhã. Um nevoeiro cerrado envolve o Barreiro que dorme, que repousa na cama a merecida manhã de domingo. A luz mortiça, pobre, da nossa iluminação são pontos baços que o nevoeiro mal deixa distinguir. Reina o silêncio e a humidade da madrugada. Mas lá para as bandas do parque, junto à obra do Barreirense vai grande azáfama. Faz-se ali a concentração para a partida do II “Comboio da Pedra”, organização dos “cem aos duzentos” que vão aparecendo, surgindo de todos os lados como sombras fantásticas saindo da neblina. O infatigável Fragata dirige tudo. Partem as primeiras camionetas e os primeiros carros; vão cheios de gente alegre e voluntariosa. Saem mais carros, motos e até bicicletas! (…)
Chegámos. Eis a pedreira imensa. Lá está o comboio, disperso, recebendo a carga. Vista de cima a enorme clareira afigura-se-nos um formigueiro. Trabalha-se afanosamente. Novos e velhos, gente de variadas posições na vida, nivelados ali pelo mesmo ideal clubista numa manifestação impar de dedicação colectiva de que só a gente da nossa terra é capaz. (…)
Em Coina, uma caravana de trezentos ciclistas aguarda o comboio, escoltando-o; e na manhã, toda luminosidade, triunfante o imenso desfile atinge grandiosa imponência. (…)
A imponente construção está pejada de alto a baixo de gente entusiasta que recebe o comboio em apoteose. (…)
A tarde avançava já, quando a jornada triunfal findou.
Assim se faz colectivismo, no Barreiro e assim o nosso povo se enobrece.
a
A Bola, na sua edição de 21 de Maio de 1956, em reportagem assinada por Afonso Lacerda, com o título “Do Sonho à Realidade…”, dedicou toda a sua última página ao acontecimento. Quatro fotos ilustraram a peça, uma das quais a de António Balseiro Fragata, intrépido activista da sua construção, Presidente da “Grande Comissão Pró-Ginásio”, a quem Afonso Lacerda dedicou as seguintes palavras:

Alma grande em corpo franzino, autêntico repositório de energias e exemplo vivo do muito que os homens podem fazer quando lutam por um ideal e sabem vencer com fé e entusiasmo os obstáculos que para outros constituem barreiras intransponíveis (…)
Lutou, mas sentiu sempre à sua volta outras vontades, igualmente fortes e decididas, de homens que queriam levar avante essa iniciativa.
Conjugou esforços e dedicações. Orientou vontades e entusiasmos, de modo a tirar o mais alto rendimento das possibilidades que se lhe ofereciam.
Durante sete anos, sem tréguas, sem férias, sem descanso, António Balseiro lutou e venceu. Venceu as dificuldades e os cépticos, dotando o seu clube, a sua terra e o seu país duma obra que é motivo de orgulho de todos os que nela colaboraram e daqueles que a podem agora admirar, como desportistas e como portuguesesa
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O infatigável Fragata
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Tive o prazer de conhecer e conviver com António Balseiro Fragata. Funcionário da Câmara Municipal de Lisboa, nasceu em Leiria, mas residiu no Barreiro desde muito novo. Amigo de meu pai, guardo dele a imagem de um homem muito sério, educado, apaixonado pelo seu clube e respeitadíssimo por toda a Família Barreirense. Feliz o clube que teve no seu seio tão ilustre personagem e protagonista.
Mas se a história da construção do Ginásio-Sede passa inevitavelmente pela referência a António Balseiro Fragata, é obrigatória a exortação de todos os Barreirenses que contribuíram para a sua edificação, com trabalho generoso, gratuito, empenhado e competente. E, também de populares anónimos, alguns dos quais não residentes no Barreiro, como se conclui deste exemplo espantoso, expresso na seguinte carta, assinada por José Jesus Duarte (Lisboa), em representação de sete desconhecidos entusiastas do clube ‘alvi-rubro’, publicada na secção de Alfredo Zarcos “Coisas da Nossa Terra” (Jornal do Barreiro, 27 de Dezembro de 1951).

Eu e mais sete colegas, todos vidraceiros, propusemo-nos auxiliar-vos na colocação de todos os vidros do vosso Ginásio-Sede, se acaso esse trabalho não está começado ou concluído.
Seríamos sete homens, a quem os senhores nada teriam que pagar e nós sentiríamos grande prazer em podermos deste modo ser úteis `a vossa obra e em prol do Desporto.
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A primeira sede do FCB situara-se na Rua do Conselheiro Serra e Moura (actual Rua Almirante Reis), nº139. Em Maio de 1912 transferiu-se para a Rua Aguiar, nº 49, em 1918 para o nº 111 e posteriormente para o nº 150 (no Largo do Casal). Entre 1932 e 1937 a sua sede localizou-se em Lisboa, regressando ao Barreiro em 1939, ocupando o Chalet Rebelo (2 pisos), sito na Rua Dr. António José de Almeida. De Abril de 1940 a Maio de 1956, o FCB teve a sua sede social localizada no nº 154 da Rua Marquês do Pombal.
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A construção do Ginásio-Sede revestiu-se de enorme importância. A dinâmica criada a partir de 1941, com a formalização do “Movimento Pró-Sede” e, sobretudo a partir de 1946, pela criação da “Grande Comissão Pró-Ginásio”, teve consequências imediatas:
- o número de associados cresceu vertiginosamente; quadruplicou de cerca de 500 em 1947 para aproximadamente 2000 em 1950
- perspectivou-se e consolidou-se um alargamento da influência do clube no tecido económico, social e cultural do Concelho
- verificou-se um revigoramento das actividades desportivas
- reforçou-se a mística e a identidade Barreirenses.
Ao longo de mais de cinquenta anos, o Ginásio-Sede tem sido local de convívio e de tertúlia. Frequentado por muitos sócios do clube. De há vários anos a esta parte é raro encontrar, à excepção dos vogais do basquetebol, dirigentes dos Órgãos Sociais no Ginásio-Sede, para além das noites de Reunião de Direcção, Assembleia-Geral ou Cerimónias Solenes. E, mesmo nesses momentos, é vê-los entrar e sair apressados e fugidios. Não é aquela a nossa Sede? Não era dali que uma multidão de sócios debandava nas tardes de domingo rumo ao ‘Manuel de Mello’? Não foi ali, que em noites de magia, comemorámos as grandes vitórias de todas as modalidades? A quem convém ocultar e fazer esquecer esta verdade e esta tradição? A quem?
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[Excerto do Capítulo IV - Locais de Culto
Livro PROVA DeVIDA - Estórias e memórias do meu Barreirense]
(continua)

terça-feira, dezembro 02, 2008

Memória Barreirense (XXVIII)


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Os ‘pintainhos’
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Na temporada de 2005/2006, o FCB foi contemplado com o Prémio Cremildo Pereira, atribuído pela Federação Portuguesa de Basquetebol ao(s) clube(s) com mais atletas de Minibasket – masculino, feminino e soma dos dois géneros.
Para a recepção do bonito troféu, desloquei-me em representação do FCB à Anadia, onde decorreu em 2 de Abril de 2006, a Final a 8 da LII Taça de Portugal. Pavilhão lotado, em tarde de muito calor, para um sempre apetecível FC Porto-Benfica. Cheguei cedo, com o objectivo de distribuir largas dezenas de revistas Barreirense Basket pelos convidados presentes. No intervalo do jogo, recebi o troféu Cremildo Pereira – Minibasket masculino. O Barreiro foi também premiado no sector feminino, tendo Vasco Marques, Presidente do Grupo Desportivo da Escola Secundária de Santo André, recebido o respectivo troféu. Arala Chaves, Presidente da S.A.D. da Associação Desportiva Ovarense, recebeu o prémio correspondente ao clube com mais praticantes (masculinos e femininos).
Sinal da cordialidade existente entre os dois clubes solicitei ao fotógrafo de serviço na cerimónia, que efectuasse um registo com Vasco Marques e eu próprio, imagem que foi divulgada na edição seguinte do Jornal do Barreiro.
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“– Lisboa é Portugal – gritou o outro. – Fora de Lisboa não há nada. O país está todo entre a Arcada e S. Bento!...” (Eça de Queirós, Os Maias, edição Círculo de Leitores).
O Portugal dos nossos dias, apesar do excessivo centralismo que ainda o caracteriza e penaliza, já não é o mesmo que o grande romancista nos retratou com tão reconhecido talento. No basquetebol e, felizmente, em tantos outros sectores, certamente mais importantes da vida do país. Há mesmo quem atribua ao Barreiro o epíteto de Capital do Basquetebol. De facto, o FCB no sector masculino e o Grupo Desportivo da Escola Secundária de Santo André (GDESSA) no basquetebol feminino, têm sido expoentes das boas práticas a que a modalidade pode aspirar. Com fortes escolas de formação, do Minibasket aos Juniores. E equipas seniores competitivas, com presença significativa de atletas oriundos dos escalões jovens dos respectivos clubes.
É fundamental que os clubes praticantes da modalidade no Barreiro tenham relações exemplares e se articulem – com o tecido empresarial e com a autarquia – de forma inteligente e consequente. Nos dois anos de mandato directivo, tive consciência dessa necessidade, mas a sua implementação sofreu, aqui e ali, obstáculos e incompreensões. No final do meu exercício directivo escrevi a Vasco Marques e também a António Fernandes, Director do Galitos FC:
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Caro Vasco Marques:
Consumada a eleição dos novos Órgãos Sociais do FC Barreirense e o meu abandono da sua Direcção, permita-me que saúde e lhe agradeça, em nome individual, a forma cordial, responsável e construtiva, como se pautou a relação entre a Secção de Basquetebol do Grupo Desportivo da Escola Secundária de Santo André e a Secção de Basquetebol do FC Barreirense, que procurei defender, servir e engrandecer, ao longo de exigentes quão estimulantes dois anos.
Muito ficou certamente por fazer, articular e implementar.
Espero e desejo sinceramente que as Secções de Basquetebol dos nossos clubes possam aprofundar os vínculos de colaboração e solidariedade, ao serviço do Basquetebol.
Com os meus cumprimentos,
Paulo Calhau
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Na época seguinte (2006/2007), o FCB voltou a receber tão relevante troféu, manifestação inequívoca da nossa força, sustentabilidade e coerência.
Derivado da expressão Biddy Basketball (tradução à letra: bola ao cesto para pintainhos) o Minibasket foi idealizado por Jay Archer, norte-americano nascido em 1912, Sranton - Pensilvânia. Nos finais da década de 50, após outras experiências, teve a ideia de baixar a altura das tabelas dos campos de basquetebol, fazendo uma adaptação das tabelas oficiais. Resolveu ainda reduzir as dimensões e o peso da bola.
Rapidamente divulgado nos Estados Unidos da América, Canadá e Porto Rico, o Minibasket chegou à Europa em 1961 (Espanha) e a Portugal (Moçambique, 1964 e Porto, 1966), devido à acção respectivamente de Cremildo Pereira e de Eduardo Nunes, campeão nacional pelo FCB. A partir de 1970 o Minibasket registou em Portugal um grande desenvolvimento a nível escolar e, posteriormente, foi implementado por um número crescente de clubes.
O FCB tem dedicado uma particular atenção à prática e desenvolvimento do Minibasket. Assumindo-se como Clube Formador, e indiscutivelmente como um dos mais relevantes do panorama basquetebolístico nacional. Com uma política desportiva assente na promoção e integração dos seus juniores mais qualificados na formação sénior, pode dizer-se que o sucesso dessa opção tem estado directamente ligado aos naturais ciclos de crescimento e desenvolvimento do Minibasket Barreirense.
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Revelação
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Em Abril de 2006 tive o prazer de acompanhar o Miguel Graça a Oliveira de Azeméis. O valoroso basquetebolista tivera, com apenas 19 anos, uma prestação altamente meritória na sua primeira temporada na Liga Profissional e, decorrente da sua eficácia, foi contemplado com o prémio Revelação.
Foi um dia bem agitado, cansativo mas igualmente feliz e gratificante. Apressei as tarefas hospitalares e, ao início da tarde, regressei ao Barreiro para recolher da mãe do Miguel Graça, calçado e indumentária mais consentânea com a importância da cerimónia prevista para essa noite. O Miguel estava próximo de Mira - Aveiro, em estágio da Selecção Nacional de sub-20, preparatório para o Campeonato da Europa - Divisão B, que viria a decorrer em Lisboa no mês de Julho, com a presença de mais três atletas Barreirenses, António Pires, David Gomes e João Santos. Depois de uma primeira etapa da viagem, cheguei ao local de estágio. Confirmada a autorização de Pires Antunes, responsável da delegação federativa, para uma ‘saída precária’ do Miguel, lá partimos rumo a Oliveira de Azeméis. Foi uma noite bem bonita para o nosso atleta. Sem vaidade, algo tímido até, mas não disfarçando natural alegria, o Miguel foi muito bem recebido por todos os colegas que iriam ser igualmente premiados, bem como pela generalidade dos dirigentes e treinadores presentes no Hotel Dighton. Jantámos em mesas diferentes. O Miguel com outros atletas. Eu, com dirigentes de diversos clubes da Liga de Clubes de Basquetebol. Foi um jantar que me desiludiu. Conversa desinteressante. Onde se falou muito de futebol, quase nada de basquetebol...
Concluído o repasto, foi tempo de discursos e da entrega dos prémios, da pose para as fotografias da praxe e das despedidas. O regresso adivinhava-se fisicamente exigente. Teríamos que regressar primeiro ao ‘Hotel da Selecção’. Para mim, faltariam ainda muitos quilómetros de estrada, já a madrugada se iniciava. Em Leiria, não resisti ao sono e ao cansaço. Na A1, decidi pernoitar num hotel na área de serviço respectiva. Poucas horas depois, voltei à estrada para comparecer no meu Serviço de Pediatria, como habitualmente, antes das oito e trinta da manhã.
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Com Mário Gomes e… Edson
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Foi a primeira Final Four em que estive presente, após ter concluído funções directivas. Na Capital do Móvel tivemos uma excelente prestação e alcançámos o 3º título nacional de Juniores A. Assisti aos jogos junto de Mário Gomes, que fora treinador da equipa sénior nessa temporada trabalhara com a quase totalidade dos atletas presentes em Paços de Ferreira.
Recordo quatro momentos dessa viagem: a emoção de um habitualmente mais contido Francisco Cabrita no final da prova; a deslocação de António Pires e Miguel Graça à bancada onde nos situávamos, para um abraço efusivo a Mário Gomes; a homenagem a Edson Fernandes, que David Gomes protagonizou com os seus colegas, no final da última e decisiva vitória; o jantar que tive num restaurante do Porto, com Francisco Cabrita, Mário Gomes e companheira, e que reforçou importantes laços de amizade.
Mantive posteriormente uma relação de proximidade com Mário Gomes, mesmo quando abraçou novo projecto profissional, ao serviço da Federação de Basquetebol da Jordânia. Nas vésperas do 25 de Abril de 2007 enviou-me um e-mail onde emergia alguma amargura e pessimismo pelo percurso decorrido após Abril de 1974. Para ele e outros amigos, escrevi a esse propósito um texto para Rostos, no dia 25 de Abril de 2007:
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Ainda e sempre!
“Portugal, o Estado, a administração pública e as grandes empresas privadas estão a mudar de pele. E talvez a sociedade. Mais uma vez. Ainda é difícil saber se para melhor ou pior. Ou se voltaremos em breve ao que éramos. Mas ninguém tenha dúvidas de que a operação está em curso. Mais Espanha. Mais concentração empresarial. Mais ligações perigosas entre o Estado e a empresa privada. Mais dependência das multinacionais. Menos dinheiros europeus. Mais emigração de portugueses para o estrangeiro. Mais controlo do governo sobre a sociedade. Mais vigilância sobre os cidadãos. Mais precariedade do trabalho. Mais saúde privada. Menos protecção social. Mais turismo de massas. Mais destruição dos centros históricos das cidades. Mais aviltamento do que resta do litoral. Menos urbanismo. Como sempre, ninguém conhece o resultado. Mas vale a pena estar atento ao caminho.” (António Barreto, Público de 22 de Abril de 2007).
Estas palavras do destacado sociólogo que semanalmente me oferece um olhar independente e lúcido da realidade portuguesa contemporânea foram publicadas a escassos três dias da celebração do 33º aniversário da Revolução de Abril.
Alguns, porventura mais precipitados, poderão ver nelas um desencanto desmedido com a evolução da Democracia e da Liberdade no Portugal que António Barreto tão bem ajudou a construir e a consolidar. Com muito amor pela justiça, pela lei, pelo bom-senso. E que lhe valeu ataques de tal forma indignos e soezes, e tentativas de enxovalho público do seu carácter, da responsabilidade de alguns profissionais da política – já então velha e decrépita, embora pretensamente igualitária e popular.
Também eu tenho como verdadeiras as palavras de António Barreto. Também eu tenho pena de alguns dos caminhos da nossa política. Também eu tenho nojo de alguns, demasiados, protagonistas da nossa classe política. Mas hoje, apetece-me sobretudo lembrar que o 25 de Abril me (nos) deu: mais Paz, mais Liberdade, mais Pão, mais Saúde, mais Educação. Acham coisa pouca e secundária?
Hoje, 25 de Abril, vou comemorar a Revolução dos Cravos. Com recato e de forma intimista. E vou lembrar Amigos, os antigos e os recentes, que hoje não poderei abraçar, de Leça da Palmeira a Amã.
Quero-te tanto, Abril!
Ainda e sempre!

[Conclusão do Capítulo III - Viagens na minha terra.
Livro PROVA DeVIDA - Estórias e memórias do meu Barreirense]
(continua)